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SUPORTES E MODALIDADES


A arte paleolítica surge por volta de 34.000 antes do presente, durante o Aurinhacense. Ao longo de cerca de duas dezenas de milhar de anos esta arte evoluiu estilisticamente, muito embora os temas, as técnicas e os suportes que utilizou se tenham mantido constantes até cerca de 12.000 anos antes do presente, no final do período Magdalenense, quando deixa de ser produzida.

O reconhecimento da arte pré-histórica remonta aos finais do século XIX, tendo sido durante muito tempo relacionada apenas com a arte do Paleolítico Superior europeu, que se considerou circunscrita ao Sudoeste da Europa, particularmente à região franco-cantábrica, estando caracterizada pela sua representação em grutas. No entanto, sabemos hoje que a arte paleolítica é geograficamente mais diversificada e que assume diferentes expressões, podendo ser dividida em três grandes grupos: a arte parietal, a arte rupestre ou de ar livre e a arte móvel.


A arte parietal

A expressão «arte parietal» designa o conjunto de representações de arte paleolítica que se encontram nas paredes das grutas e dos abrigos sob rocha. Concentrada, sobretudo, na região franco-cantábrica (Norte de Espanha e Sul de França), a arte parietal ocorre também em Itália, na Europa de Leste e em Portugal (na Gruta do Escoural/ Montemor-o-Novo).

As grutas e os abrigos sob rocha apresentam, maioritariamente, representações de animais. Os mais frequentes são os grandes herbívoros do Paleolítico Superior (cavalos, mamutes, bisontes, rinocerontes, auroques, veados, renas, cabras), sendo mais raros os carnívoros (felinos, ursos, canídeos). Outras espécies, designadamente, os peixes, as aves ou os répteis possuem uma escassa representação. Os animais apresentam-se de perfil e foram quase sempre desenhados de forma realista.

As figuras humanas são bastante mais raras, esquemáticas, sendo possível, por vezes, diferenciar as femininas das masculinas.

As figurações de mãos constituem um outro tema significativo da arte parietal, podendo surgir em positivo, resultando, neste caso, da aplicação da mão tintada na parede, ou em negativo, quando a tinta foi soprada sobre uma mão que teria sido encostada à parede.
A arte parietal exibe ainda um conjunto significativo de sinais geométricos, ou simples traços.

Uma das técnicas usadas nas representações da arte parietal foi a pintura que utilizou uma gama restrita de corantes naturais como os óxidos de ferro, para obter o vermelho ou os óxidos de manganês e o carvão vegetal para produzir o preto. Tendo por base estes elementos foi obtida uma palete de cores mais variada resultante da mistura de outros ingredientes minerais.

Por vezes, o contorno das figuras foi delineado com um pincel, ou com carvão, sendo o preenchimento feito com diversas técnicas que incluíam o uso de pincéis, dos dedos, de peles ou mesmo o sopro. A utilização destas diferentes técnicas produzia texturas cromáticas variadas, permitindo obter efeitos pictóricos de grande subtileza.

Em associação com a pintura, ou de forma isolada, foi também usada a gravura, realizada com instrumentos líticos. Constituindo, por vezes, a única técnica de representação, a gravura foi utilizada para desenhar partes não pintadas das figuras, ou simplesmente para as delinear.

Algumas figuras foram executadas em baixo-relevo, através do desbaste da superfície da parede, facto que permitia conferir volume às representações.

As próprias formas naturais das paredes das grutas foram usadas igualmente para criar representações, o que permitia que apenas parte do contorno das figuras fosse desenhado.


A arte rupestre ou de ar livre

A expressão «arte rupestre» designa a arte realizada sobre rocha, ao ar livre. Só a partir dos anos 80 começaram a ser divulgados os primeiros sítios com arte paleolítica ao ar livre. O reconhecimento da arte do Vale do Côa desempenhou um papel muito importante na aceitação científica deste tipo de arte paleolítica.

Menos sistematizada e estudada que a arte parietal paleolítica, a arte rupestre do Paleolítico Superior encontra-se identificada em vários locais da Península Ibérica, com destaque para o vale do Douro e seus afluentes (Côa e Sabor) e para o Ocreza, afluente do Tejo, surgindo igualmente na Meseta e no sul de Espanha, concretamente na Andaluzia. Está igualmente referenciada nos Pirenéus franceses.

