Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

LinguagemImprimirDicionário critico

Legenda/Ilustração

Maria Augusta Babo

A relação que a legenda e a ilustração estabelecem entre si só é possível de ser entendida se nelas consideramos o texto e a imagem, respectivamente. A cultura ocidental ligou inexoravelmente texto e imagem. Assim, é para nós hoje difícil ter um olhar despido face às gravuras do paleolítico. Estas imagens, elaborando muito embora o real de que partem, são imagens-nuas, no sentido em que não estão ligadas a nenhum texto específico; são da ordem da transcrição imagética de um real que se pretende apropriar e investir de significações. Elas não se enquadram na relação que nos é tão familiar da ilustração, por um lado, ou da imagem que a legenda ancora, por outro. Essa é a sua nudez, mas também a sua actualidade, visto que nenhuma legenda, nenhum título, nos devolve os sentidos nelas investidos e por elas articulados.

Palavras chave: texto, tipo/tupos, emblema, legível / visível

A relação que a legenda e a ilustração estabelecem entre si só é possível de ser entendida se nelas consideramos o texto e a imagem, respectivamente. Quer dizer que é à luz da articulação entre texto e imagem que este binómio pode ser lido. A cultura ocidental ligou inexoravelmente texto e imagem. Assim, é para nós hoje difícil ter um olhar despido face às gravuras do paleolítico e, nomeadamente, as do vale do Côa. Estas imagens, elaborando muito embora o real de que partem, são imagens-nuas[1], na medida em que não estão ligadas a nenhum sentido específico e muito menos a um qualquer texto; são da ordem da transcrição imagética de um real que se pretende apropriar e investir de significações. Elas não se enquadram na relação tão familiar, para nós hoje, da ilustração, por um lado ou da imagem que a legenda ancora. Essa é a sua nudez, visto que nenhuma legenda, nenhum título, nos devolve os sentidos nelas investidos e por elas articulados. As imagens do Côa obrigam, por isso mesmo, a um esforço de despojamento da imagem, relativamente ao sentido, relativamente à sua tradução verbal (embora possamos sempre dizer: isto é um auroque), relativamente ao texto de que elas seriam eventuais ilustrações.


O binómio legenda / ilustração dá a ver exactamente o tipo de compromisso das imagens na cultura ocidental, desde o aparecimento da
escrita e, mais precisamente, na sua ligação ao Livro, isto é, a determinados textos sagrados que marcaram a nossa civilização. O compromisso entre a imagem e a escrita, como refere Anne-Marie Christin, é produtor de significação e determina a leitura da imagem, independentemente da sua visibilidade.


Se, na actualidade, a diversidade de objectos híbridos vem mostrar as possibilidades várias de associação entre o texto e a imagem, desde a banda desenhada, à publicidade, a dependência da imagem relativamente ao texto marcou a história da leitura das imagens sagradas, por exemplo. Louis Marin
[2] refere-se a essa inter-relação tão estreita que acaba por condicionar a própria percepção das imagens no Ocidente: “tudo é texto e imagem quando se começa a observar de mais perto, tudo é feito desse entrançado de linguagem e de imagem.” (1986:134) As imagens criam-se a partir de referentes textuais, sejam eles narrativas míticas ou narrativas sagradas, de modo que, quer o texto esteja presente, quer ausente, é sempre obrigatório que a imagem remeta para “o texto de que a imagem funciona como ilustração.” (Ibid) Por isso, refere ainda Louis Marin, “O que é reconhecer o tema? É reconhecer o texto que está a montante da imagem. Um caso bem delimitado é a ilustração.”

