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LinguagemImprimirDicionário critico

Tatuagem

Maria Augusta Babo

A tatuagem é uma forma de inscrição que usa o corpo como superfície. A pele é, por excelência, essa superfície - zona de interface e de exterioridade do corpo. Um lugar de teatralização somática, dado que o sintoma pode nela expressar-se como signo natural. Mas ela foi escolhida por muitas práticas culturais como espaço de subjectivação, como zona de passagem da natureza à cultura.

Palavras chave: marca, nome, graffiti, arte e corpo

A pele tem sido aproveitada como zona de inscrição de uma multiplicidade de signos: naturais, tais como o sintoma, as cicatrizes ou verrugas, resultantes quer de processos somáticos, de traumatismos do corpo, quer da simples passagem do tempo. Este invólucro do corpo pode assim ser lido como um texto que se vai produzindo ao longo da vida, combinando manchas e tons com marcas várias de que as rugas são as mais correntes. A ideia de que a fronteira do corpo determina ou torna visível a identidade própria levou Didier Anzieu a conceber o conceito de eu-pele. O eu como envelope psíquico tem na pele a sua metáfora corporalizada.

Várias são as cargas simbólicas de que a tatuagem é portadora ao longo dos tempos. A marcação do/no corpo cumpriu, nas mais variadas civilizações e culturas, uma função de distinção, de passagem do corpo natural - não marcado - ao corpo cultural - tatuado. A antropologia, nomeadamente com Lévi-Strauss, estudou esse acto de marcação como uma distinção operada pelo humano de com o corpo da fera. Paradoxalmente, o corpo dito selvagem é aquele que mais se afasta da sua condição natural, de não intervenção. Aí a
marca, de sentido comunitário, veícula a imposição da lei, uma transformação de natureza simbólica. É assim que Michel Thévoz encara o fenómeno; trata-se de "uma encarnação da ordem comunitária". A ruptura desta lógica explica-se, para este autor, pela "passagem da comunidade primitiva à sociedade de estado" o que vem implicar "a instituição de um aparelho especializado, exterior aos indivíduos e codificado independentemente deles." (Thévoz, 1984)

Por seu lado, o Cristianismo recusa todas as formas de marcação do corpo como iniciação religiosa, tais como a circuncisão, e propõe um salto simbólico ao instituir o baptismo, em que a marcação pelo acto de nomeação não tem nenhum tipo de incidência física. É o
nome que figura e funciona como marca e não qualquer intervenção na pele. O Cristianismo adoptou ainda outras operações de simbolização como seja a interdição da injúria e da invocação do nome de Deus, procedendo ao levantamento das interdições alimentares. No entanto, a sociedade ocidental usou as marcas com funções religiosas ou de justiça, sob formas mais ou menos secretas, mais ou menos visíveis, como modo de discriminação dos indivíduos situados nas suas margens. O recrudescimento da tatuagem na Europa dá-se a partir do século XVIII e é comum nos presos, prostitutas e loucos. Tatuar-se era, em certa medida, inverter a carga simbólica da marca ou inverter o motivo de exclusão em ostentação (Thévoz, 1984). Verifica-se uma oscilação entre a marca corporal e a marca espiritual, o que permite entender que, marcando ou não os corpos, o poder sempre regulou e controlou o vivo, as práticas corporais e as posturas do indivíduo, actuando como biopoder e sociabilizando os corpos segundo regras e regulamentações específicas às sociedades e épocas. Sobre esta matéria, nada sabemos do paleolítico, mas poderá supor-se que o corpo foi também lugar de marcação e, por isso, de inscrição e regulação do poder. Mas justamente por se tratar do corpo vivo, faltam vestígios para análise. É por isso que Leroi-Gourhan prefere assentar no utensílio técnico, a definição da natureza étnica.

A tatuagem é hoje tomada pelos seus praticantes como uma espécie de apropriação do corpo e como expressão de uma nova singularidade. É nessa medida que ela é entendida como prática auto-gráfica. A tatuagem, ao revelar-se um meio de identificação pessoal, acaba por integrar uma caracterização social ou de grupo, na medida em que é, ao mesmo tempo, marca de singularização e de pertença. Nesta perspectiva, Le Breton (2004) compara a tatuagem aos
graffiti, ambas expressões contemporâneas de delimitação e apropriação: uma no corpo, outra no espaço urbano.

As sociedades contemporâneas estabelecem com os povos primitivos, laços inequívocos de intertextualidade, no que diz respeito às práticas da tatuagem e de escarificações várias. Porém, o sentido de tais marcas não é o mesmo. ...

Digamos que as tatuagens contemporâneas, sobretudo quando integradas num "projecto de corporeidade marcada" ganham um valor de diferença - uma singularidade - mas inscrevem-se também numa procura mais lata de visibilidade e intensidade relevantes (Ferreira, 2008). Para além da marcação experimental que se traduz na realização de uma tatuagem num local determinado do corpo, a tatuagem extensiva, que corresponde a um projecto de marcação total e harmónica do corpo, definida pelo sociólogo Vítor Ferreira, como "uma expressão iconográfica" caracteriza-se por "uma lógica ostentatória e performativa". A tatuagem passa a acto de transformação do corpo que suscita o olhar do outro. O corpo passa a ser algo que se exibe, se impõe ao outro.

Há ainda uma dimensão estética na tatuagem que vale a pena referir. Desde sempre se assistiu a uma tendência à estetização do corpo. Quer seja através da tatuagem, signo de cultura sobre o corpo natural, quer seja através da maquilhagem, denegando ou velando as marcas temporais e outras singularidades físicas, o corpo presta-se à inscrição. Quanto à maquilhagem nas nossas sociedades contemporâneas, ela não é mais do que um aperfeiçoamento das características anatómicas que são tidas como matrizes de beleza, ao contrário da concepção dos povos ditos primitivos para quem a beleza se revela pela negação da natureza e, portanto, pela adopção de traços estranhos que desfiguram a naturalidade do corpo. A maquilhagem é uma espécie de trompe-l'oeil da pele, acentuando uma intervenção naturalista, artificial, mimética. A esta vertente de trompe l'oeil, em que há como que um sobreinvestimento natural, podemos acrescentar as práticas contemporâneas de intervenção no corpo, como operações plásticas, bodybuilding, etc. A intervenção no corpo, mais ou menos agressiva vai sempre no sentido da padronização a uma estética vigente, fabricada de estereótipos de beleza, isto é, construindo uma matriz corporal perfeita.

A tatuagem é, nesse aspecto, uma prática de marcação distinta. Ela não se assume, de modo nenhum, como naturalista e recorre a todo o tipo de estilos gráficos: arabescos mais ou menos abstractos, bestiários, flora, figuras monstruosas e/ou do star system, até aos nomes próprios, siglas e topónimos. O corpo marcado, tatuado, é um corpo velado: superfície de inscrição, um corpo que se apaga pela profusão de elementos, pelo estilo adoptado, etc. Tais marcas, nas suas variantes estilísticas - piercing, branding (desenho ou sinal gravado na pele com um ferro em brasa ou com laser), cutting, escarificação, laceração, produção de cicatrizes em relevo, stretching (alargamento de perfurações), implantes subcutâneos, etc - fogem, todas elas, à clássica ideia de belo que a cultura ocidental, desde as origens, desenvolveu, inscrevendo-se naquilo a que Vítor Ferreira chamou uma estética da divergência (2008).

Uma interpretação suplementar, adiantada por Thévoz (1984), é a da função da tatuagem como linguagem daqueles que têm uma dificuldade de base em exprimir-se pela palavra. Nessa medida e tal como os grafismos urbanos - os graffiti - as marcações corpóreas contemporâneas não proporcionam uma fusão ou coesão no corpo social - usadas em ocasiões especiais como os ritos de passagem - mas são, pelo contrário, não-linguagens, no sentido em que rejeitam qualquer função de integração ou de reforço do corpo social como um todo.


Bibliografia

Anzieu, D., Le moi-peau, Paris, Dunod, 1985

Anzieu, D., Le penser - du moi-peau au moi-pensant, Paris, Dunod, 1994

Demello, M., Bodies of inscription: a culture history of modern tattoo comunity, Londres e Durham, Duke University Press, 2000

Ferreira, V. S., Marcas que demarcam - tatuagem, body piercing e culturas juvenis, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 2008.

Le Breton, D., Sinais de identidade, Lisboa, Miosótis, 2004.

Thévoz, M., Le Corps Peint, Genève, Skira, 1984

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