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LinguagemImprimirDicionário critico

Marca

Maria Augusta Babo

Marca é o resultado de uma qualquer acção registada num qualquer suporte. É pois da ordem do vestígio, na sua modalidade mais aleatória, isto é, sem qualquer intenção deliberada de significação; ou da ordem da inscrição como acto voluntário de gravação. A marca define-se, ainda, pela sua resistência ao tempo - a marca mnésica de que é feita a memória - e pela sua exterioridade que a coisifica desligando-a da vida, como nas várias formas gráficas e de escrita. A letra é, neste sentido, a marca de instituição, a marca por excelência.

Palavras chave: índice, inscrição, monumento, escrita, assinatura

Marca é um termo abrangente de uma multiplicidade de fenómenos naturais ou artificiais, com ou sem intenção de comunicação ou de significação. Para que qualquer marca seja entendida como índice de qualquer fenómeno não é necessário que esse fenómeno tenha ocorrido com o propósito de interpelar outrem ou de significar o que quer que seja mas, antes, que haja um intérprete que o interprete. Assim, os fenómenos naturais como uma trovoada ou uma praga de insectos, ao contrário do que criam os Antigos, não é sinal da fúria dos deuses, tão somente resultado de fenómenos atmosféricos, climatéricos ou outros que só ganham valor indicial quando se lhes atribuí um factor causal. Neste sentido, todas as marcas poderão ser "lidas", isto é, reenviadas para as suas causas contíguas e assim avaliadas nos seus efeitos; como vestígios ou índices.

Há, no entanto, na formação do termo marca, componentes determinantes como seja a temporalidade e a exterioridade. Quanto à primeira poder-se-á afirmar que a marca só funciona como tal quando diferida do fenómeno do qual é marca. Assim, a marca mnésica que fica impressa na memória apesar da passagem do tempo ou a marca corporal, como a cicatriz, vestígio de um qualquer acto de incisão na carne. Neste caso está também a
escrita como marca que permanece, por oposição à fala, evanescente. Neste sentido, as figuras de Foz Côa são marcas que nos dizem a amplitude temporal de que elas são marca. Quanto à segunda componente, a exterioridade, ela revela-se sobretudo no carácter de concretude da marca. Rastos, sulcos, erosão, fósseis, cicatrizes, impressões digitais ou impregnações de substâncias em quaisquer superfícies povoam o mundo daquilo a que se chamou, na época pré-clássica, as assinaturas. O mundo seria então um livro de assinaturas, de marcas, a interpretar. Na sua concretude, "toda a marca espacializa o tempo"[1], tornando-o monumento, lápide, ruína ou documento.

No que diz respeito concretamente às gravuras rupestres, embora se exprimam no registo
icónico, elas são marcas de uma elaboração abstracta intrinsecamente ligada a conceitos organizados pela linguagem, como adverte Leroi-Gourhan[2]. Nesse aspecto, a marca é objectivante na sua exterioridade absoluta. Não só porque ela supostamente exterioriza algo de outro modo imperceptível, mas também porque essa exteriorização articula e dá forma àquilo que de outra forma escaparia sempre à própria formulação.

Deste modo se pode avançar no sentido do alargamento do termo abrangendo um conceito fundador do campo do simbólico. A marca está ligada à própria constituição da ordem do simbólico, organizando-o, isto é, instituindo o simbólico como ordem. Assim, a língua como um todo organizado no interior da linguagem define-se como um sistema de marcas diferenciais, isto é, como um conjunto formal de diferenças. É assim que Saussure afirmará que "na língua não há senão diferenças sem termos positivos." A marca diferencial torna-se o elemento discreto fundador da fonologia mas também, e a partir daí, do pensamento estruturalista. Foi Jakobson quem radicalizou e imaterializou a perspectiva estruturalista. Este linguista leva aos limites a noção de traço ou marca distintivo/a como noção fundadora do regime fonológico e, a partir de então, de todos os sistemas sígnicos em geral. "Qualidade distintiva" ou "feixe de propriedades distintivas" são noções imateriais que estão na base da criação da própria fonologia e na base dos sistemas semiológicos. A marca distintiva, na sua negatividade fundadora, é estruturante.

Derrida retoma justamente o princípio da diferença em Saussure para explicar o processo de significação como um "jogo formal de diferenças, i.e., de marcas", já que a diferença é, para Saussure, a condição de qualquer significação. É que cada elemento vem marcado por outros elementos da cadeia ou do sistema; mas essa marcação faz-se pela diferença inscrita na marca. A diferença é mesmo a marca, uma arqui-marca pois ela possui a amplitude que separa os elementos da oposição, por isso ela é diferância. Por sua vez, a diferância derrideana
[3] integra-se dentro de uma visão económica da diferença que, não só dessubstancializa o significante - o significante não é fónico - como o liga inexoravelmente ao significado - não há significado sem significante -. Na verdade, Derrida encontra na teoria linguística do valor a fundamentação, da qual Saussure não retira todas as consequências, para a sua teoria da diferença. A de que a diferença, sendo exterior e factícia, exclui qualquer substância, nomeadamente a fónica como origem do significante, quer isto dizer, o facto de o valor, enquanto convencional, não estar preso a qualquer corporalidade sonora ou outra. Ainda no desenvolvimento do pensamento da diferença que pode ser traduzido pela marca enquanto negatividade, a inversão derrideana propõe que não só toda a escrita seja traça, marca, mas que a fonè seja também já traça, isto é, todo o pensamento está atingido pela marca como ausência mas também como exterioridade, (também a fala, dada a sua regularidade e exterioridade integra esse mesmo princípio escritural). A escrita como sistema seria uma estruturalidade de marcas. Essa será a marca da escrituralidade. Já não marca da coisa, na sua positividade, mas marca da ausência da coisa; e do traço como diferencial e, por isso mesmo, iterativo. O grande jogo das marcas de que a escrita é a assunção, dá-se precisamente no facto de elas deixarem de ser marcas positivas - respondendo ou correspondendo à essência da coisa - e, concomitantemente, se inserirem num sistema que as sustenta prevendo a sua repetição sistemática, a sua iterabilidade como marcas. Neste sentido, as marcas que constituem as gravuras de Foz Côa, na sua figuratividade, na sua positividade, mas também, por certo, na sua repetição, não constituem ainda o sistema escritural que só a escrita especificamente alfabética ou a língua - como sistema simbólico por excelência, porque instituição, e porque marcado de forma a constituir sistema - concedem. Assim, como refere Stiegler[4], "pensar literalmente é aceder ao jogo diferencial da escrituralidade originária da língua pelo próprio facto de poder sempre a ela re-aceder identicamente." A letra é então o nome dessa marca artificial, exterior e, a um tempo, estrutural. Ora, os grafismos do Côa, se relevam dessa positividade do figural, agarrados que estão, aparentemente, à coisa, ao mundo que representam sem mais, podem e devem ser lidos no registo em que os coloca Leroi-Gourhan ao advertir que "o seu conteúdo implica uma convenção inseparável de conceitos já altamente organizados pela linguagem" (idem, p. 191), isto é, sistematizados.



[1] Lafont, Robert, Anthropologie de l'écriture, Paris, Centre de Création Industrielle/ Centre Georges Pompidou, 1984 - «la parole et la trace», p.44

[2] Leroi-Gourhan, André, O Gesto e a Palavra - 1 - Técnica e Linguagem, Lisboa, edições 70, s d., pp 190, 191.

[3] In: De la Grammatologie, Paris, Editions de Minuit, 1967, p.38.

[4] In: La Technique et le Temps 2 - La désorientation, Paris, Galilée, 1996, p. 47.

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