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LinguagemImprimirDicionário critico

Inscrição

Maria Augusta Babo

Toda a inscrição, distintamente da comunicação oral, instaura uma dimensão vivencial do tempo, uma comunicação diferida que é, desde logo, uma memória exterior organizada e que vem instaurar um suplemento de memória que passa a ser transmissível. A memória orgânica expande-se e muda de registo, passa a memória lítica e transporta um legado que hoje não será lido no seu sentido primeiro, religioso ou mágico, por exemplo, mas que permite entender a sua função de diferimento.

Palavras chave: Escrita, técnica, marca

Alguns antropólogos consideram que o humano tem, para além da memória comum a todo o vivo, um tipo de memória específico, que se constitui exteriormente e que é resultado do desenvolvimento da técnica. Bernard Stiegler fala de uma terceira memória que resulta da capacidade de inscrição do orgânico no inorgânico e que está na base da transmissão de uma herança técnica. Tal fenómeno releva de uma possibilidade encontrada de exteriorizar o saber, o pensamento, a própria memória e de registá-los num espaço fora do corpo de forma a que não esteja submetido à morte como lei do vivo. A capacidade de inscrição e de constituição de uma memória exterior constitui uma memória autónoma da ordem do vivo e, por natureza, morta ou inorgânica mas, enquanto morta, legável. No caso das gravuras do Côa, deparamo-nos com inscrições anteriores ao aparecimento da própria escrita, em que se exibem figuras animais ou humanas, marcações que nada têm a ver com a codificação gráfica ligada à oralidade. A escrita é, para a epistemologia da história, a grande marca instauradora de um novo paradigma civilizacional. Mas esta clivagem que a história impõe ao desenvolvimento da humanidade é hoje alargada ao domínio do inscritível que lhe preexiste uma vez que nele se organiza já uma visão exteriorizada do meio envolvente. A arte pré-histórica é inscritível e, nessa medida, legível para além de visível, possuindo dimensões comunicacionais para além de estéticas ou sagradas.

Poder-se-á dizer que a chamada arte paleolítica revela, antes de qualquer precipitação interpretativa, a capacidade que o humano possui de exteriorizar a sua elaboração simbólica, ao mesmo tempo que encontra a expressão dessa exterioridade, por exemplo no desenho. Esta será a primeira leitura ou o primeiro nível de leitura da inscrição (rupestre). As gravuras, como expressão de um movimento para fora, tocam o exacto ponto, sempre fulcral, sempre indecidível, sempre evencial, da relação do humano com o registo, que é ao mesmo tempo fixação, elaboração e retenção da sua experiência, aí assumidamente diferida. Independentemente dos processos filogenéticos que levaram o humano a ancorar-se nesta exterioridade que constitui, no caso da linguagem, o primeiro sistema de expressão, trata-se aqui de discutir o dispositivo de inscrição nas suas variedades e propriedades inerentes. Por um lado, há já linguagem, isto é, elaboração simbólica, aquando do aparecimento das inscrições gráficas. E ainda, a inscrição, paralelamente e distintamente da comunicação oral, instaura uma dimensão vivencial do tempo, uma comunicação não-simultânea, que é, desde logo, uma memória exterior e suplementar organizada e que vem instaurar até uma apropriação do espaço delimitando-o em
território. A questão que, a partir daí, a expressão gráfica levanta é a da(s) própria(s) técnica(s) de inscrição.

Ao inscrever-se no inerte, a memória orgânica como que se expande, muda de registo - memória lítica - e advém, por esse mesmo facto, artificial, inorgânica, mas organizando a própria morfogénese das matérias inertes. Estas tendem, sob a acção humana, a constituírem, por seu turno, interfaces do humano com o meio (Stiegler, 2003: 63).

"A singularidade é que a matéria inerte, mesmo se organizada, que constitui o objecto técnico, evolui ela própria na sua organização: ela deixa de ser simplesmente matéria inerte, não sendo no entanto tão pouco matéria viva. É uma matéria inorgânica organizada que se transforma com o tempo como a matéria viva se transforma na sua interacção com o meio. Além disso, ela torna-se a interface pela qual a matéria viva que é o homem entra em relação com o meio" (2003: 63).

Há uma selecção de formas que organiza a matéria e que acaba por organizar também o humano, isto no que diz respeito ao próprio objecto técnico ou instrumento, mas que é extensível à utilização da matéria inerte na expressão inscritível. Quer isto dizer que, se o humano organiza o objecto exterior, utensílio ou já a própria inscrição, em retorno, serão estes a estruturar o próprio humano. Como o afirma Bernard Stiegler, "a suplementaridade hipomnésica é constituinte" (2003: 39); de quê, precisamente? Senão da arte, pelo menos da expressão da elaboração/apropriação do meio, que o mesmo é dizer, do mundo e da sua condição nele. A constituição da especificidade do humano, da sua individuação, para empregar o termo de Simondon, passa necessariamente pela função que as técnicas como próteses e a inscrição suplementar da memória exteriorizada desempenham no próprio desenvolvimento das competências humanas.

E eis que surge um outro pressuposto que é preciso elucidar: não há pensamento sem uma configuração externa que o estruture e o racionalize. A própria ideia dessa exterioridade fundadora instala no pensamento filosófico a ideia de suplemento de origem como estruturante dos processos simbólicos. Derrida encetou a perspectiva de uma arqui-escrita que uma paleontologia ou arqueologia do humano e da técnica ajuda a conceber.

Paralelamente a esta determinação, poder-se-á afirmar que, em termos cognitivos, a organização do pensamento e o desenvolvimento do raciocínio abstracto se configuram no registo, ambos são resultado da exploração e aperfeiçoamento das técnicas do inscritível, quer na figuração quer na escrita como forma acabada de configuração do pensamento. Pode verificar-se, nas gravuras do Côa, uma dimensão comum à expressão figural e à expressão escrita onde o plano figural não-realista, com marcas de abstracção, está na base da expressão gráfica, senão mesmo, mais tarde, da "
razão gráfica", segundo a entende Jack Goody. Como adverte Leroi-Gourhan a este propósito, não se pode reenviar a arte paleolítica figural para "o decalque do real" sem mais, dado que ela está intrinsecamente ligada à linguagem, à elaboração simbólica e não tanto à dimensão artística: "isto é, existe uma distância tão grande entre o traçado onde admitimos ver um bisonte e o bisonte propriamente dito como entre a palavra e o utensílio." (O Gesto e a Palavra: 190) Na verdade, a expressão gráfica do paleolítico coloca-nos hoje a interrogação sobre o desenvolvimento de uma racionalidade espacial, que a sedentarização vai abrir para a escrita, e a qual, mais do que ser uma representação da realidade, mais do que consistir numa representação da linguagem da oralidade, inaugura um pensamento reflectido, no entender de Leroi-Gourhan, que re-elabora, no registo dos símbolos, o mundo real (ibid: 193). O que as expressões inscritíveis vêm permitir, como vimos afirmando, é, de acordo com este antropólogo, uma passagem do universo vocal e mímico da presença material a uma abertura ao universo da representação diferida. Ora, é precisamente esta questão que, por estar hoje dividida segundo uma outra clivagem, a expressão artística - imagética e plástica - VS a expressão na linguagem - oral e escrita - nos impede de analisar um regime comum do traço.

Nessa medida, a arte paleolítica torna-se o domínio por excelência de uma interrogação filosófica geral acerca da relação humano - técnica - exterioridade. Quer isto dizer que a arte paleolítica vem afinal relançar as posições antropológicas e filosóficas que consolidaram a ordem do escrito como uma via distinta da oralidade na construção do pensamento e ainda a inserção da representação imagética como incluída dentro dessa ordem gramatológica. Pode falar-se hoje de técnicas scripto-visuais (B. Latour: 2006), cuja particularidade é a de reverem em conjunto a imagem e a escrita enquanto registo, destacando esta última da sua congénere oralidade. Tratar-se-ia, em ambas as dimensões, da passagem do óptico ao háptico que o mesmo é dizer, da articulação necessária entre a visão e a mão.

Desta indistinção primeira, é a posição da equipa de Jacques Anis (1988), a escrita só se destacará a partir do momento em que um elemento desenhado, gravado, ganha uma função distinta e precisa da função atribuída à imagem, isto é, a partir do momento em que muda de "objectivo (tenta comunicar uma certa mensagem que possa ser compreendida por aqueles a quem se dirige) e de execução (torna-se estereótipo pela omissão de todos os detalhes)." (1988: 15) A escrita manifestaria então relativamente aos elementos desenhados, mais ou menos figurais, a sua economia, a sua sistematicidade e a sua simplicidade no estabelecimento do carácter. Quer isto dizer que a remissão da ordem do escrito para o campo da imagem não pode amalgamar procedimentos de simbolização distintos (Anis, 1988: 28). Isto é, não se pode associar directamente a escrita ou escritas à imagem, dadas as suas características próprias, identificadas ou identificáveis na fronteira entre
o visível e o legível.

Há ainda um outro âmbito dos processos inscritíveis que deve ser referido. Trata-se da inscrição como marca ou espaçamento, produtora da própria dimensão gramatológica como estruturante de todo o pensamento simbólico. É da natureza do inscritível enquanto
marca desempenhar funções repetitiva - iterativa - e diferencial que são estruturantes do próprio simbólico enquanto ordem lógico-linguística.

No quadro do desenvolvimento dessa exterioridade técnica que o humano deixa como herança, inscrição do seu savoir-faire, poder-se-á distinguir entre objectos técnicos propriamente ditos, objectos protésicos que são a extensão do corpo e funcionam como potenciadores da acção humana sobre o meio e objectos que, pela sua natureza distinta, são especificamente mnemotécnicos, isto é, segundo Stiegler, capazes de inscrever essa mesma memória. Quanto aos primeiros, os utensílios, são hoje consensualmente identificados, numa abordagem filogenética, em outras espécies animais, tornando não pertinentes as classificações quer de Homo habilis, quer de Homo faber. A habilidade, distinta da performance, é constituída de vários requisitos, entre os quais a postura corporal necessária ao desempenho da tarefa. Poder-se-á afirmar que não só a utilização de utensílios é comum aos primatas, como ainda o facto de poder haver uma transmissão cultural das técnicas (Poncin: 2004).

Ora, as inscrições que povoam a arte rupestre são de ordem mnemotécnica, na medida em que assentam numa exterioridade técnica mas sem qualquer utilidade funcional para além da sua função de arquivo de memória (Stiegler), função a partir da qual se constata o desenvolvimento humano do espírito e que se desenvolve no próprio aparecimento posterior da escrita. Poder-se-á dizer que a escrita, ou os vários tipos de escrita que a humanidade foi conhecendo, constituem esse legado mnemotécnico por excelência, já que não têm nenhuma outra utilidade a não ser justamente a inscrição e arquivamento da memória e do
cálculo, de desenvolvimento daquilo a que, com a emergência dos sistemas de escrita, poderemos chamar uma "razão gráfica".

Olhada desta forma, a arte paleolítica não somente permite perceber a relação do humano com o inorgânico, como a constituição de uma memória colectiva, transversal às sociedades humanas e transtemporal. É nesta ruptura do humano para com o vivo em geral que se dá a abertura de mundo. Daí concluirmos simplesmente que o que se joga nas inscrições figurativas em questão não necessita de produzir ilações para a arte ou a religiosidade. Basta-nos assinalar, nesta ruptura histórica, a constituição no humano da capacidade de interiorizar aquilo que constitui a própria exterioridade mnésica. Começa aí a aventura cultural.


Bibliografia


Anis, J. (org.), L'écriture - théories et descriptions, Bruxelas, De Boeck-Wesmael, 1988.

Derrida, J., De la Grammatologie, Paris, Editions de Minuit, 1967.

Goody, J., La logique de l'écriture - aux origines des sociétés humaines -, Paris, Armand
Colin, 1986.

Latour, B., "Les vues de l'esprit. Une introduction à l'anthropologie des sciences et des techniques ", in: Sociologie de la traduction. Textes fondateur, (AAVV)Paris, Presses de l'École de Mines, 2006 (pdf).

Leroi-Gourhan, A. O Gesto e a Palavra, Lisboa, Edições 70, s data, (Albin Michel, 1964)
Poncin, P. et alii, "L'outil: une invention humaine?", in: Bulletin de la société royale des sciences de Liège, vol. 73, 4, 2004, pp. 197-209 (pdf).

Stiegler, B., La technique et le Temps - 1 - La faute d'Épiméthée, Paris, Galilée, 1994.

Stiegler, B., Passer à l'acte, Paris, Galilée, 2003.

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