A grande maioria dos sítios com arte rupestre paleolítica surge junto aos rios, muito embora existam alguns conjuntos conhecidos que se localizam em zonas altas, normalmente de passagem, como acontece em Espanha (Domingo Garcia e Piedras Blancas) e nos Pirenéus (Fornols-Haut, Campôme).

A grande temática da arte rupestre paleolítica são os animais, sendo de referir que as espécies representadas são as mesmas que surgem na arte parietal, a qual inclui, todavia, algumas que são características de climas mais frios. Dominam os grandes herbívoros, igualmente frequentes na arte parietal, com destaque para os cavalos, bois, cabras e cervídeos.

O realismo desta arte permite identificar circunstancialmente algumas espécies de cabras, como acontece no Vale do Côa, com a cabra montesa, (Capra pyrenaica) e com a camurça (Rupicapra rupicapra). Entre os cervídeos destacam-se os veados. De um modo geral, é possível diferenciar os machos das fêmeas pelas particularidades do sexo ou dos chifres e armações.

Algumas espécies como o gamo (Dama dama), as aves e os peixes encontram-se escassamente representadas na arte rupestre ao ar livre, tal como acontece na arte parietal.

As figuras de animais, normalmente da mesma espécie, surgem frequentemente associadas, quer na forma de pares, quer em manadas, parecendo compor cenas. Trata-se de associações distintas das clássicas composições binárias de espécies diferentes, muito frequentes na arte parietal.

Uma outra temática é composta pelas figuras humanas, pouco representadas, quase sempre esquemáticas e incompletas.

Comparativamente à arte parietal os sinais de significado indeterminado são menos frequentes, caracterizando-se por cometas, zigzags, escaliformes, tectiformes, linhas onduladas, sinais geométricos, entre outros.

A arte rupestre paleolítica usou como técnicas a pintura e a gravura, sendo esta última dominante.

De um modo geral, a pintura conservou-se mal devido à sua exposição aos agentes naturais. Não sendo de excluir que pudessem existir figuras totalmente pintadas, parece contudo possível admitir que a pintura e a gravura se completassem na execução dos motivos. Esse parece ser o caso dos cinco bovídeos identificados no núcleo de arte rupestre da Faia, no Vale do Côa, os quais foram gravados por abrasão, revelando vestígios de pintura vermelha que preenche algumas das linhas gravadas, surgindo também em linhas independentes que assinalam os traços do focinho dos animais.

A gravura constitui a técnica dominante nos núcleos de arte paleolítica de ar livre, comportando a incisão, a picotagem, a abrasão e a raspagem.


A arte móvel

A arte móvel compreende o conjunto de obras de arte realizadas sobre objectos ou materiais de pequenas dimensões, sendo portanto facilmente transportáveis. A arte móvel é muito diversificada integrando peças artísticas, sem carácter funcional e objectos decorados.

Entre as peças artísticas sem valor funcional destacam-se as estatuetas de animais e as chamadas «Vénus paleolíticas». Estas últimas são pequenas figuras femininas esculpidas em osso, marfim ou rocha, ou moldadas em terracota, que exibem alguns dos atributos sexuais femininos (seios e ancas) exagerados. Encontradas por toda a Europa, estas estatuetas têm sido interpretadas como associadas ao culto da fertilidade humana e da natureza.

No grupo de peças sem funcionalidade visível integram-se ainda algumas placas e seixos pintados, ou gravados com representações quase sempre zoomorfas, com características semelhantes às que encontramos na arte parietal.

Os objectos utilitários decorados fazem-se representar por um conjunto muito diversificado de peças, normalmente feitas de osso ou de chifre, entre as quais se encontram propulsores, bastões perfurados, arpões ou zagaias, ornamentadas com motivos geométricos e figuras gravadas. A decoração parece mais sofisticada nas peças que teriam maior duração, como seria o caso dos propulsores e bastões.


Para saber mais:
SANCHIDRIÁN J. L. (2001) - Manual de arte prehistórico, Barcelona, Editorial Ariel, 549p.

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