Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Razão gráfica

Tito Cardoso e Cunha

a invenção da escrita e a consequente predominância da visualidade gráfica sobre a oralidade tem consequências importantes sobre o desenvolvimento cognitivo dos indivíduos e da sociedade no seu todo.

Palavras chave: escrita, arquivo, ritmo, inscrição, linguagem, texto

Mergulhados que estamos num quotidiano, por definição, sempre situado na "actualidade" definida pelos omnipresentes media; restringidos também a uma visão do mundo etnocentrada por esse mesmo quotidiano, custa-nos imaginar que seria o mundo visto e pensado pelos homens que por Foz Côa passaram há alguns milhares de anos e na pedra deixaram os vestígios de um pensamento diferente e que será por nós difícil de interpretar.

Desde logo, uma grande diferença deles no separa: o uso da escrita. Não significa isto que a razão lhes fosse ausente. Dizia Descartes que "o bom senso, ou a razão, é naturalmente igual em todos os homens"[1] e certamente que o foi ao longo das sucessivas idades históricas. As diferenças, segundo ele, provinham não de uns serem mais racionais do que outros, mas do facto de nem todos usarem as suas capacidades da mesma maneira.

Escreveu algures Lévi-Strauss não haver motivo nenhum para pensarmos não poder ter havido antes, nas mais recuadas épocas da humanidade histórica, os equivalentes a um Einstein, um Newton ou um Galileu, para citar apenas alguns exemplos.

Certamente que os houve. Mas como pensavam? Que racionalidade era a deles? Eis o que dificilmente se nos torna claro. Nomeadamente na ausência da escrita que é onde nós, contemporâneos, mais reconhecemos as nossas próprias e familiares formas de racionalidade.

Durante muito tempo se pensou, e frequentemente ainda se pensa, segundo uma oposição do racional ao irracional. Ao “outro”, ao “selvagem” ou “primitivo”, como seria o caso do “homem pré-histórico”, era-lhe atribuída uma mentalidade puramente irracional, em oposição à razão ocidental, moderna e contemporânea.

Dito de outro modo, a oposição surgia, na linguagem dos antropólogos, entre o “pensamento selvagem” e o “pensamento domesticado” de Jack Goody. Só que esta oposição não se sobrepõe à anterior entre o “civilizado” e o “primitivo” ou o “racional” e o “irracional.” A irracionalidade está tão bem distribuída entre a humanidade quanto o está, no dizer de Descartes, a racionalidade.

Segundo Lévi-Strauss, é a linguagem que define a humanidade do homem. O acesso à linguagem é o que marca a presença da cultura, em oposição à natureza. Onde quer que tenha havido indivíduos humanos e sociedade, é porque houve linguagem.

Se o homem pensa através e com a linguagem, nela exerce a sua tão bem distribuída razão, a escrita aparece como um novo “utensílio” técnico que prolonga essa racionalidade, em termos de “razão gráfica” no dizer de Jack Goody, que a linguagem já anteriormente transportava consigo.

O antropólogo britânico[2] põe em evidência a importância que teve o aparecimento da escrita para o desenvolvimento de formas de racionalidade novas. A passagem de uma predominância da oralidade nos meios de se comunicarem os homens para uma outra predominância em que a escrita se impõe, trouxe necessariamente consequências ao nível das capacidades cognitivas que importa ter em conta.

Não que uma coisa, a escrita, tenha subitamente substituído a outra, a oralidade. O processo terá sido longo na duração e alguns, como Nietzsche, terão notado a permanência de uma época em que a escrita se destinava sobretudo à oralidade e não, como nós hoje entendemos, como uma forma de comunicação destinada quase exclusivamente ao silêncio da leitura.

Em todo o caso, tanto Goody como Lévi-Strauss sublinham um aspecto relevante no aparecimento da escrita. Ela sempre esteve ligada ao aparecimento de grandes entidades administrativas centralizadas como os antigos impérios no Egipto, na Mesopotâmia ou na China.

A escrita é o que permite o aparecimento do Estado e da burocracia que o administra. Quando Pierre Clastres[3] estuda as sociedades sem Estado, conclui que não se trata de uma falta mas antes de uma recusa que começa precisamente pela recusa da escrita enquanto instrumento de dominação ou administração.

Sem a escrita não teria porventura havido Estado. Ela é um instrumento essencial para a administração e o controle burocráticos da sua organização.

Nas sociedades sem escrita, pretende Clastres, a relação do chefe com a sua comunidade, efectuando-se na pura oralidade, seria sobretudo uma relação de expressão em que cabe a esse personagem central articular a fala que sustenta o mundo. Uma racionalidade aí se exprime que não se sujeita ainda a futuras formas de “razão gráfica” que a escrita vai moldando e pelas quais a organização burocrática se implanta.

Mas a implantação da razão gráfica através da escrita não significa apenas uma submissão à instância administrante do Estado. A escrita traz também consigo, segundo Goody, outras atitudes como por exemplo a distância que ela permite relativamente ao texto do que é dito. Isto é, a escrita torna menor a dependência da memória e abre a possibilidade do comentário, a interpretação daquilo que pela escrita vai permanecendo mais perduravelmente. Tanto o espírito crítico que cria distância relativamente ao que está escrito como o seu respeito integral(ista) se tornam ambos possíveis. A fala, deixando de estar tão dependente da memória, perde também a sua dependência maior da circunstância.

Jack Goody procura diferenciar do seguinte modo os dois sistemas de pensamento, o de predominância oral (“sistema fechado”) e o da razão gráfica escrita (“sistema aberto”)[4]:

Na atitude mágica, de predominância oral, ideias, palavras e realidade estão “intrinsecamente ligadas” enquanto que no outro modo de racionalidade umas são independentes das outras.

No primeiro caso as ideias aparecem ligadas a ocasiões e no segundo a ideias.

No “pensamento tradicional” não há uma reflexão sobre o próprio pensamento. Daí a impossibilidade de uma lógica ou de uma epistemologia.

As teorias são emocionais e personalizadas, no primeiro caso, e despersonalizadas pela aplicação de regras, no segundo.

As teorias estabelecidas, as crenças, são “protegidas” pelo modo tradicional em contraste com a atitude crítica que caracteriza o pensamento científico moderno.

As “sociedades tradicionais” desconhecem a ideia de progresso que informa muito entranhadamente a mentalidade científica mais recente.

No entanto, a mudança, ligada às circunstâncias, pode ser mais frequente nas sociedades tradicionais. Ao passo que as ideias, nas sociedades mais recentes, se encontram mais fixadas pela escrita no livro.

Como observa Goody “a escrita objectiva o discurso.” Através da escrita, ele torna-se “intemporal, impessoal e abstracto.” Fica mais ligado às ideias do que às ocasiões.

A escrita permite que se “acumule” a informação e esta se arquive. A racionalidade reforça-se com a escrita. Até porque uma atitude crítica se torna mais possível perante essa acumulação. Como nota Goody, é nas sociedades, como a helénica, em que a escrita se encontra já mais generalizada, que o espírito crítico, fundador da filosofia por exemplo, se pode constatar, mais do que naquelas, como a egípcia, em que a escrita, embora existindo, não se encontra ainda generalizada para além de uma pequena casta.

Tudo isso acontece também porque a escrita, não se confinando a um instrumento de controle burocrático, é também e talvez sobretudo, um meio forte de comunicação. A cada etapa fundamental do progresso, observa Goody, corresponde um momento de invenção ao nível da técnica de escrita: desde a invenção desta, à do alfabeto, à da imprensa.

Poderíamos talvez acrescentar que a grande revolução a que contemporaneamente estamos a assistir, através dos sistemas de digitalização, consiste na unificação técnica de todos os meios de conservação da informação num só tipo de registo.

A passagem da oralidade à escrita não se pode resumir a um procedimento de registo da fala. Ela implica novas dimensões cognitivas. É a própria racionalidade que muda na medida em que mudam os processos cognitivos, agora gráficos, instituídos pela escrita.

Desde logo a fala adquire uma duração que transcende as localizações espacio-temporais. A própria linguagem se transforma nesse processo. Diferentemente da tradicional oposição, atribuída a Saussure, entre a língua e a fala, Goody propõe antes um triângulo que associa o vértice da escrita aos outros dois, o da língua e o da fala.

À escrita devem-se reconhecer, segundo o antropólogo britânico, duas funções principais: a de guardar a informação para memória futura permitindo a sua comunicação perdurável, por um lado e, por outro, a de passar da oralidade à visualização descontextualizando, nesse processo, a informação.

O aparecimento da escrita na Mesopotâmia tem, como se disse, uma função quase exclusivamente económica e administrativa. Diz-nos Goody que ela serve sobretudo à elaboração de listas, inventários de bens ou acontecimentos: listas de reis, listas de palavras, inventários económicos.

As listas não são meras reproduções da fala. Elas tornam os elementos que as constituem abstractos de modo a servir mais lestamente a administração centralizada e o poder que a comanda.

A lista, dos reis, por exemplo, permite também um olhar mais preciso sobre o passado que inevitavelmente levará à consideração da perspectiva cronológica e à fundação da história como saber autónomo. É também a escrita que permite a relação histórica.

Todo este processo de implantação da escrita manifesta com progressiva clareza a diferenciação relativamente à oralidade. As consequências são enormes. Desde logo, da predominância do que se ouve em sociedade passa-se à importância maior do que se vê, daí a noção de “razão gráfica” proposta por Goody. A escrita faz a informação existir no espaço e permanecer no tempo.

Não é isto, no entanto, que faz o antropólogo britânico admitir a dicotomia opondo um espírito selvagem a um espírito moderno. Este é sempre o mesmo, como diria Descartes, mas são as técnicas da sua expressão que mudam. Com consequências importantes, está claro, ao nível cognitivo.

Houve, no entanto, exemplos daquilo a que se poderia chamar uma “proto-escrita” na pré-história ou nas sociedades ditas “selvagens.” Um bom exemplo disso é o caso reportado pelo antropólogo francês Alfred Metraux[5] que no princípio do século 20 estudou a cultura da ilha da Páscoa. A interpretação que ele propõe para a suposta escrita que cobre umas pequenas tábuas aí encontradas é a seguinte: os signos inscritos nas tábuas seriam representações mnemónicas que serviriam de apoio à recitação dos cantares rituais. Não se trataria de uma escrita no sentido próprio do termo mas de uma inscrição cuja funcionalidade residia no apoio à memória do oficiante.

A oralidade é o domínio privilegiado da retórica, da oratória, contrariamente à escrita. Mas a retórica produz regularidades discursivas e modelos repetitivos que tornam a fala por vezes quase ritual. A escrita vem acentuar, segundo Goody, essa tendência sendo que ambas – escrita e oralidade - se influenciam mutuamente.

De uma maneira geral, escreve Goody, “A escrita é crítica não apenas porque preserva o discurso para além do tempo e do espaço, mas porque transforma o discurso ao abstrair os seus componentes, ao apoiar a retro verificação, de modo tal que a comunicação visual cria uma potencialidade cognitiva para os seres humano diferente daquela que se transmite de boca a ouvido.”[6]

A lista, que é como já se disse, um dos primeiros empregos dados à escrita, tem sempre tendência a criar uma ordem, a hierarquizar as coisas listadas. Hierarquia e classificação são duas noções sempre muito próximas. Ao fazê-lo, a escrita torna o discurso mais destacado de toda a individualidade circunstancial e universaliza-o.

Uma consequência desse processo é a uniformização generalizada que caracteriza a modernidade. Goody dá o exemplo da culinária: a possibilidade de fixar por escrito uma receita torna o prato mais uniforme onde quer que ele seja criado uma vez que obedece sempre às mesmas regras que constam da lista que é a receita escrita.

Em suma, a passagem de uma sociedade baseada comunicacionalmente na oralidade predominante a uma outra em que a escrita se torna preponderante tem consequências que modificam muito profundamente, não apenas as capacidades cognitivas individuais, mas também o modo como a própria estrutura social se articula.



Bibliografia

Métraux,Alfred, Ethnology of Easter Island. Bernice P. Bishop Museum Bulletin 160, Honolulu, Hawai, 1971.


Lévi-Strauss,Claude, La pensée sauvage. Plon, 1962.

Goody, Jack , The domestication of the savage mind. Cambridge University Press, 1977.

Clastres,Pierre , A sociedade contra o Estado. Afrontamento, 1979.

Descartes,René, Discurso do método e Meditações metafísicas. Prisa Innova S.L., 2008.

 



[1] Descartes,R. , Discurso do método, S.L., Prisa Innova , 2008. p. 50.

[2] Goody,Jack , The domestication of the savage mind. Cambridge University Press, 1977.

[3] Clastres,Pierre , La société contre l'État. Éditions du Seuil,

[4] Op. Cit. p. 41-42.

[5] Métraux,Alfred, Ethnology of Easter Island. Bernice P. Bishop Museum Bulletin 160, Honolulu, Hawai, 1971.

[6] Op. Cit., p. 128.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved