Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Vector/Alvo

José Casquilho

O vector e o alvo são signos positivamente correlacionados, atraem-se reciprocamente. Representam forças polarizadas, suspendem e anunciam o movimento, o conflito, uma acção orientada, um enlace - seja na forma de um voto ou de uma descrição. Sendo figuras, tornam-se semas icónicos, ideoletos, e constituem uma espécie de código, reconhecível no contexto, código perceptivo: os seus signos só denotam inseridos num sema. A mensagem que proporcionam é de ordem estética e, recordando Eco, a mensagem com função estética surge estruturada de modo ambíguo em relação ao sistema de expectativas que é o código. O par vector/alvo induz uma estrutura tensiva que pode ser aferida a partir de duas dimensões ou valências - os gradientes da intensidade e da extensão - e denota, em regra, uma pregnância biológica no sentido das catástrofes de regulação de Thom: predação, sexualidade, enlace ou conflito.

Palavras chave: relevo, ícone, código

Nas gravuras da Idade da Pedra e da Idade do Ferro espalhadas pela Europa aparecem representações de vectores dirigidos a alvos. A caça era uma actividade essencial do Paleolítico: os povos eram nómadas e, mesmo com alguma transumância, subsistiam caçando pelo caminho enquanto migravam na alternância de estações.

O vector é o conceito que suporta a representação física de uma força na mecânica, ou de um acontecimento no tempo, uma implicação, e tem a forma canónica de uma seta ou lança apontada, orientada; no seu comprimento expressa a intensidade - também se pode dizer a magnitude - da força que o sujeita e o impele. Representa um movimento cristalizado num símbolo icónico: seja a caça, o ataque ou outro enlace relacional, uma
pregnância.

Barthes, na semiologia da imagem, falava deste como um analogon, semelhante àquilo que representa, logo ligado à significação por uma relação não arbitrária
[1], da mesma forma que o ícone para Peirce estabelece a relação semântica do representamen com o seu objecto, em virtude de certas qualidades comuns[2].

Na Idade da Pedra e sucedâneas, o espaço e o tempo eram vividos de natureza simultaneamente profana e sagrada, dominando a última. O
território era consagrado por rituais simbólicos e mágicos. Como nos recordou Lévi-Strauss, os sistemas de classificação das sociedades agrafas não extraem denominadores comuns que permitam reunir em conjuntos a individualidade de cada fenómeno: se se tenta reduzir o sistema totémico ou mitológico à linguagem racionalista perde-se o seu verdadeiro e múltiplo sentido[3]. Num certo ponto de vista, poder-se-ia dizer que o tempo sagrado não flúi: este apresenta-se como uma espécie de eterno presente mítico[4] que o homem reintegra periodicamente pela linguagem dos ritos. A oposição sagrado/profano é constituída por dois elementos que ora se opõem ora se integram e reflectem a acção e o pensamento humanos em forma de representações míticas e de relações sociais[5]; e o tempo sagrado é aquele que se inscreve no espaço: o passado e o futuro estão escritos no instante presente para quem sabe lê-los.

Na Idade do Ferro em Foz Côa havia conflitos, lutas de guerreiros, simbolizados na rocha da Vermelhosa por homens com falcatas
[6] . O cometa[7], representado na rocha 3 da Canada do Inferno, pode interpretar-se como um vector: um sinal constituído por traços rectilíneos convergentes. O vector também é um símbolo fálico e a distinção vector/alvo pode associar-se a uma distinção do binário emissor/receptor, e eventualmente a uma distinção de género. Na Biologia, vector assume o lugar de elemento de dispersão e inoculação, por exemplo o mosquito relativamente à malária, sendo alvo a população afectada.

A palavra vector é um substantivo que significa mensageiro, transportador, derivada dos termos latinos vehere, vectum, relativos ao verbo transportar. A superfície é o lugar do sentido
[8]: os signos permanecem desprovidos de sentido enquanto não entram na organização de superfície que assegura a ressonância entre duas séries, duas imagens, duas pistas. Podemos opôr à semiótica do código a semiótica das pequenas percepções[9] onde esta seria uma semiótica que se nega enquanto signo, que aponta para aquilo que é o contrário do signo: a força. Esta contradição entre signo e força não é irreparável e constitui o cerne da estrutura tensiva como modalidade generativa. O valor no sentido semiótico[10] é o valor como diferença que organiza cognitivamente o mundo focalizado.

Os vectores são uma modalidade de signo regidos por uma ratio difficilis: uma seta pode ordenar ou aconselhar
[11], neste sentido são também vectores os signos definidos como alvos. O sentido é, em primeiro lugar, uma direcção[12], pois dizer que um objecto ou uma situação tem um sentido é dizer que tende a algo. Na física, a força, a velocidade e a aceleração são grandezas vectoriais e dois vectores são iguais quando têm a mesma direcção e a mesma magnitude[13]. A flecha no arco tenso condensa num instante presente um acontecimento futuro: o disparo atingirá ou não o alvo. René Thom enuncia o tema através de uma alça simbólica que enlaça o predador e a presa[14] e que se resolve com a captura ou a fuga. O enlace simbólico referido pode ser estendido para um campo mais vasto, o da relação entre dois actantes, uma confluência, por exemplo um voto sagrado. De entre as formas salientes, distinguem-se algumas cuja percepção tem implicações imediatas nas catástrofes de regulação[15] - predação e sexualidade - e designam-se por formas biologicamente pregnantes no sentido de Thom. O alvo é um atractor e a noção de atractor generaliza a de ponto de equilíbrio estável num sistema dinâmico.

O binário vector/alvo pode ser identificado com o par intensidade/extensão característico da estrutura tensiva
[16], onde o primeiro termo caracteriza o domínio interno, interoceptivo, que se tornará o plano de conteúdo, e o segundo termo refere-se ao domínio externo, exteroceptivo, que se tornará o plano da expressão.

Correlativamente, pode dizer-se que numa figuração os elementos naturais são visados e apreendidos por meio de duas valências: a da energia que manifestam e a do desdobramento espacio-temporal que são capazes de realizar. A sua posição nesse espaço de correlação constitui o seu valor semiótico. O vector e o alvo são signos icónicos - semas - constituindo a sua circunstância de comunicação e o sistema que os põe em oposição significante
[17] e podem portanto ser considerados - em relação aos signos cuja identificação permitem - como aquilo que Eco designa por ideolecto, um código icónico semi-privado.

 

 



[1] Hénault, Anne,  História Concisa da Semiótica, São Paulo, Parábola Editorial, (1992, 1997) 2006, pag. 55
[2] Rodrigues, Adriano D.,  Dimensões Pragmáticas do Sentido, Lisboa, Edições Cosmos, 1996, pag. 49
[3] Alcoba, Daniel,  Vida e Obra in Lévi-Straus - vida, pensamento e obra,  Editora Planeta De Agostini SA, 2008, pag. 50
[4] Elíade, Mircea,  O Sagrado e o Profano,  São Paulo, (Livraria Martins Fontes, 1957) 2001, pag. 6
[5] Nola, Alfonso di,  Sagrado/profano. Enciclopédia Einaudi: vol.12, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda,  1987, pag. 105
[6] http://dafinitudedotempo.blogspot.com/2008/08/obras-primas-da-arte-do-ca-03-rocha-3.html
[7]http://www.ipa.mincultura.pt/coa/pt/Panels/sh__panels__places/canada/03/img?pFile=img1.gif
[8] Deleuze, Giles,  Lógica do Sentido, São Paulo, Editora Perspectiva, (1969) 2006, pag. 107
[9] Mourão, José A. e Babo, Maria A. ,  Semiótica: Genealogias e Cartografias, Coimbra, Minerva,  2007, pag. 34
[10] Fontanille, Jacques e  Zilberberg, Claude. Tensão e Significação, São Paulo,Discurso Editorial,  (1998) 2001, pag 29
[11] Eco, U.,  Signo. Enciclopédia Einaudi: vol.31, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1984, pag. 44
[12] Fontanille, Jacques,  Semiótica do Discurso, São Paulo, Editora Contexto, (1999, 2003) 2007, pag.31
[13] Pettofrezzo, Anthony J. ,  Vectors and Their Applications, New York, Dover Publications, (1966, 1994) 2005, pag. 4
[14] Thom., René,  Modèles Mathématiques de la Morphogenèse. Christian Bourgois Ed, Paris, 1980, pag. 127
[15] Petitot-Cocorda, Jean, Physique du Sens, Paris, Éditions CNRS,  1992, pag. 315
[16] Fontanille, Jacques, Semiótica do Discurso, São Paulo, Editora Contexto, (1999, 2003) 2007, pag.77
[17] Eco, Umberto, A Estrutura Ausente, São Paulo, Editora Perspectiva SA, (2001) 2007, pag. 137

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved