Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Limite

José Casquilho

Só existe limite na confluência de domínios espacialmente distintos, muitas vezes associados a territórios, entendidos como zonas de competência específica determinadas por uma superfície e uma forma. Em áreas planas os limites são linhas, regulares ou imbrincadas, fractais. Os territórios humanos eram áreas consagradas e a sua percepção como unidade integradora na região antecipou o conceito de paisagem. Ao território está associado a sua defesa e integridade; no entanto, muitas vezes os limites são difusos, quando se trata de habitats ecológicos onde as linhas vivas da paisagem constituem ecótonos, interfaces de maior diversidade. A resiliência da paisagem, definida como a capacidade de regressar ao equilíbrio após perturbação, assenta na sua riqueza em laços de informação que se articulam em diversidade ecológica e profundidade histórica. A paisagem, incluindo os territórios que segrega, torna-se objecto de uma retórica e constitui-se num superícone.

Palavras chave: mito, Lévi-Strauss, sinais, leis, paisagem

De acordo com a lenda da fundação de Roma, Rómulo matou Remo porque este transgrediu o limite demarcado pelo arado no Palatino, feito após ter sido reconhecido como rei pelo voo dos abutres. Limes significa limite, fronteira, caminho ou muralha, em latim. O limite aparece assim como algo que marca uma linha intransponível, mudança abissal no território e no domínio. Elíade ensina-nos que um mito conta uma história sagrada - um acontecimento primordial que teve lugar no começo do Tempo -, e revela significados profundos, pois que contá-la equivale a revelar um mistério[1]. Bakhtin recorda-nos que cada signo ideológico é, não apenas um reflexo, uma sombra da realidade, mas também um fragmento material dessa realidade. Saussure anunciou que se podia conceber uma ciência que estude a vida dos sinais, no seio da vida social[2], e chamou-lhe semiologia, a partir do termo grego sēmeîon, sinal.

Na etimologia refere-se que território deriva de terrere que significa assustar, afastar, e portanto é um espaço que deve ser defendido. A função principal associada ao verbo é a defesa activa, agressiva - do indivíduo, do casal, do ninho e da descendência, da tribo -, a que se juntam outras funções como a relação com os vizinhos ou os estranhos.

Em Ecologia - considerada desde 1866 como a ciência que estuda as interrelações entre os organismos e o meio
[3] -, o conceito de território existe referenciado a um animal ou conjunto de animais da mesma espécie, uma população, tornando-se habitat; e é uma área onde a população existe, se alimenta e reproduz, sobretudo se sedentária. É o suporte espacial e biofísico do ecossistema onde se estabelecem os nichos ecológicos e convive a comunidade biótica.

A territorialidade garante assim uma espécie de equilíbrio nas sociedades animais
[4]. Na perspectiva darwinista, a luta pela existência é o motor da selecção natural e sucede necessariamente àquilo que se enunciou como a elevada razão da progressão geométrica do crescimento demográfico comum a todos os seres orgânicos[5]. Darwin aplicou a doutrina de Malthus à Natureza, alicerçada sobre os efeitos na população da escassez de recursos - esclarecia-se então que a população, quando não controlada, aumenta em progressão geométrica e que as plantas e os animais se comprimem sob esta grande lei restritiva[6].

No seu sentido mais lato, o território
[7] define uma zona de competência determinada por uma superfície, uma forma e limites. Entre nós, as limitações do clima mediterrânico e a disposição do relevo criaram a oscilação transumante cujas origens se perdem na pré-história e que impressionara, pela sua regularidade, autores antigos que a compararam à subida e descida alternada dos pratos de uma balança[8]. No vale do Côa, o sítio do Salto do Boi mostra materiais arqueológicos do Paleolítico[9], evidenciando artefactos líticos da ocupação humana que remonta a essa época, conforme também se conclui da análise estilística das gravuras da Canada do Inferno[10] ou da Penascosa[11].

Os gregos habitavam o khoros, território, inserido na khóra, região, e concebiam a paisagem como unidade delimitada com amor
[12], onde este se expressava na beleza do arranjo e das proporções, e de que o Olimpo, a floresta sagrada no topo das montanhas, era o exemplo a emular. Existe uma relação de carácter geral que liga a natio, a polis e a physis dos Gregos: a da proporção e da harmonização recíproca das partes[13]. A corologia nasceu deste legado.

O conceito de território é substituído em certa medida pelo da percepção do espaço, onde as formas se expressam sobre um fundo, têm uma disposição e portanto uma sintaxe e esta revela significados, uma semântica. Desde o Neolítico, se não antes, que o homem habita um lugar em que consegue orientar-se e experimentar a significação de um meio, incluindo a sustentação. Instalar-se num território equivale, em última instância, a consagrá-lo
[14], torná-lo o centro do mundo, o ponto fixo, ligando-o ao transcendente por rituais simbólicos.

A partir da Antiguidade o genius loci, o espírito do(s) lugar(es), é considerado a realidade concreta que o homem afronta na vida quotidiana
[15]. Não foram as leis que de início garantiram o direito de propriedade, foram as religiões; cada domínio estava sob o olhar das divindades domésticas que por ele velavam. Por exemplo, na lei romana, para separar as terras das cidades devia haver uma faixa de terra inculta e que a enxada não devia nunca tocar, o pomeorium. Este espaço era sagrado: a lei romana declarava-o não sujeito a prescrição[16]. Já no Oriente, as montanhas eram percebidas como dragões[17]. Lévi-Strauss refere-nos o totemismo como forma de organização social e prática mágico-religiosa que associa clãs ou linhagens com certas classes de coisas animadas ou inanimadas[18], onde o termo totem designa o animal que o clã usa e é considerado o antepassado da raça.

O termo paisagem é herdado da administração territorial romana, um agregado de pagus, demarcação rural como seja um povoado e terras circundantes. Como conceito integrado a paisagem só emerge a partir da pintura da Renascença e pode entender-se como um conjunto de valores ordenados numa visão
[19]. A paisagem clássica pode ser definida como uma ordem significativa de lugares singulares distintos[20], ou ainda, numa palavra: a paisagem é uma substância[21], recordando que para Aristóteles substância é o que existe em si mesmo, a primeira das dez categorias do Ser. É no contexto de uma paisagem que nos apercebemos dos territórios, e das linhas do seu entrosamento e demarcação.

Uma paisagem humanizada expressa um sistema de crenças e valores - nas culturas agrícolas e no arranjo do mosaico - na sua epiderme vegetal, da mesma forma que Deleuze afirmava: o que é mais profundo do que todo o fundo é a superfície, a pele
[22]. A lógica ecológica e a lógica do significado encontram-se numa paisagem, lugar semiótico[23]. Afinal, o escopo da semiótica é afirmar o múltiplo, articular as diferenças e compreender os processos de significação - semiotizar não é ver, mas interpretar[24].

O manto vegetal do Vale do Coa é dominado por carvalhos, quercíneas e outra vegetação mediterrânica. Na cultura clássica, a árvore, dendron ou drus, era representada por um carvalho vigoroso, símbolo da pujança da Natureza, da Justiça e dos dons, um eixo do mundo. Na Grécia Antiga, o carvalho era consagrado a Zeus que falava através do oráculo de Dodona, interpretado pelas Pleiades
[25]. Para os Judeus, o carvalho era elah e aparece referido como o carvalho dos prantos[26]. Para os Celtas era a raiz da palavra druida.

O território é limitado para uma competência, no sentido em que não se prolonga indefinidamente e, ao representá-lo por uma área plana, temos como limite ideal, uma linha, limes, lugar de confluência e separação de domínios distintos. Essa linha é o mais das vezes imaginária, entendida como um raio de acção ou então é acidente natural: uma ribeira ou cumeada; ou vegetal: uma cortina arbórea, uma sebe; ou ainda de origem humana: uma muralha, um fosso, uma via. Pode ser entendida ainda como uma linha quebrada e desvanecida, com uma estrutura irregular, delimitando ilhas difusas, ilhas de Koch, dentro do conceito de geometria fractal da Natureza
[27].

A linha gera um limite numa área, uma fronteira. Em Topologia, a fronteira separa dois domínios, o próprio e o complementar. Em Ecologia, uma linha na paisagem é um ecótono
[28], lugar de maior diversidade biológica que funciona como interface entre dois biótopos contíguos, e ao mesmo tempo que separa, reúne.

O território, se é pois um lugar a defender, também é um lugar consagrado aos deuses, onde os homens procuram reproduzir a sua obra. Com a chegada do Paleolítico, há cerca de 40000 anos, grupos de Homo sapiens entraram na Europa, conquistaram-na e expulsaram ou dominaram e absorveram os indígenas
[29], miscigenando-se[30]. Os historiadores tentam tornar os acontecimentos intelígiveis mostrando que eles se dispõem em geral ao longo duma fractura, duma linha de separação entre duas forças em conflito[31]. A ênfase na preservação, não apenas das gravuras paleolíticas mas de toda a paisagem do Côa, pode ser compreendida como uma estratégia que visa o controlo do território onde se inserem[32], o próprio vale.

Ora, que outro objecto senão a
paisagem para nos apelar a um superícone, ou seja, a uma multiplicidade icónica de atributos - onde o seu valor estético representa não só uma função da medida estética mas também uma função da supericonicidade do objecto[33]. Desde a geomorfologia à sucessão ecológica, passando pela arqueologia, as lendas, estórias e mitos e pelos valores económicos correntes, a beleza de uma paisagem está para além disso tudo, embora também passe por isso tudo e pelo oxigénio que se respira e não vê.



