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LinguagemImprimirDicionário critico

Texto

Maria Augusta Babo

Texto é, antes de mais, uma totalidade organizada de sentido. Contrastando com a efemeridade do discurso, actual e evanescente, o texto revela uma concretude e fixação que lhe facultam a sua própria autonomia. É da natureza do texto resistir ao contexto (de origem). Quer isto dizer que a autonomia que define ontologicamente o texto assenta na sua força de ruptura. Mas, por outro lado, é da natureza do texto gerar mais e mais texto, produzindo uma cadeia textual infinita e aberta. Não obstante, o texto enquanto dito envolve o não-dito conferindo à textualidade uma textura intrinsecamente heterogénea.

Palavras chave: escrita, oralidade, legível/visível

O texto é uma unidade de sentido capaz de resistir ao contexto de produção, na medida em que guarda uma força de legibilidade que lhe é intrínseca. Assim, enquanto que o discurso se entende como o produto de um acto de enunciação, do domínio oral, em que os enunciados são sempre actuais e o sentido depende do contexto de enunciação, o texto afirma-se pela fixação e registo que o separa do seu contexto de origem. No vale do Côa perderam-se todos os enunciados mas prevaleceram, como texto legível, as marcas que se autonomizaram do seu tempo. A legibilidade dessas marcas confere-lhes o estatuto de texto e desencadeia mecanismos de análise e de interpretação. A hermenêutica, enquanto trabalho interpretativo, começa onde acaba a interlocução entendida como diálogo pergunta-resposta, na dinâmica discursiva. A efemeridade das práticas discursivas contrasta, portanto, com a fixação dos regimes textuais. O acesso a tempos remotos, anteriores ao aparecimento da escrita e, por isso, vulgarmente designados como pré-históricos, só é possível na medida em que as marcas que resistem e persistem fazem texto, isto é, se dão a ler na sua totalidade e coerência mínimas; se dão a ler na sua iterabilidade, isto é, numa recorrência que permite encontrar a estruturalidade dessas marcas.

O texto encarado como totalidade remete-nos para as suas leis - uma gramática, uma estrutura - ou para uma configuração que medeia um autor e um leitor/receptor, o que permite colocar questionamentos de ordem pragmática e contextual. Lidas enquanto texto, as gravuras de Foz do Côa permitem detectar uma intenção semiósica que está para além da comunicação em presença. Neste sentido, o texto é um mediador do mundo, porque é através dele que o humano pensa o mundo, a sua posição nele e lega esse seu entendimento. A textualização do mundo é essa forma de apropriação da sua complexidade e é ainda o produto da experiência, transformada em narrativa. Nessa medida, ela é sempre uma construção que recorre a dispositivos textuais, como a narrativa, a descrição, a argumentação, etc. A intenção textual coincidirá, para nós leitores, com uma dimensão teleológica inerente ao próprio texto, como totalidade organizada e organizadora de sentido, mas também como distanciação, um efeito de distanciamento, um deslocamento efectuado entre as coisas da experiência e os objectos de saber, ou a reflexão sobre essa mesma experiência. É neste sentido que se pode dizer que a cultura é texto ou que a cultura é um conjunto de textos.

O domínio do texto releva dessa autonomia constitutiva do arquivo, desse legado transmissível e que constitui um salto incomensurável do humano. É essa a ruptura que se observa relativamente às culturas ditas orais. A clivagem entre o mito e a história. O primeiro é sempre actual, a história é escatológica. A cultura do oral é um contínuo que se ancora no presente, sempre actual. O que revém à história como texto escrito, são tempos definidos. As épocas são determinadas e determináveis. O entendimento do processo histórico, do hiato histórico, dá-se na apreensão e compreensão da distentio temporal, do tempo que se distende, que se alonga e que é mensurável a partir dos seus textos.

Diversamente das organizações narrativas de carácter oral, o texto, na sua dimensão inscritível, resiste ao contexto e guarda a sua legibilidade como desafio. Ler as gravuras paleolíticas será, através da análise dos elementos recorrentes, encontrar a sua coerência e coesão internas. A legibilidade textual, a captação ou determinação do sentido deste conjunto entendido como texto dá-se inexoravelmente sempre na própria produção textual, produzindo sempre mais texto como seu comentário. Só nesta perspectiva, aliás, é possível conceber o texto como potencial inesgotável de sentido (pelo menos, tendendo para tal) ou como “proposta de mundo” ou “mundo do texto” na expressão de Paul Ricoeur.

Pode dizer-se que o sentido é, ao mesmo tempo, imanente e transcendente ao texto. Se o sentido é esse telos, essa finalidade última contida no texto mas que o extravasa ao mesmo tempo, também é certo que a própria condição do texto é a de produzir sempre mais texto. A sua força significante, o potencial de significação legível nas gravuras entendidas como texto, advém da relação de intertextualidade que elas acabam por estabelecer com todos os outros fenómenos similares seus contemporâneos – a arte rupestre na sua totalidade. e ainda, os textos que lhe são posteriores. Quer dizer que o contexto do texto é ainda textual, ou melhor: intertextual. Verificam-se fenómenos de palimpsesto contemporâneos ou posteriores à datação das gravuras, mas que desenham, em qualquer dos casos, uma trama verdadeiramente (inter)textual, como se verifica em gravuras da Canada do Inferno.

Entender o trabalho hermenêutico face a textos remotos é entender que a identidade textual tem também uma força produtora ou reprodutora que, sendo a condição mesma da existência do sentido, não tem a pretensão de o esgotar nunca. A legibilidade actual das gravuras do Côa é resultante do conjunto de textos, de natureza arqueológica, antropológica, estética ou outra disponível à leitura. A legibilidade será sempre contemporânea dos textos que constituem o universo de cada leitura. Tais regimes de intertextualidade acentuam uma visão textualista em que tudo é texto e em que se concebe uma textualidade infinita e abrangente.

O texto é ainda uma entidade complexa, resultante de uma heterogeneidade intrínseca, não unicamente verbal mas também não-verbal, porque contém algo que perpassa e atravessa o conjunto de frases, de figuras que o organiza e não é explicitado. O texto apresenta uma economia textual, o não-dito é envolvido pelo dito; passa ou perpassa através do dito e transcende sempre o próprio texto, em termos de conjunto de enunciados explícitos. Através do dito, o texto envolve algo que é, até, da ordem do indizível e é essa organização que sustenta a textualidade. Enquanto que a manifestação é de ordem fenomenológica, legível, o sentido, a textualidade, é da ordem do não-dito, convocando vários regimes semióticos. Neste caso, o conjunto textual composto pelos vestígios figurais daquele vale envolve, implicitos, as suas práticas de vida, os seus modos de organização e de sobrevivência e, até, o tipo de fauna e de flora com as quais esse povo se confrontou. O teor desse não-dito pode ser simplesmente de natureza implícita; é dessa implicitação que goza a textualidade e é ela que constitui a própria economia textual.

Mas o não-dito pode tocar camadas mais profundas da génese do sentido: fala-se, em Foz Côa, do estilo que certas figuras revelam e que torna certos traços inconfundíveis, singulares e singularizados. O não-dito textual constitui, assim, o âmbito da significância por demarcação com o sentido. Ora, a grande aporia da textualidade consiste em, através de um sistema de inscrição, escritural, permitir aceder à dinâmica da formação do sentido: a significância.

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