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LinguagemImprimirDicionário critico

Acontecimento

Maria Lucilia Marcos

Discursivizar o passado resulta, frequentemente, numa selecção de factos, de acontecimentos pontuados ao longo de um eixo sincrónico. Porque se trata aqui de falar sobre um tempo que a História, a partir do seu lugar de escrita, categorizou como pré-histórico, isto é, anterior à escrita, dever-se-á escapar a esse modo de apropriação. E porque se trata ainda de falar do que a História decidiu já ser arte, dever-se-á tentar uma abordagem multilinear, pressentindo as inscrições rupestres no seu acontecer, aquém e além de um qualquer acontecimento.

Palavras chave: arte da pré-história; escrita; mitos, acto performativo

No mundo contemporâneo, exaustivamente mediatizado, verifica-se uma tendência generalizada para reduzir os acontecimentos à sua versão paradoxalmente mais imediata e mediada. Imediata, porque apropriável no instante da sua visibilidade mais exposta. Mediada, porque traduzível em informação, passível de circular rapidamente entre pessoas e grupos, sedentos de ‘contar o que se passou' e, ao mesmo tempo, sedentos de integrar, de tomar parte no encadeamento dos factos. ‘Eu estava lá, eu vi', ‘Eu sei exactamente o que se passou' - a verdade dos factos ao alcance das palavras e dos gestos, de tal modo que, por vezes, parece haver mais notícias do que acontecimentos...

‘Acontecimentos dignos de nota', ou caixas noticiosas (por exemplo, a descoberta das gravuras de Foz Côa), são aqueles que remetem para o espectacular, que escandalizam, que excitam, que provocam reacções epidérmicas, que se deixam fixar numa moldura fácil de reproduzir, fácil de ‘contar'. Nos faits divers das situações sociais regulares, na langue de bois menos exigente, na fast word mais digerível no momento. Acontecimentos do quotidiano, acontecimentos políticos, acontecimentos artísticos: os jornalistas economizam as análises sérias em nome da rapidez da notícia, os políticos diluem-se em factos que despolitizam a política, as manifestações de arte perdem-se em categorias que as dessingularizam. E neste cenário formatado, vivemos num espelho de superfícies onde deslizamos para ver o mundo e para nos vermos a ver o mundo.

Também os discursos sobre o passado, os modos de fazer História sobre histórias passadas investem, algumas vezes, neste tipo de apropriação e tradução dos factos. O ideal de "comunicação" torna-se muitas vezes o álibi redentor - mas a partir de uma ideia pobre de comunicação. Entende-se que tudo é comunicável, que tudo pode ser dito, que não há incomunicáveis nem indizíveis. Atribuem-se ‘processos de intenção', fazem-se ‘petições de princípio', encadeiam-se causas e efeitos - e, nessa tentativa de ‘comunicar' através do tempo, esquece-se precisamente a temporalidade, os efeitos que a temporalidade exerce na apreensão dos acontecimentos, o papel da memória na selecção e construção das interpretações. A discursivização dos acontecimentos e, em particular, a discursivização sobre o passado histórico introduz no heterogéneo factores identitários, à luz de uma razão maioritária que tende a categorizar os acontecimentos e a universalizar as leituras. Esta suspeita sobre alguns modos de fazer História é, apesar da diferença de registos, semelhante à suspeita sobre o discurso mediático: deixam fugir o que seria singular em cada caso, em cada ‘acontecimento', para captar o mais previsível, o mais repetível.

A concepção de comunicação subjacente é, com se disse, pobre, porque redutora de inevitáveis dificuldades. Pelo contrário, comunicamos porque há diferenças, alteridades, tensões entre realidades e entre interlocutores. A comunicabilidade alimenta-se desse carácter tensional, diferenciador, e não do apagamento das diferenças nem de um ideal a priori de consenso. A razão comunicacional só pode ser suportada em fenómenos de relação e qualquer relação só subsiste entre termos que se confrontam, se diferenciam, se aproximam e distanciam.

Convém, então, perguntar que tipo de reflexão fazer quando olhamos a experiência humana pré-histórica, numa perspectiva arqueológica, mas operando com conceitos contemporâneos filosóficos e das ciências da linguagem. Vemo-nos a ver um mundo através dos vestígios sígnicos deixados pelos homens do Paleolítico, inscritos em rochas nas margens de um rio, resistindo no tempo e no espaço. Falamos de arte, de
arte rupestre, e especulamos sobre o modo de vida, sobre as relações entre os homens desse tempo e os fenómenos da natureza, sobre o modo como percepcionavam, como significavam, como imaginavam, como previam, como sonhavam: exerciam tarefas de sobrevivência (caçavam e colhiam), organizavam-se em pequenos grupos, definiam hierarquias, movimentavam-se, utilizavam os materiais, fabricavam utensílios, simbolizavam, faziam inscrições, marcavam as pedras, animavam o mundo projectando-se em cada elemento... Todavia, cada uma destas actividades, através desse fenómeno primário de projecção, funcionaria sincreticamente com todas as outras; haveria surpresas, medos e prazeres, mas talvez não houvesse factos isolados - tudo e todos participavam do todo.

