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LinguagemImprimirDicionário critico

Tipo/Tupos

José Casquilho

A tipologia é uma caixa de Pandora, dizem os exegetas da Bíblia, quando procuram associar imagens como a do peixe enquanto tipo de Cristo. O tipo é signo, pois significa, expressando-se em caracteres, tupos, no âmbito de um código que limita as possibilidades de sintaxe, estruturando significados em unidades de informação, tokens. A linguagem das gravuras paleolíticas de Foz Côa é constituída por um tipo zoomórfico representado por caracteres - cavalo, cabra, auroque, cervídeos frequentemente  bicéfalos - e, ainda, conjuntos de sinais na pedra, traços rectilíneos e outros, eventualmente um código declarativo ou votivo; também aparecem figuras humanas, sobretudo referenciadas ao período da Idade do Ferro. Expressa-se assim uma linguagem num universo de sentido, numa semiosfera de que os estilos permitem distinguir diferentes referentes em períodos distintos num percurso diacrónico.

Palavras chave: signo, marca, linguagem, código

O signo é tipo[1] e o codex era o tronco da árvore do qual se extraíam as tabuinhas de madeira para escrever[2], e assim torna-se o livro. O signo foi introduzido como uma relação triádica a partir das referências ao meio, ao objecto e ao interpretante. A tricotomia introduzida para o meio por Peirce - tom, token, tipo -foi adoptada na linguística com excepção do primeiro termo[3], onde token designa marca, sinal, unidade de informação.

A
marca é um testemunho expresso da passagem pelo lugar. Pode ser votiva, expressando um desejo consagrado, ou pode ser declarativa, exibindo um facto. As marcas ou sinais podem agrupar-se por tipos, de que tupos é um caractere, um símbolo. Enquanto que tipo é uma categoria, uma abstracção, um tupos é uma concretização particular. Ao tipo pode-se associar um estilo. No caso da linguagem das gravuras de Foz Côa, as lápides em xisto exibem um padrão de tipo zoomórfico com figuras de cavalo, cabra montesa, auroques e cervídeos, e conjuntos de traços associados formando sinais.

Retomando a definição de Engler, uma linguagem é o que se produz quando o homem tenta significar seu pensamento por meio de uma convenção necessária
[4]; no caso das gravuras, estamos perante códigos zoomórficos e sinais que são semas, definidos como unidades complexas de significado analisáveis em signos precisos[5]. A pregnância das marcas gráficas é tanto maior quanto mais fácil for lê-las no contexto, quanto melhor a sua percepção. O traço das gravuras de Foz Côa, no sítio do Fariseu[6], ou da Ribeira dos Piscos, mostra figuras que em termos comparativos - estilísticos e outros - permitem situar o conjunto no Paleolítico Superior[7]. Já na rocha da Vermelhosa o estilo menos naturalista e as armas permitem situar a gravura no período da Idade do Ferro[8].

Saussure, a propósito da aparente contradição entre a mutabilidade e a resistência do signo linguístico, introduziu a distinção diacronia/sincronia
[9], relegando o estático para o domínio sincrónico e o dinâmico para a evolução diacrónica. As letras dum alfabeto e os símbolos matemáticos são signos usados segundo normas, portanto legi-signos[10], e é evidente que os caracteres ou signos estão no lugar de outros objectos, constituíndo afinal a própria definição de signo como algo que está no lugar de alguma coisa[11]: aliquid stat pro aliquo.

Os Estóicos deixaram uma teoria da representação distinguindo entre as marcas ou vestígios que se caracterizam por ser corporais e os acontecimentos, estes incorporais.

Os dois grandes sistemas antigos da Antiguidade Clássica, epicurismo e estoicismo, tentaram designar nas coisas o que torna a linguagem possível
[12]: os Epicuristas elaboraram um modelo que era a declinação do átomo enquanto os Estóicos, ao contrário, optaram pela conjugação dos acontecimentos. Para estes, o sistema de signos era ternário; três instâncias constituem o signo[13]: o semainon, o signo propriamente dito, que pode tomar a forma do significante, o tynchanon, o referente, o acontecimento, e o semáinomenon, o incorporal que estabelece a relação entre o signo e a coisa -seja o lekton, o significado -, aquilo que se diz da coisa e que só pode ser compreendido pelo falante da língua.

Foi Peirce quem introduziu na terminologia científica os termos type e token
[14], para expressar a relação entre a lei e a ocorrência de factos, sendo token uma unidade de informação subsidiária do tipo. Um exemplo paradigmático de dois tipos é o tipo hieróglifo e o tipo hierático dos números egípcios, este último referido como tendo algumas semelhanças notáveis com o tipo chinês[15]. Trata-se do que podemos chamar modelos simbólicos - construídos sobre a interconexão de conceitos[16].

Podemo-nos interrogar sobre a valência de um caractere: um tupos. Se usarmos uma analogia química e considerarmos o caractere um átomo de um tipo de
linguagem, então a valência do caractere será o número de ligações que consegue estabelecer com outro caractere do mesmo tipo. A valência de um caractere seria assim usada na acepção de que constitui um liame tensivo formado pelo número de laços que unem um núcleo e os seus periféricos, através da potência de atracção. Precisando a conexão entre valência e valor na semiótica[17], conclui-se que a valência é o elemento analítico do valor - mais precisamente: o valor do valor - que, no caso da estrutura tensiva comporta duas dimensões, gradientes intensivo e extensivo.

Um
código opera o sentido numa semiosfera, um espaço de significados. O código é um sistema de modelização do mundo[18] e restringe o número de combinatórias possíveis àquelas que são efectivas portadoras de algum significado. Para Aristóteles, a relação semiótica não está fechada na díade palavras-coisas mas, pelo contrário, faz intervir quatro termos[19]: as palavras escritas que são símbolos das palavras orais que são signos imediatos das afeições da alma que, por sua vez, são as imagens das coisas. O conceito de praxis enunciativa entende-se como uma instância de convocação das estruturas imanentes mais profundas [20] e designa os processos de sedimentação e de transformação das formas discursivas que o uso das comunidades fixa sob a forma de tipos, de estereótipos e de esquemas.


Fig. 1 - Números egípcios: hieroglifos e símbolos hieráticos, tipos em paralelo (Smeltzer, pag. 32)




[1] Eco, U., Signo, Enciclopédia Einaudi, vol. 31,Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda,  1994, pag. 30
[2] Caprettini, G. P., Código. Enciclopédia Einaudi, vol. 31: Signo, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1994, pag.98
[3] Walther-Bense, Elizabeth, A Teoria Geral dos Signos, São Paulo, Editora Perspectiva, (1974,1979) 2000, pag. 38
[4] Hénault, Anne,  História Concisa da Semiótica, São Paulo, Parábola Editorial, (1992, 1997) 2006, pag. 54
[5] Eco, U.,  A Estrutura Ausente. São Paulo, Editora Perspectiva SA, (1968, 2001) 2007, pag. 134
[6] Zilhão, João,  Arte paleolítico datado por depósitos arqueológicos en Fariseu (Valle del rio Côa, Portugal).Sevilla, Panel: Revista de arte rupestre.  1, 2001, p. 102-103
[7] Zilhão, João, http://www1.ci.uc.pt/fozcoa/turim.html#resumo
[8] http://dafinitudedotempo.blogspot.com/2008/08/obras-primas-da-arte-do-ca-03-rocha-3.html
[9] Rodrigues, Adriano D.,  Introdução à Semiótica, Lisboa, Edições Cosmos, 2000, pag. 42
[10] Walther-Bense, Elizabeth,  A Teoria Geral dos Signos, São Paulo, Editora Perspectiva, (1974,1979) 2000, pag. 12
[11] Idem, pag. XXV
[12] Deleuze, Gilles, Lógica do Sentido, São Paulo, Editora perspectiva,  (1969) 2006, pag. 189
[13] Mourão, José A. e  Babo, Maria A.,  Semiótica: Genealogias e Cartografias. Coimbra, Minerva,  2007, pag. 52
[14] Rodrigues, Adriano D., Dimensões Pragmáticas do Sentido. Lisboa, Edições Cosmos, 1996, pag. 48
[15] Smeltzer, Donald,  Man and Number, NY, Dover Publications Inc.,  (1958) 2003, pag. 40
[16] Alsina, Miguel R., Los Modelos de la Comunicación, Madrid, Editorial Tecnos SA,  (1989) 1995, pag. 23
[17] Fontanille, Jacques e  Zilberberg, Claude,  Tensão e Significação, São Paulo, Discurso Editorial,  (1998)2001, pag 52
[18] Caprettini, G. P. Código. Enciclopédia Einaudi, vol. 31: Signo, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda,  1994, pag.134
[19] Nef. Frederic, Structures Élémentaires de la Signification, Bruxelles, Éditions Complexe,  1976, pag. 39
[20] Mourão, José A. e  Babo, Maria A.,  Semiótica: Genealogias e Cartografias. Coimbra, Minerva,  2007, pag. 205

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