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LinguagemImprimirDicionário critico

Signo

José Augusto Mourão

Utilizar um signo ou servir-se duma coisa como signo é desde logo reportar-se a uma dada cultura. Um signo é, pois, algo que, aos olhos de alguém, está em vez de uma outra coisa. É o que traduz a expressão: aliquid stat pro aliquo. Nesta definição cabem o sintoma, o indício, o sinal, as marcas, os gestos, as expressões gráficas, os desenhos, os símbolos, os acontecimentos naturais assumidos como manifestações de uma vontade oculta, do fado, ou da magia.

Palavras chave: índice, ícone, interpretante, linguagem,código

O signo está em toda a parte: encontramo-lo na arte veterinária, nos códigos secretos, na meteorologia e na caça. Qualquer coisa de qualquer espécie, imaginada, sonhada, sentida, experimentada, pensada, desejada, pode ser um signo, desde que esta “coisa” seja interpretada em função de um fundamento que lhe é próprio, como estando no lugar de qualquer outra coisa. Qualquer coisa, seja de que espécie for, ao chegar à mente, é imediatamente convertida em signo, mesmo que a natureza deste signo seja a mais rudimentar e fugidia. Uma mensagem é um signo ou uma sucessão de cadeia de signos transmitidos por um produtor de signos, uma fonte, para um receptor ou destinatário. A progressão da organização familiar, do grupo étnico até à coalição de nações, toda esta série de integrações se baseia numa variedade de códigos culturais, morais, sociais, políticos e económicos, militares e religiosos. A história da humanidade é mais ou menos a história destas integrações e o modo como se configuram e mudam”[1].

Mesmo em campo raso, a natureza está cheia de signos, que valem se o receptor estiver só. Assim, o musgo nas árvores indica em regra o Norte e, contudo, este musgo não é uma mensagem produzida e enviada pela árvore ao receptor. Há signo desde que o receptor decide que projectaria um código natureza, mas a cultura que dá a estes dados naturais o estatuto de emissor (que não tem de ser pessoal e consciente).

Nenhum objecto é em si um signo. Manchas sobre o papel podem não ter nenhuma função semiótica, mas podem também constituir uma fotografia, letras, índices. É o contexto pragmático que empresta um estatuto de signo a um objecto. Utilizar um signo ou servir-se duma coisa como signo é, desde logo, reportar-se a uma dada cultura. A articulação de um signo arbitrário – visual ou verbal – com um conceito de um referente é o produto, não da natureza mas da convenção, e a convenção dos discursos requer a intervenção de códigos.

O signo visual de “vaca” na realidade é mais do que a representação do animal vaca. Um signo é, pois, algo que, aos olhos de alguém, está em vez de uma outra coisa. É o que traduz a expressão: aliquid stat pro aliquo.

É evidente que a palavra /floresta/ é mais fácil de manipular que o objecto para o qual remete. São quatro os elementos constitutivos do signo: o estímulo (a face concreta do signo), o significante (a imagem acústica), o significado (a imagem mental) e o referente (que pode ser um objecto, uma qualidade ou um processo). É também claro que nenhum destes elementos existe independentemente dos outros: um puro significante não existe. Um fenómeno físico (um raio) só adquire o estatuto de significante se entra em relação com um significado. O signo televisivo é constituído pela combinação de dois tipos de discurso, visual e auditivo. É um signo icónico, porque possui algumas das propriedades da coisa representada. Um cão numa película pode ladrar mas não pode morder.

A realidade existe fora da
linguagem, porém está constantemente mediada por e através da linguagem em relações e condições reais. (logo uma significação) sobre determinados acontecimentos exteriores. É assim que há dados naturais que se tornam signos culturais. Não é a noção de signo a tal ponto generalizada que nem temos que a referir à mente humana. Este projecto é inteiramente definido, desde 1909, na teoria de C. S. Peirce, em termos de necessidade de uma teoria geral de todas as possíveis espécies de signo, dos seus modos de significação, de denotação e de informação.

Mesmo na semiótica continental se podem observar duas direcções de investigação: uma que visa a constituição de uma semiótica das culturas (cf. as semióticas conotativas de L. Hjelmslev, os trabalhos de Y. Lotman ou o conceito de epistemé de M Foucault, e outra que visa a descrição dos micro-universos de significação. As correntes que nascem do estruturalismo vão dar origem respectivamente a uma semiologia da comunicação (E. Buyssens, G. Mounin e L. Prieto), a uma semiologia da significação (R. Barthes) e a uma semiótica narrativa e discursiva (Greimas). É a Ferdinand de Saussure (1971) que se deve o primeiro desenvolvimento exaustivo e científico do signo linguístico. Para Saussure, o signo resulta da reunião do significante e do significado, indissociavelmente ligados. Este linguista representa a linguagem como uma folha de papel cujo recto seria o significante e o verso o significado.

Charles S. Peirce, nos Estados Unidos da América, trabalha num outro projecto que não separa a dimensão pragmática do processo semiótico. Apoiado, não na linguística, mas numa reflexão fenomenológica e na lógica das relações, generalizando o conceito de signo, tomando em consideração o contexto de produção e de recepção dos signos, este autor propõe uma semiótica geral, triádica e pragmática. U. Eco (1990) apresenta uma extensa lista de definições do signo. Nesta definição cabem o
sintoma, o indício, o sinal, as marcas, os gestos, as expressões gráficas, os desenhos, os símbolos, os acontecimentos naturais assumidos como manifestações de uma vontade oculta, do fado, ou da magia. Na filosofia de Charles S. Peirce (1839-1914) o signo, ou melhor, a semiose, é uma relação triádica que se estabelece entre um objecto, o seu representamen e o interpretante[2].

No esquema categorial de Peirce: “Um Signo ou Representamen é um Primeiro que se situa numa relação genuinamente triádica com um Segundo, chamado o seu Objecto, de forma a ser capaz de determinar um Terceiro, chamado o seu Interpretante” (CP, 2.274). O relacionamento entre estes modos de ser do signo é visto como dinâmico, e é a partir dele que chegamos àquilo que Peirce entende por “semiosis”. Um mecanismo de feedback, como um termostato, um tear mecânico, um tear de Jacquard, ou mesmo um girassol podem ser entendidos como exemplos de signos
[3].

É essa, de resto, a definição que Peirce dá do signo: “Um signo ou representamen é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez, um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado, denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objecto. Representa esse objecto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de ideia que eu, por vezes denominei fundamento do representamen” (2.228). O signo é “alguma coisa que aos olhos de alguém está por outra coisa a algum respeito e por outra capacidade. Ou: “alguma coisa que representa algo para alguém”. O “a algum respeito” significa que o signo não representa a totalidade do objecto, mas – por via de abstracções diversas – o representa de “um certo ponto de vista” ou “com o fim de um certo uso prático”. Peirce elaborou uma extensa lista de signos – com sessenta e seis variedades, incluindo os intermédios e os híbridos.

Já no campo do não verbal, o esforço mais notável de classificação deve-se a Bally (1939) enquanto o estudo de Jakobson (1970) se centra na classificação dos signos humanos em geral. Na actualidade, apenas uma meia dúzia de signos, incluindo algumas subespécies, se identificam com regularidade e se utilizam comummente, mal ou bem definidos
[4]. Podemos classificar os signos: pela fonte, pela significação e inferência, pelo grau de especificidade sígnica, pela intenção e receptor humano, relativamente ao seu significado, à replicabilidade do significante, pelo tipo de relação pressuposta com o referente e pelo comportamento que estimulam no destinatário.

Quanto à significação e inferência, uma classificação antiga distingue já os signos entre artificiais e naturais. Os primeiros são aqueles emitidos conscientemente por homens ou animais tendo por base convenções precisas para comunicar alguma coisa a outrem (palavras, símbolos gráficos, desenhos, notas musicais, etc.) Estes supõem sempre um emissor. Os segundos seriam, pelo contrário, signos sem emissor intencional, provenientes muitas vezes de uma fonte natural e que são interpretados como sintomas e indícios (manchas na pele, ruído dos passos, nuvens no céu, etc.). Estes signos são também apelidados de expressivos quando são sintomas do estado de alma, como os sinais de alegria não voluntários. Contudo, a própria possibilidade de simulação diz-nos que também os signos expressivos são elementos de uma linguagem socializada e que, como tal, são analisáveis, podem estudar-se e utilizar-se.

Por outro lado, há o caso dos signos verdadeiramente naturais que dividem a opinião dos estudiosos: uns classificam-nos entre os signos, outros negam que possam ser considerados como tal. Greimas, por exemplo, fala de uma semiótica do mundo natural, insistindo no facto de que todos os acontecimentos físicos, o signo meteorológico, o modo de caminhar de uma pessoa, etc., são outros tantos fenómenos de significação através dos quais interpretamos o universo, graças a existências precedentes que nos ensinaram a ler estes signos como reveladores. Buyssens define o signo como um artifício através do qual um ser humano comunica a outro um estado de consciência próprio, havendo quem se oponha a esta posição, pelo facto de que só se está a entender como signo um fenómeno através do qual se infere a existência de outro fenómeno. Ora, a inferência é um processo lógico-dedutivo e não necessariamente um fenómeno comunicativo. A caracterização do signo dependerá então da existência de um
código.

A natureza sígnica extravasa de longe a linguagem verbal. O signo é, antes de mais, um operador de representação. Porém, a condição do signo não é apenas a da substituição, mas a de uma possível interpretação. A semiose ou a produção da significação é um processo triádico que implica três elementos: um signo, um objecto e um interpretante. O universo da semiose é o labirinto da
cultura humana, ela própria uma rede infinitamente virtual de interpretantes, cuja ordem é um modo partilhado de utilizar signos. Temos um mundo de signos que formam uma semiótica do mundo natural e um mundo de sistemas artificiais de signos onde a convencionalidade impera. Conjuntos de signos que vão desde os signos do mundo natural ou de expressão aos artificiais ou de comunicação. O signo é-o sempre para alguém, donde a sua natureza comunicacional.

Mas a natureza (o mundo, o cosmos, a realidade) revela-se a si mesma através dos processos de signos ou semiose. Peirce elabora diferentes definições do
ícone entre 1895 e 1908 e nunca coincidem. Um signo icónico, quando considerado do ponto de vista da similaridade pode ser chamado Hipoícone. Peirce reconhece a existência de Hipoícones na língua natural (“metáforas”), na geometria (“diagramas”), na álgebra e na música ou em qualquer tipo de representação visual (imagens). Mas algumas imagens (“fotografia”) mostram um alto grau de indexicalidade. Há signos icónicos, isto é, signos motivados por semelhança, que transitam por outros canais que não a vista. Exemplos de ícones auditivos: imitação de sons de pássaros, onomatopeias. Ícones tácteis: as bonecas inchadas e outros acessórios em venda nos sex shops, luvas utilizadas em meios digitais, ícones olfactivos, sensores artificiais de cachorros quentes, cheiros de couro novo, perfumes de contrabando. Ícones gustativos: aromas sintéticos de morango, etc.

Há signos visuais que são
índices (o fumo que indica o fogo, quando visto), outros que são símbolos (as cores enquanto tais), outros ícones. São quatro os elementos do signo icónico: o estímulo, o significante icónico, o tipo e o referente. O signo icónico é analógico e remete mimeticamente para um objecto da realidade. O referente é aqui o objecto de que o signo visual dá conta. É o objecto como membro de uma classe, enquanto pode ser reportado a um modelo. O referente é singular (é um token), o tipo é uma classe. O referente do signo icónico gato é um objecto singular (preto, com malhas brancas nas orelhas) mas enquanto este objecto pode ser associado a uma categoria permanente: o ser-gato.

O estímulo é o suporte material do signo: manchas negras na folha de papel branca, traços, curvas. O significante é um conjunto modelizado de estímulos visuais que corresponde a um tipo estável. Tipo é uma representação mental è produzido pela enciclopédia. Já vi gatos e sei que têm bigodes, que arranham e miam. Ou li Les Chatstexturemas que relevam da natureza dos elementos e das leis de repartição
[5]. A forma plástica é uma forma espacial que se articula em unidades significantes não manifestadas: são a posição, a dimensão e a orientação que têm cada uma significados potenciais. A cor articula-se também em unidades mais pequenas, os cromemas: a luminância e a saturação. A cada variação destes cromemas podem corresponder variações de significados cromáticos: uma /forte saturação/ remete para a /energia/. Pode dizer-se que os dois tipos de significante – icónico e plástico – são feitos da mesma matéria, mas têm substâncias diferentes porque as suas formas são diferentes.

Os signos plásticos relevam das famílias do símbolo ou do índice. Exemplos: tal /cor/ que remete para um “conceito” ou um “afecto” (o “sentido do trágico” em Rothko), tal /forma/ que remete também para um significado “secura” em Bernard Buffet. Exemplos de signos plásticos indiciais: um /traçado/ dado, índice da “rapidez” do gesto de traçar, em Bernard Buffet. de Baudelaire. O signo plástico mobiliza códigos que assentam em linhas, cores e texturas, sem qualquer reenvio mimético. Podemos descrevê-lo segundo três parâmetros: a cor, a forma e a textura. A textura é uma propriedade da superfície. J. M. Klinkenberg chama-lhes O ícone é, pois, um signo que remete para o objecto em virtude de caracteres que lhe são próprios e que ele possui, quer o objecto exista ou não: um diagrama, por exemplo. Parece-se com a coisa sem o ser. Não é arbitrário mas motivado por uma identidade de proporção ou de forma. Reconhece-se o santo pelo seu retrato.