Se esta intuição estiver certa, não haveria lugar a ‘acontecimentos', a ‘factos'. Não se poderia perguntar ‘o que aconteceu?', mas também não se perguntaria ‘o que é?'. O sincretismo e animismo generalizados não permitiriam quebrar o círculo indiferenciado entre todas as coisas; não haveria ainda um pensamento que conjugasse ‘e', nem que declarasse ‘é'; não se desenhariam ‘relações' nem se definiria o ‘ser' das coisas. Será necessário quebrar a circularidade, será necessário esperar por formas de pensamento mais metódicas e sistemáticas que se encarregarão de operar essa quebra.

Entretanto, bem antes de a Filosofia surgir no ocidente como via real para a sabedoria, o espírito humano povoará o mundo de
mitos, crenças e rituais. A dimensão discursiva e a dimensão pragmática, o dizer e o fazer, o simbólico e o material ligarão precariamente o homem ao mundo e farão da vida uma realidade cada vez mais complexa. Essa dimensão discursiva dos mitos, muito marcada ainda pelo animismo e pelo sincretismo, operará através de narrativas de acontecimentos, de episódios reais e/ou imaginários, parecendo procurar ‘o que é' no que acontece, mas visando repor uma ordem cíclica permanentemente ameaçada, através de um pensamento mágico que assegure essa reposição e continuidade...

O percurso dominante da Filosofia ocidental será inverso: procurará nas Ideias, no Ser, uma relação transcendental, essencial e universal com os fenómenos, com o sensível, protegendo-os e protegendo-se do heterogéneo e da mudança.

Contra essa tendência dominante, Gilles Deleuze (com Félix Guattari), na linha da antiga filosofia estóica, atribuirá ao ‘acontecimento' o estatuto de conceito, desviando-o da essência, da coisa em si ou do ser em geral, mas também das coisas sensíveis. O ‘acontecimento' não é um acidente nem um facto, não é o actual nem qualquer modificação do estado de coisas. É da ordem do real virtual, porque não existe fora das suas efectuações, mas também não se esgota em qualquer delas. Não é ‘o que acontece', não é o início nem o fim de qualquer excesso ou alteração. É algo que se prolonga na espessura de um ‘tempo morto', paradoxalmente ‘passado próximo' e ‘futuro iminente', nunca ‘tempo vivido'. A teoria estóica do acontecimento distingue os ‘corpos' e as ‘misturas dos corpos' (como objecto da Física) das ‘transformações incorporais' (como objecto da Metafísica). Os corpos sofrem acidentes físicos, a nível da sua profundidade, do metabolismo das criações e destruições que os afectam, que afectam os outros corpos e afectam o Todo. Os acontecimentos incorporais envolvem esses corpos à superfície, impondo-lhes verbos no infinitivo (desenhar, colorir...), verbos que definem atributos de estados de coisas, expressos em proposições, em ‘palavras de ordem', como dizem os autores de Mille Plateaux (Deleuze e Guattari, 1980). Palavras que vêm de longe, de fora, sem sujeito da enunciação, num permanente regime de discurso indirecto, num movimento de devir que não se inicia nem termina e que, apesar de incorporais e imperceptíveis, tudo mudam, tudo reterritorializam, após tudo desterritorializarem.

O verdadeiro acontecimento - distinto, pois, do acidente físico (resultante de uma relação causa-efeito) - aplica-se aos corpos, às coisas, mas enquanto
linguagem. Enquanto dito em enunciados verbais performativos permanece inactual e alheio a qualquer fim de representação e a qualquer actualidade mediática. A sua temporalidade própria é puro fluxo, puro devir incaptável em fórmulas ou categorias identitárias e maioritárias. A verdadeira História é feita por aqueles que se opõem à história, que se opõem ao sistema pontual de registar os acontecimentos, que libertam uma linha diagonal através de agenciamentos multilineares. O exemplo pode vir da Música, como da Pintura, da Literatura ou da Filosofia: Pierre Boulez mostrou como, de cada vez de modo diferente, um grande músico inventa uma espécie de diagonal que atravessa a harmonia e a melodia, inventando uma nova técnica e uma nova criação, sem ponto de origem, sem memória. Puro devir (cf. Deleuze e Guattari, 1980).

Puro devir significa que nasce na História, mas não é História; é mais geográfico que histórico. Por esse motivo, não se deve historicizar os acontecimentos, mas ‘evenemencializar' a História. O acontecimento no seu devir é criativo face às condições históricas de experimentação, porque o acontecer, o devir é um conceito trans-histórico. A sua efectivação nos estados de coisas é captado pela História mas, porque não tem princípio nem fim, escapa-lhe (cf. Deleuze e Guattari, 1991). É an-histórico, mas não eterno.

Que dizer, situados na história, sobre a pré-história? A
escrita separa esses dois tempos, mas a escrita é paradoxalmente factor de normatividade dos acontecimentos e de singularidade do acontecer. Que dizer, então, das inscrições paleolíticas, acontecimentos do nosso acontecer, dessa escrita anterior à escrita? ...


Bibliografia

Deleuze, Gilles e Guatari, Félix,  Logique du sens. Paris: Ed. Minuit, 1969.
Deleuze, Gilles e Guatari, Félix, Mille Plateaux. Paris: Ed. Minuit, 1980;
Deleuze, Gilles e Guatari, Félix, Qu'est-ce que la Philosophie. Paris: Ed. Minuit, 1991.

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