[1] Eliade, Mircea, O Sagrado e o Profano. Livraria Martins Fontes,  (1957) 2001, pag. 84
[2] Saussure, F.,  Curso de Linguística Geral. Publicações D. Quixote, Lisboa, (1915, 1971) 1999, pag.44
[3] Deléage, Jean- Paul,  História da Ecologia - uma Ciência do Homem e da Natureza, Lisboa, Publicações D. Quixote,  (1991) 1999, pag. 58
[4] Roncayolo, Marcel, Território. Enciclopédia Einaudi, vol. 8 : Região, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1986, pag. 264
[5] Darwin, Charles,  The Origin of Species by Means of Natural Selection. Penguin Books, London, (1859) 1985, pag. 441
[6] Thomas. R. Malthus.  An Essay on the Principle of Population. Oxford University Press. (1798) 1999. pag. 13, 14
[7] Roncayolo, Marcel,  Território. Enciclopédia Einaudi, vol. 8 : Região, Imprensa Nacional Casa da Moeda, Lisboa, 1986, pag. 262
[8] Ribeiro, Orlando,  Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora,  (1962) 1998, pag. 18
[9]http://www1.ci.uc.pt/fozcoa/carfig4.html
[10]http://www.ipa.min-cultura.pt/coa/pt/Panels/sh__panels__places/canada/01/index_html?pLang=pt
[11]http://www1.ci.uc.pt/fozcoa/penasco.html
[12] Norberg-Schulz, Christian, Genius Loci: paysage-ambience-arquitecture, Oslo, Pierre Mardaga Éd.,  1976, pag. 46
[13] Micheli, Gianni,  Natureza. Enciclopédia Einaudi, vol. 18 : Natureza- Esotérico/exotérico, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1990, pag. 12
[14] Eliade, Mircea,  O Sagrado e o Profano, São Paulo, Livraria Martins Fontes, (1957) 2001, pag. 36
[15] , Christian, Norberg-Schulz, Genius Loci: paysage-ambience-arquitecture, Oslo, Pierre Mardaga Éd.,  1976, pag. 5
[16] Roncayolo, Marcel,  Território. Enciclopédia Einaudi, vol. 8 : Região, Lisboa, Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1986, pag. 268
[17] Clément, S.,  Clément, P.,  Yong-hak, S.,  Architecture du Paysage en Extrême-Orient, Paris, École nationale supérieure des Beaux-Arts, 1987, pag. 71
[18] Lévi-Strauss : Vida, Pensamento e Obra, Edição Planeta De Agostini SA, Publico - Comunicação Social SA, 2008, pag. 250
[19] Cauquelin, Anne,  A Invenção da Paisagem, Lisboa, Edições 70 Lda, (2000, 2004) 2008, pag. 14
[20] Norberg-Schulz, Christian, Genius Loci: paysage-ambience-arquitecture, Oslo, Pierre Mardaga Éd.,  1976, pag. 46
[21] Cauquelin, Anne, A Invenção da Paisagem, Lisboa , Edições 70 Lda, (2000, 2004) 2008, pag.  30
[22] Deleuze, Giles,  Lógica do Sentido, São Paulo, Editora Perspectiva SA,  (1969) 2006, pag. 143
[23] http://www.uff.br/geographia/rev_06/caio6.pdf
[24] Mourão, José A. e Babo, Maria A., Semiótica: Genealogias e Cartografias, Coimbra, Minerva 2007, pag. 224
[25] Brosse, Jacques,  Mythologie des Arbres,  Paris, Plon,  1989, pag. 72
[26] Gen. xxxv. 4;
[27] Mandelbrot, Benoit,  The Fractal Geometry of Nature. New York, W. H. Freeman and Company,  1977, pag. 42
[28] Forman, Richard T. T.,  Land Mosaics - the ecology of landscapes and regions,  Cambridge, Cambridge University Press,  1995, pag. 85
[29] Oliveira Marques, A. H. , História de Portugal, vol. I. Palas Editores, Lisboa, 1974, pag. 11
[30]http://www.bristol.ac.uk/news/2007/5245.html
[31] Pomian, Krzysztof,  L'Ordre du Temps, Paris, Éditions Gallimard,  1984, pag. 34
[32] Xavier, Sandra,  «O Monumento é o Vale»: a Retórica da Paisagem da Paisagem no Parque Arqueológico do Coa. Etnográfica vol. IV(1), 2000, pag. 115
[33] Walther-Bense, Elizabeth,  Teoria Geral dos Signos, São Paulo, Editora Perspectiva,  (1974, 1979) 2000, pag. 88

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved