Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Sintoma

Tito Cardoso e Cunha

Sintoma é um termo usado sobretudo em medicina e que designa uma percepção subjectiva denotando uma qualquer disfunção corpórea. Sintoma pode também ter uma significação fora do vocabulário estritamente clínico para designar uma qualquer percepção subjectiva que reenvia para uma outra instância que normalmente a vem a explicar.

Palavras chave: sinal, linguagem, signo, cultura

Sintoma é um termo que se emprega antes do mais na medicina. O sintoma existe sempre em função de outra realidade para a qual reenvia. As doenças têm sintomas. É através deles que o mal se pode manifestar. O mal percepciona-se através dos sintomas que se manifestam no corpo. Os sintomas indicam a presença de uma anomalia no funcionamento do corpo e são sentidos pelo paciente que os pode descrever com maior ou menor acuidade. Os sintomas são subjectivamente percepcionados pelo próprio e descritivamente transmissíveis ao médico, por exemplo, a quem essa percepção não é acessível. Caber-lhe-á interpretar a descrição dos sintomas subjectivos no sentido de elaborar um diagnóstico.

Diferente do sintoma é o sinal, que indica também uma anomalia, um padecimento, mas de maneira observável objectivamente por outrem. Assim, a dor é um sintoma percepcionado pelo paciente, isto é aquele que a sente. A dor como sintoma é-o certamente de alguma disfunção corpórea, ou psíquica no caso da dor mental, mas ninguém a pode sentir connosco ou em nosso lugar. A dor é um sintoma. Resta saber de quê. O sintoma é sempre sintoma de algo que não ele. O sintoma não é por si mas revela sempre uma outra condição. Já a hipertensão, em termos médicos, não é um sintoma dado que as mais das vezes o paciente não tem dela a noção. Pode ser um sinal, que também revela uma outra condição, quando é medida objectivamente, tornando-se assim algo de também observável por outrem. A febre é certamente um sintoma da gripe enquanto subjectivamente sentida pelo paciente mas torna-se um sinal objectivo para o médico quando este a mede e quantifica através de um instrumento de medição como o termómetro. Sintoma é portanto tudo o que é subjectivamente percepcionado pelo paciente como anomalia no funcionamento do seu próprio corpo. Diferentemente, um
sinal, que também pode manifestar uma disfunção, já pode ser universalmente observado e descrito por qualquer observador externo. É claro que quanto mais treinado for o observador na sua arte médica, melhor consegue relacionar o sinal observado com a patologia de que ele é a manifestação. Coisa que a subjectividade do sintoma não permite. Embora o grau de cultura e a capacidade de precisão, descritiva por parte do paciente que o sente, possa ajudar e ser importante na capacidade de o médico alcançar um diagnóstico mais ajustado. Fora do campo estritamente clínico, a noção de sintoma levanta também alguns problemas interessantes. A dor, já vimos, é um bom exemplo daquilo que se entende por sintoma: uma percepção subjectiva apenas descritível por quem a sente. Mas a questão que se pode pôr é a seguinte: de que é que a dor é um sintoma? Naturalmente que de uma disfunção corpórea, mas não só. Vejamos o seguinte exemplo, no âmbito da antropologia, que nos é dado por Pierre Clastres[1]. Entre os Guayaki, como em todas as outras culturas, dir-se-ia, existiam ritos de passagem que marcavam o acesso à idade adulta por parte dos jovens de ambos os sexos. Um desses ritos, operado por um shaman, consistia na imposição de escarificações nas costas dos sujeitos usando para esse fim uns seixos particularmente cortantes recolhidos junto de determinados cursos de água. Desde sempre que os jovens da cultura Guayaki a esse rito se submetiam sem que isso lhes causasse uma particular sensação de dor. Até que um dia, uma primeira jovem recusa submeter-se à escarificação alegando precisamente a dor que isso lhe provocava. Digamos que o limiar da dor se tinha deslocado. O limite do suportável deixou de ser o mesmo. De que era então essa dor o sintoma? Na opinião de Clastres, não se tratava de um sintoma clínico, relativo ao corpo próprio, mas do sintoma de algo mais vasto, isto é uma mutação cultural. Era toda uma cultura, contida até aí, dentro de um certo limiar de sensibilidade à dor, que agora se deslocava e disso se tornava a dor sintoma. De notar que, se a dor era um sintoma já as escarificações, na sua origem, se mostravam como sinais cuja significação era toda ela cultural. Sinais que se inscreviam no corpo não como sintoma subjectivo de algo diferente mas como mensagem assinalando emblematicamente a passagem à idade adulta e à plena integração na comunidade em pé de igualdade com todos os seus outros membros.
Se na terminologia médica a palavra “sintoma” designa tudo o que se constitui como objecto de um disciplina chamada semiologia, este último termo, fora do campo médico, designa também um outro tipo de saber a que o linguista suíço, Ferdinand de Saussurre, deu por objectivo o estudo dos signos em geral. A noção de
signo, no entanto, não se identificará inteiramente com o que se pode entender por sintoma uma vez que o caracteriza este último só muito precariamente é transmissível, o que não acontece com o signo situado no cerne mesmo do processo comunicativo.
A subjectividade do sintoma, uma vez que ele existe enquanto experiência vivida, não lhe dá as características de um sinal objectivo que permita a transmissão comunicativa, pelo menos na sua integralidade. O sintoma terá sempre uma margem de indizível. O exemplo da dor, uma vez mais, ilustra bem esta ideia. Enquanto sintoma, ela exprime um mal ou um padecimento. A comunicação de uma percepção dolorosa pode fazer-se, é certo, pela
linguagem. Mas porventura nunca completamente porque tudo não é possível de ser dito. Há limites para a linguagem. A dor pode em certos casos ser expressa pelo grito que é inarticulado caindo assim fora da linguagem. A dor como sintoma exprime-se também no grito que é pré-linguístico. Ainda mais primitivamente, se assim se pode dizer, o sintoma que a dor é, pode também exprimir-se pelo silêncio que é a forma por vezes dita mais “eloquente” de o fazer. Se, neste último caso, temos o silêncio como a forma mais forte de exprimir a dor enquanto sintoma, o mal que lhe está na origem encontra-se impossibilitado de ser alcançado. A menos que se encontre alguma forma de expressão silenciosa que nos possa transmitir a dor como sintoma. Foi o que a psicanálise infantil conseguiu usando o desenho como forma de expressão. É claro que no caso do adulto, em plena posse das suas capacidades linguísticas, todo o trabalho consiste, no eventual processo analítico, em encontrar a expressão verbal adequada para dizer o sintoma ou o descrever. O que nem sempre é fácil ou completamente possível dados os limites da linguagem.
Pense-se, por exemplo, na dificuldade que sempre há em descrever um sonho cujo carácter sintomático raramente deixa dúvidas. Uma das primeiras pacientes de Freud tinha descrito o processo analítico como sendo uma “cura pela fala.” Descrever os sintomas, como no caso do sonho, é a primeira via – a via real, chamava-lhe Freud – para chegar lá onde isso dói. Em psicanálise o sintoma é apenas a superfície sob a qual uma realidade insiste e persiste em se manifestar. Para que essa realidade se torne acessível e identificável o sintoma contribui decisivamente. Identificada a realidade da dor, a sua real causa, poder-se-ão tentar adequadamente os procedimentos da cura. O sintoma aparece assim como uma forma de manifestar o indizível da dor. O sintoma não é uma forma de linguagem mas antes uma manifestação perceptiva que indica no sentido de algo situado na raiz de todo o padecimento. O que se segue é o que ele, sintoma, permite.


 

[1] Clastres,Pierre, Chronique des indiens Guayaki. Paris, Plon, 1972.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved