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LinguagemImprimirDicionário critico

Relevo

José Casquilho

O relevo de uma região marca os sítios e o ritmo da vivência, expressa-se como uma energia que se manifesta em formas, saliências, escarpas, cumeadas e vales encaixados, de que os cursos de água são as linhas fluentes. Por analogia, transposto para representações, as marcas e os sinais gravados na pedra indiciam, em formas, signos da energia geomorfológica e da biocenose. A pregnância de uma forma tem a ver com a sua percepção e leitura, sendo tanto maior quanto mais nítida a informação com que desvela acontecimentos, reais ou imaginários, declarativos ou votivos. No conjunto, o relevo revela através das saliências uma pregnância, no sentido de Thom, ou seja, uma forma profunda, potencial, que rege o sistema no seu todo, material e mental, alicerçando uma semiosfera, um universo de sinais que reflectem um campo de sentido.

Palavras chave: sentido, vector, interpretante, simbólico

O relevo de uma paisagem marca os sítios na região: plana, ondulada, acidentada, escarpada, condiciona os processos da sucessão ecológica e da ocupação humana e introduz um ritmo na história dos lugares. A geomorfologia permite compreender a metamorfose dos mantos rochosos que formam o relevo o qual, como paisagem recoberta pelo manto vegetal, se expressa à superfície, não só no plano real como simbólico, nas lendas e histórias dos lugares. Na região mediterrânica, mesmo nas zonas de altitude relativamente baixa, o relevo é quase sempre variado e enérgico[1]: as áreas planas repartem-se por pequenos fundos de vale, retalhos de planície junto de escarpas e ladeiras.

O relevo de uma paisagem apreende-se como formas conexas. Perceber algo é perceber mais ou menos intensamente uma presença[2]. Seja como exemplo o sítio do Fariseu[3]. Na Gestalttheorie, teoria derivada da palavra alemã Gestalt que significa integração das partes em oposição à soma do todo - estrutura unitária, configuração -, a pregnância de uma forma, ou seja, a sua apreensão é tanto maior quanto maior for a sua coerência e nitidez. A ideia subjacente partiu dos filósofos Kant, Goethe e Mach, que no século XIX diziam que a percepção era um acto unitário: percebe-se o todo antes das partes. Ludwig Curtius referia uma paisagem como uma totalidade compreendida[4]: geschlossenes Gebilde.

As formas fisicamente pregnantes são as formas estruturalmente estáveis, os acidentes morfológicos que resistem melhor que outros ao ruído da interacção[5]. A pregnância biológica é definida de outra maneira: é a capacidade de uma forma invocar outras formas enquanto signo. Entre as formas observáveis no mundo exterior, existem primeiramente as formas salientes, ou seja, as Gestalten definidas pelo seu rebordo, morfologia interna e localização espaço-temporal[6].

Em termos abstractos podemos admitir a existência de uma pregnância local que rege, através do seu desdobramento, regimes de organização do espaço diferenciados, associados a acontecimentos. Numa pregnância existem as saliências em que ela se revela, por exemplo: a partição natural de um território nas suas bacias hidrográficas delimitadas pelas cumeadas. Desde Husserl que a saliência é entendida como descontinuidade, no sentido em que Petitot ancorou a questão: os semas profundos são pregnâncias[7] e as saliências manifestam-se como singularidades. Mais geralmente, as pregnâncias transformam os objectos salientes em objectos significantes, através da apreciação induzida pelo interpretante.

Há uma pregnância geológica que se manifesta em ocorrências corológicas e topológicas. A corologia é definida como o estudo da distribuição espacial das plantas que constituem o manto vegetal de uma região - a chôra, para os gregos da Antiguidade Clássica. Segundo a etimologia, choréma deriva do verbo choréo: dar espaço para algo[8]. Já a topologia visa a analise in situ, a caracterização do topos, o sítio, a especificidade do local. Uma região é um espaço de acontecimentos que se expressa em paisagens, formas geológicas, ecológicas e antropomórficas apreendidas como um todo, que comporta singularidades de tipos diferentes analisáveis em termos de informação.

Na Teoria da Informação de Shannon, a informação associada a um acontecimento que ocorre com probabilidade p é uma quantidade que podemos interpretar como a ordem de grandeza do tempo de reconstituição desse acontecimento: quanto mais raro o acontecimento, maior o seu valor de informação. Existe outra acepção para o conceito de informação: um estado ordenado seria um estado cuja descrição, reprodução ou preparação, exige uma quantidade elevada de informação[9]. Mais concretamente, o valor ou medida da informação é um conceito de Hartley, posteriormente retomado por Shannon, e relaciona-se com a ideia de que a informação resolve, ou reduz, a incerteza num espaço de acontecimentos[10] e a entropia é a incerteza de uma variável aleatória[11], sendo a probabilidade uma medida de possibilidade ou verosimilhança de um acontecimento. Mais pragmaticamente, Weaver define a informação como a medida da livre selecção de uma mensagem[12].

A noção de informação implica a possibilidade de cada um, perto ou longe do acontecimento, poder compreendê-lo, poder reconstituí-lo mentalmente na sua génese[13]. E, do que dissémos atrás, conclui-se que quanto maior é a entropia menor é a percepção e portanto a pregnância de um objecto. 

Já a valência de um objecto corresponde à sua potência de atracção[14] e o seu valor estético representa não só uma função da medida estética mas também uma função do superícone, isto é, da supericonicidade do objecto estético[15].
 
Em qualquer caso, numa paisagem física ou mental, sintáctica e semântica, as saliências que se revelam no relevo são derivadas de uma pregnâncias potencial que está lá, e assim se actualiza. Fontanille, usando a distinção átono/tónico e as duas dimensões da estrutura tensiva - no caso: a intensidade e a extensividade - distingue quatro tipos A,B,C,D na caracterização do esquema da semiosfera[16] que subentende um universo de sentido. Podemos associá-lo a uma forma pregnante no sentido de Thom: o investimento de uma pregnância sobre uma forma saliente constitui o antepassado da predicação.



[1] Ribeiro, Orlando,  Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora,  (1980) 1998, pag. 2
[2] Fontanille, Jacques,  Semiótica do Discurso,  São Paulo, Editora Contexto,  (2003) 2007, pag. 47
[3] http://www.ipa.min-cultura.pt/coa/sh__research_articles__folder/fariseu2000/fariseu_pt
[4] Norberg-Schulz, Christian,  Genius Loci: paysage-ambience-arquitecture. Pierre Mardaga Éd., Oslo, 1976, pag. 46
[5] Thom, René,  Modèles Mathématiques de la Morphogenèse, Paris, Christian Bourgois Éditeur,  1980, pag. 264
[6] Petitot-Cocorda, Jean,  Physique du Sens, Paris,  Éditions CNRS, 1992, pag. 315
[7] Idem, pag. 374
[8] Mourão, José A. e  Babo, Maria A., Semiótica: Genealogias e Cartografias. Coimbra, Minerva 2007, pag. 196
[9] Prigogine, Ilya e  Stengers, Isabelle. Ordem/desordem. Enciclopédia Einaudi, vol. 26 : Sistema, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1993, pag. 133
[10] Klir., George J.,  Uncertainty and Information. John Wiley and Sons Inc, Hoboken, 2006, pag. 421
[11] Thomas M. Cover e  Joy A. Thomas. Elements of Information Theory. John Wiley and Sons Inc, Hoboken, 2006, pag. 6
[12] Alsina, Miguel R. , Los Modelos de la Comunicación. Editorial Tecnos SA, Madrid, (1989) 1995, pag. 46
[13] Thom., René, Modèles Mathématiques de la Morphogenèse. Christian Bourgois Éditeur, Paris, 1980, pag. 288
[14] Fontanille, Jacques   e  Zilberberg, Claude, Tensão e Significação. São Paulo, Discurso Editorial,  (1998) 2001, Pag 15
[15] Walthers-Bense, Elizabeth, Teoria Geral dos Signos, São Paulo, Editora Perspectiva, (1974, 1979) 2000, pag. 88
[16] Fontanille, Jacques,  Semiótica do Discurso, São Paulo, Editora Contexto, (1999, 2003) 2007, pag.285
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