A imagem está ancorada no tema, a imagem é dependente, o que quer dizer que a sua leitura consistirá sempre numa remissão para a narrativa, o acontecimento ou a figura nela representados. A iconografia ocidental é disso exemplo, esforçando-se por ler todas as imagens à luz dos textos que elas são supostas representar. A imagem ilustra o texto na tradição cristã. Não sendo iconoclasta como outras civilizações do Livro, a religião cristã recorre, no entanto, a uma subordinação sistemática da imagem (sagrada) ao texto (sagrado). Assim, as Vias-Sacras, as pinturas murais com a vida de Cristo e/ou dos santos, como S. Francisco de Assis imortalizado por Giotto, acompanhadas ou não de texto ou de legenda, estão sempre subordinadas à narrativa prévia que lhes fornece a chave de leitura e de interpretação. A iluminura é ainda exemplo de uma imagem que está intrinsecamente dependente de um texto. Tal como se praticava no texto pré-moderno, a iluminura tinha o estatuto de ilustração de texto num duplo sentido: não só a imagem figurava o conteúdo do texto, tornando visíveis figuras, atitudes ou acções nele descritas, as mais das vezes da ordem das narrativas sagradas, ou ornamentava a letra do texto, nomeadamente a inicial, caligrafando-a, isto é, embelezando-a e singularizando-a. Em ambos os casos, a dependência da imagem relativamente ao texto era de regra.


Por outro lado, o texto funciona como legenda da imagem também na pintura ocidental, desde que esta, dessacralizando-se, instaurou o título como
nome da obra. No espaço pictórico, o texto serve de legenda à imagem e determina assim os códigos de leitura, senão exaustivamente, pelo menos de uma forma determinante. O título serve para resolver a polissemia da imagem até ao momento em que, desarticulado desta, pode chegar a nomear, não aquilo que a imagem dá a ver, mas aquilo que nela falta, tal é o uso que dele é feito pelo modernismo[3]. O modernismo nas artes provocou, aliás, esse recentramento e autonomia de cada regime semiótico, separando texto de imagem, música de texto, etc.

Nesta relação texto e imagem, há ainda a referir a técnica do caligrama que, essa, funde imagem e texto, letra e desenho. Ao contrário da letra que é sempre, no alfabeto, da ordem do símbolo convencional e, ao contrário do desenho que, como técnica de representação, é da ordem do ícone, no caligrama a escrita torna-se icónica na medida em que a letra, na sua linearidade sintáctica, desenha aquilo mesmo que nomeia.

Michel Foucault define o caligrama por essa fusão que tem como resultado: “aloja(r) os enunciados no espaço da figura e faz(er) o texto dizer o que o desenho representa.”
[4] Texto e imagem possuem, cada um, a sua especificidade de leitura já que a representação pela imagem pressupõe a semelhança, daí o seu valor icónico, enquanto que a representação pela linguagem pressupõe a diferença, daí a convencionalidade. Na formulação de Foucault: “Dá-se a ver pela semelhança, fala-se através da diferença” (1973: 39). Ao contrário do ideograma ou do pictograma, a escrita alfabética separa inexoravelmente a linguagem da imagem, enquanto as grandes narrativas a entrelaçam de novo.

Fora da escrita, mas também libertas de hipotéticas narrativas a elas associadas, as gravuras do paleolítico em geral e do Côa em particular apresentam-se como imagens livres e, neste aspecto, modernas, daí uma certa incomodidade de leitura mas também, diríamos, uma certa actualidade do estatuto destas imagens autónomas da palavra, nuas, mesmo que a linguagem tenha permitido a elaboração de sentido de que elas são portadoras silenciosas.

 


[1] Termo de José Gil, in: A imagem-nua e as pequenas percepções – Estética e Metafenomenologia, Lisboa, Relógio d’Água, 2005. Na página 92 refere: “/…/ toda a imagem a que falta o seu sentido verbal provoca um apelo ao sentido (como um vazio suscita um apelo ao ar) - pelo que merece ser chamada imagem-nua -/…/”.

[2] Revista de Comunicação e Linguagens, nº3 –Textualidades, Porto, Afrontamento, Junho de 1986, pp. 133 – 141.

[3] Gil,José , op. cit., fala do estatuto do título na ready-made de Duchamp e de como se opera esse descentramento do título relativamente à sua função de legenda.

[4] In: ceci n’est pas une pipe, Paris, Fata Morgana, 1973, p.20.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved