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LinguagemImprimirDicionário critico

Sonosfera

Jorge Lima Barreto

Por sonosfera podemos entender a amálgama sonora, o fluxo contínuo e/ou descontínuo de sons que nos rodeia, e que o nosso corpo absorve funcionando como caixa de ressonância. Distingue-se a sonosfera  natural e a artificial e  dentro da sonosfera artificial destacamos os envolvimentos sobreliminares e subliminares. A sonosfera é  constante na nossa vida e uma consequência do desenvolvimento do regime áudio, que  trazendo  para a música  sofisticados  sistemas de produção, deu origem a corporações como é exemplo a  Musak, expoente  máximo da música que nos  envolve como presença ausente  em elevadores, jardins, salas ginásios, etc...

Palavras chave: oralidade, ritmo,

Estamos rodeados de sons, vivemos numa sonosfera. Um ruído de fundo, global, envolve-nos, e sub-repticiamente invade os nossos ouvidos; passivamente convivemos com essa amalgama sonora, fluxo contínuo e/ou descontínuo que é a sonosfera.

Podemos considerar dois tipos de sonosfera:

a) a natural, que corresponde a todo o mundo sónico e físico exterior, próprio da Natureza.
b) a artificial, que resulta de sons criados pelo homem, de duas formas: primo: sons incidentais biológicos, como a voz, ou, acidentais de origem tecnológica (e.g. chiar das rodas do carro, o macerar da mó do moinho, o arfar do fole do forno metalúrgico, o ronronar dos motores de combustão, sinais atípicos das sirenes, slot machine, pás de aerogerador, etc); secundo: intencionalmente, sons codificados como a música ou as
mensagens linguísticas.


O ruído inevitável domina poderosamente o nosso sentido auditivo.  

As vibrações eléctricas (fonones) afectam a nosso corpo de mamífero que serve de caixa de ressonância - o som exterior, um ecossistema sonoro, é o nosso mundo real, por nós interiorizado; inconsciente, sem reflexão ou meditação ou sequer racionalização - como respiramos, ouvimos, arquivamos vários
ritmos, tempos, intensidades, alturas, e timbres polimórficos; todavia, pela vontade, algo da luta pela sobrevivência da espécie humana, tentamos dominar toda essa bruma sónica...pulsações de ar, ondas, frequências, que vamos registando - por isso ao som do refluxo das ondas sabemos que estamos junto ao mar; massagem, mais que mensagem.

Podemos agora formular uma crítica da crítica da sonosfera artificial, como etnologia do tempo em que vivemos.

A partir da invenção tecnológica do microfone, do amplificador, do altifalante, e do registo fonográfico, no mundo dos sons fixados, podemos classificar dois tipos de envolvimentos sonoros artificiais:

* sobreliminares, onde os sons são totémicos, e
* subliminares, tipo aerosol, numa atmosfera impalpável e sedativa, distribuída dissimuladamente por emissores sonoros.


A maior parte dos sons que ouvimos ditos ou considerados como música provêem dum sistema sofisticado e totalitário da indústria sónica. Com a electricidade e a proliferação dos mass media da música estava criado um movimento mercantil específico da indústria sonora.

Inicialmente tratava-se dum artifício discográfico, cujas músicas licorosas, pulsações voluptuosas, tendentes à abulia e à hipnose se ouviam por todo o mundo, como estratégia comercial e atmosférica.

A Telemática, ciência da comunicação à distância, situou a sonosfera em diversos espaços e tempos sonoros, transmediáticos, polissensoriais, interactivos.

A sonosfera cinética evoluiu desde o posicionamento estético dos altifalantes, à sua deslocação no espaço, determinada pelo computador, criando uma realidade virtual de espaço e movimento.

O estilo de fácil audição (easy listenning), como em toda a música ligeira, induz o domínio da melodia, da horizontalidade; esboço de texturas harmónicas,  sem sentimento profundo, insinuando um sensualismo  banal; uma música que sub-repticiamente apela à imaginação polissensorial endémica como meio de esterilização  emocional.

Este regime, todavia, trouxe para a música sofisticados sistemas de produção, vanguardas tecnológicas da indústria do áudio; estas edições são simulacros que combinam elementarmente diversas texturas sonoras cujas proveniências formais são as músicas do mundo (folclóricas, tradicionais, clássicas ou ligeira); recolhas trabalhadas com complacência tecnocrática, visando vendas astronómicas, confundindo pacifismo com passividade - apostados como um produto da indústria do lazer; editorial ecologista.

Muzak é uma firma transnacional que criou técnicas de envolvimento sonoro, indiferentemente da música a que recorre. Não se trata propriamente de algum factor de composição musical mas antes de engendramento sónico, nem de improvisação mas de confecção de sons. Assim, a Musak classificou os sons em suaves, que são  as cordas; tónicos, os instrumentos de madeira e, emocionais que são os metais.

Considerou certos factores musicais: o tempo, relacionado com os batimentos do metrónomo por minuto: o ritmos, normalmente de figuralidade pregnante, como a valsa ou a rumba; o timbre instrumental é nebuloso.  Muzak é música tocada por milhões de auditores, fenómeno sinomórfico:...usada como ar condicionado, numa máscara sonosférica. A indústria da música planificada Musak é utilizada em bancos, elevadores, jardins, salas, estádios, ginásios, museus, fábricas, estufas, aeroportos, estações de trânsito, jardins,  etc; sendo um paradigma do conformismo, é o paradoxo da relação múltipla da tecnocracia, do humanismo e do ecologismo, ideologia desencadeada pela indústria musical, o triunfo insidioso do kitsch - Muzak é para ouvir sem escutar.

Podendo a fonte desta música ser um improviso, é significativa duma insurreição contra o maneirismo, a hipercomplexidade e a estratificação de estereótipos, é tentativa dum projecto para-anecóico, i.e. que pretende abolir o elemento sonoro, economicamente rarificador...; sons acústicos e electroacústicos breves e
discretos, ouvidos esparsamente; ritmos em variação contínua, drones e noises meticulosamente controlados coexistem em pretensa suspensão temporal; desaceleração, contemplação, insinuação; trata-se afinal de um conceptualismo reducionista, decorrente da moda do despojamento nas artes decorativas. Uma frente abolicionista, regime de poupança sónica contra a poluição degradante do sentido auditivo.

Noutra vertente podemos falar do músico improvisador paisagista que considera que o papel dos músicos não é reproduzir determinadas obras estéticas para prazer dum auditório reservado, mas intervir como qualquer arquitecto ou urbanista na cidade ou no campo criando paisagens sonoras artificiais.

A teoria ecologista científica (como a de Murray Schafer) fez um inventário sistemático de sons no sentido de nos protegermos de ruídos nocivos que devem ser reduzidos pelos sons artificiais e/ou artesanais.

A música ambiental tem o sentido cósmico da criação original de mundos sonoros envolventes, propugna a comunitarização. Na sua ecopraxis, é pela difusão da música acusmática em lugares públicos ou urbanos, nesse carácter experimental utiliza todas as possibilidades do espectáculo, em novos sítios como a montanha, a pradaria, o mundo subaquático ou o estratosférico...o seu imaginário, monótono aspira à boaventura ecológica.

A sonosfera artificial é metaestilo, polimorfismo, orgasmo olímpico, cacofonia ou plenitude mística, pulsão colectivizante; como na horticultura: polinização e hibridação.

Laboratório cultural, investimento anónimo na experimentação, prática de insuspeitos modelos como percepções e relações alternativas; sendo rizomórfica, a sonosfera artificial empreende novos processos criativos de produção. Propõe um novo objectivismo - enredo multifário, citação, miscibilidade, invenção maravilhante de objectos aventados pela lógica do  pensamento absurdo, de pregnante sensualidade. O seu ritmo é abstracto, apenas determinado por obscuras leis da mecânica e da electrónica ou pela pulsação volúvel da acção humana.

Com optimismo, a sonosfera artificial é um eco-situacionismo crítico e de clariaudiência, associado às viragens da dimensão estética do som.

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