O símbolo é um signo que remete para o objecto em virtude de uma
lei (associação de ideias) que faz que o símbolo é interpretado como referindo-se ao objecto. Segundo Peirce (CP 2.293), “Um símbolo é uma lei ou regularidade do futuro indefinido. (...) Mas uma lei necessariamente governa individuais (é incorporada em) e prescreve algumas das suas qualidades. Consequentemente, um constituinte de um símbolo pode ser um índice, e pode ser um ícone”. Numa outra descrição, Peirce (CP 2.307) afirma: “Um símbolo é um signo constituído meramente, ou principalmente, pelo facto de ser entendido como tal, seja um hábito natural ou convencional”. O símbolo age por meio de uma réplica. Na proposição “António gosta de cerejeiras”, “gostar” é um símbolo. Não tem relação analógica com a coisa - arbitrário em relação a ela, decifra-se com a ajuda de um código. Assim da palavra “azul” relativamente à cor azul. Um mesmo signo pode ser ao mesmo tempo ícone, índice e símbolo. “Tomemos, por exemplo, ‘Chove’. O ícone é a imagem mental compósita de todos os dias chuvosos que o sujeito viveu. O índice é tudo aquilo através de que ele distingue esse dia por sua vez na experiência. O símbolo é o acto mental através do qual qualifica esse dia de chuvoso” (2.438).

O ícone constitui um tipo de relação de similaridade que pode prescindir de qualquer relação física com entidades existentes. Se a relação entre S e O, isto é, se S for signo de O em virtude de uma qualidade que S e O compartilham, então S é ícone de S e O constitui, por semelhança, uma identidade em algum aspecto. A estatuária na escultura moderna atesta uma vontade de se ligar à ordem pura, mais abstracta, do simbólico. Quando temos uma pluralidade de signos, a analogia deve ser mais abstracta: estamos então face a uma iconicidade diagramática que se baseia numa relação entre signos que reflectem uma relação similar entre objectos e acções (e.v. uma sequência temporal de acções que se reflecte na sequência dos três verbos do dictum de César “veni, vidi, vici”): nesta instância, o signo é um “diagrama icónico”. Fica uma questão essencial: de onde vêm os ícones? Quando emergem na história da evolução humana? As pinturas nas cavernas, enquanto manifestações icónicas, não precedem a emergência da linguagem na evolução humana. Os signos icónicos são pois aquilo a que podemos chamar signos que performam pensamento-escrita, comparáveis com os signos da fala-escrita. A iconicidade, como primeira forma da simbolicidade, torna-se um acompanhamento do texto escrito, a segunda forma de simbolicidade
[6].

Ser signo é ser um termo numa relação triádica específica. Um signo só existe no interior do processo de significação que o gera. E os seus elementos não têm existência semiótica fora deste processo. “Nós podemos tomar o signo num sentido tão lato a ponto do seu interpretante não ser um pensamento mas uma acção ou experiência, ou podemos mesmo alargar tanto o significado de signo a ponto do seu interpretante ser uma mera qualidade de sentimento” (Peirce, 8. 332). Nenhum objecto é estímulo ou significante em si: um conjunto de sons, um pedaço de papel coberto de manchas nada significam a priori. Um objecto só constitui um signo se lhe atribuímos uma função: um som pode tornar-se um fonema, uma nota de música ou de sirene, etc., estimulações luminosas podem tornar-se letras de morse, etc. Em última análise, o signo é uma instituição que serve para categorizar o mundo, um instrumento de estruturação do universo.


[1] Jacob,François, The Logic of Living Systems: A History of heredity, London, Allen Lane, 1974, p. 320.
[2] Peirce,C. S. , Collected papers, C. Hartshorne e P. Weiss, eds. (v. 1-6) e A. W. Burks. Ed (v. 7-8), Cambridge, MA, Harvard University Press.
[3] Santaella,L. -  A Teoria geral dos Signos, Thomson Pioneira, 2000, p. 91.
[4] Sebeok, Thomas, Signos: una introducción a la semiótica, Paidós, 1996, p. 36.
[5] Klinkenberg,Jean-Marie, Précis de sémiotique générale, De Boeck Université1996, p. 380.
[6] Brandt,P. A., Ground Iconicity (1) http://www.hum.au.dk/semiotics/docs/epub/arcpaab/ico/iconicity.htm

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