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LinguagemImprimirDicionário critico

Monumento/Documento

Tito Cardoso e Cunha

Monumento, documento e lápide são noções cujo traço comum é a preservação de uma memória.

Palavras chave: arquivo, mnemotécnica, assinatura

Todas estas palavras se referem a uma realidade essencialmente temporal. É do tempo que elas nos falam e é no tempo que se efectuam com a realidade a que se referem.
O passado é a dimensão do tempo que mais lhes é comum. Na existência de um monumento, de um documento ou de uma lápide é um passado que se perpetua. Isso não impede que se possa erguer um monumento ao futuro. Talvez existam esses monumentos mas não são os que mais conhecemos.
O que mais conhecemos é o monumento comemorativo, de um acontecimento, de uma pessoa, ambos já passados. As cidades estão pejadas de monumentos desse tipo. Mas mesmo quando um monumento se ergue comemorando um acontecimento é aos seus protagonistas que está dedicado: aos restauradores de 1640, aos heróis da Guerra Peninsular, etc.
Mais obviamente personalizados serão os monumentos dedicados à memória de uma figura histórica como o Marquês de Pombal, por exemplo.
Nem sempre o monumento comemora um acontecimento histórico heroicamente positivo. É por vezes de acontecimentos bem tristes que o monumento perpetua a memória. Exemplo disso é o monumento que desde há algum tempo rememora, no Largo de São Domingos em Lisboa, o massacre que ali teve lugar em 1506. Mas aí também é sobretudo às vítimas que se quer prestar homenagem evitando o seu esquecimento.
O monumento, aliás, inscreve-se quase sempre numa luta pela memória e contra o esquecimento. É talvez por isso que os monumentos hoje já pouco se constroem. Os dispositivos de mediação electrónica, omnipresentes em todos os nossos espaços contemporâneos, substituem-se ao monumento e tornam-no dispensável.
O velho hábito, que ainda nos finais do século XIX era comum, de recorrer a uma subscrição pública com o fim de erigir um monumento, seria hoje quase impensável. A menos que seja a algum jogador de futebol como aquelas estátuas que abrilhantam as imediações de alguns estádios.
O monumento religioso terá também ainda alguma preferência. Como sempre. Aí o monumento sofre de uma certa ambiguidade fundamental que as religiões, aliás, desde sempre tiveram em conta.
O monumento como objecto de adoração religiosa, enquanto se pensa ser ele a representação de uma divindade, tem o seu protótipo negativo no bezerro de ouro que os hebreus construíram no deserto enquanto Moisés recebia as tábuas da Lei no Monte Sinai. Daí a proibição de construir tais representações monumentais nalgumas das religiões monoteístas como o Islão ou o Judaísmo. O mesmo não acontece com o cristianismo, pelo menos na sua versão católica. Aqui os monumentos, enquanto representações da personagem divina, são eles próprios objecto da adoração que aos seus representados é dirigida.
Que se teria passado com as representações monumentais de Foz Côa? Seriam elas objecto de um culto religioso; representariam alguma sacralidade; perpetuariam na pedra a memória de algo que disso era digno? Provavelmente nunca o saberemos.
Sendo as gravuras de Foz Côa monumentos, estes podem porventura divergir daqueles que temos referido, num ponto. É que em Foz Côa as representações poderiam não ser monumentais na intenção de quem as gravou.
Isto é, nem todos os monumentos resultam de uma intencionalidade monumental, digamos assim. Haverá monumentos, que o são reconhecidamente como tal por nós hoje, mas que originalmente não resultam daquela intencionalidade com que se manda construir uma estátua comemorativa.
Monument Valley, celebrizado pelos westerns de John Ford, será um bom exemplo disso. Embora aqui também nos possamos interrogar se haverá monumentos na natureza ou apenas acasos que, por analogia, procuramos antropomorfizar.
No documento também esta intencionalidade se pode detectar embora nem sempre aquela que o seu autor pretendeu induzir. Isto é, um contrato que documenta ao historiador a primeira ocorrência da língua portuguesa escrita não foi certamente redigido com essa intenção. Embora tenhamos a certeza de que o seu autor o ditou intencionalmente para resolver qualquer problema bem quotidiano.
O documento atesta, directa ou indirectamente algo que não ele. Uma vontade, por exemplo, num testamento.
O documento testemunha também sobre qualquer acontecimento como quando se confessa um crime e a escrito se passa essa confissão para fazer prova.
Um documento põe também quase sempre um problema que é o da sua autenticidade. Falso ou autêntico, isto é verdadeiro, eis a questão.
Um documento é tendencialmente e intencionalmente verdadeiro, isto é, autêntico e portanto válido quando exprime vontades livremente expressas num contrato, por exemplo. As
assinaturas que o finalizam, é para isso que servem, para autenticar a sua veracidade e autenticidade.
É de notar que nem sempre assim foi, isto é nem sempre foi o documento a autenticar uma vontade expressa. Circunstâncias houve em que essa autenticação se fazia pela palavra, a palavra de honra, assim chamada nos contratos. Seria essa palavra um documento? Talvez não, por causa da sua evanescência. O documento é algo que se guarda, se preserva e
arquiva pelo testemunho que dá de perpétua memória.
De uma perpétua memória é o que a lápide costuma assegurar os restos de quem tem por função cobrir. Lápide é uma pedra que mais frequentemente encontramos em cemitérios. A sua função deve tanto ao monumento como ao documento. Por um lado atesta a identidade daquele a quem se refere, é um documento, por outro comemora-lhe porventura as qualidades e perpetua-lhe a memória tal como um monumento.
A lápide nunca é uma tábua rasa. O monumento pode não ter
escrita. Pode mesmo ser anterior à escrita como acontece com alguns monumentos pré-históricos, isto é objectos a que contemporaneamente podemos atribuir ou imaginar a função de um testemunho. Outros serão coetâneos já da escrita mas não a usam, como por exemplo uma estátua, a mais das vezes. Agora uma lápide é que é feita essencialmente de escrita. O seu carácter lapidar está mais na escrita que se lhe grava do que propriamente na pedra de que é feita. Sem escrita não há lápide. Fica uma simples pedra. A pedra tem apenas relevância pela intenção que demonstra de eternidade. Nem todas as mensagens são lapidares, isto é nem todas as mensagens se querem fazer perdurar para sempre no tempo. Aliás, o qualificativo de "lapidar" aplica-se sempre à linguagem que ali se inscreveu mais do que ao seu suporte. Por extensão dir-se-á até de qualquer uma frase ser ela lapidar querendo com isso significar a sua exemplaridade, justeza, fazendo-lhe merecer uma perpetuação na memória que só a persistência da pedra lhe poderiam dar, antigamente.
O que na lápide se escreve é dirigido ao futuro e para nele ser lido. Ela pode assinalar um acontecimento ou uma personalidade nos seus qualificativos. Tal como o monumento.
Quando a lápide e o monumento assinalam o acontecimento, fazem-no com vista ao futuro, é certo, mas o que comemoram é o passado imobilizado num instante que ali fica na corrente do tempo a marcar o que se passou para memória futura.
Das gravuras de Foz Côa não se pode dizer que são lápides, no sentido que temos vindo a dar ao termo. Ou talvez fossem. Não sabemos. A intenção que lhes estaria na origem não seria porventura comemorativa mas antes celebratória ou invocativa como toda a imagem religiosa o é ainda hoje.
Enquanto representações monumentais, as gravuras de Foz Côa, a supor que elas tinham um cariz religioso, referiam-se a seres do mundo tal como ele era então percebido e desejado.

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