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LinguagemImprimirDicionário critico

Índice

José Augusto Mourão

O índex é um signo vazio, indicando apenas uma existência, um "ali", "agora". O poder do índice é um poder denotativo, forçando a atenção para um objecto particular, aqui e agora. O índice só existe quando conectado com o objecto individual. Os animais utilizam o excremento como mensagem para circunscrever o espaço que se atribuem. Também para o homem qualquer signo é, antes de mais, uma mancha, um sinal. Uma carroçaria riscada, uma parede manchada são traços que atribuímos a alguém: «Quem fez isto?»

Palavras chave: sintoma, signo, nome, assinatura

Surpreende-nos a marca do polegar que o oleiro deixou impresso nos vasos que esculpiu. Quer se trate do memorial das campanhas do Faraó ou dos simples graffiti numa parede, o inscrito/escrito sobrevive ao tempo pela força da sua própria materialidade. Por definição, na impressão nada separa a coisa do objecto: numa máscara funerária o molde conserva uma forma de que a carne desapareceu, mas que se impõe, embora qualquer outra matéria a possa substituir. A impressão é considerada como testemunho, prova e assinatura individual. Para que a impressão possa funcionar como signo é preciso, no caso da máscara, que o rosto moldado e o molde sejam um actual e o outro potencial, implicando processos interpretativos, estratégias de reminiscência e de testemunho, etc. A impressão da pátina (carbonato de cobre que se forma nas estátuas e medalhas de bronze, concreção terrosa nos mármores antigos) inscreve-se sobre uma cobertura através dos traços acumulados pelo uso. A pátina aparece como um traço da praxis enunciativa. É o exemplo perfeito de um índice não-subjectivo da enunciação.

A categoria, na teoria de Peirce, compreende os índices intencionais que entram na comunicação humana. Sebeok dá-lhe o nome de designadores. Peirce define o índex em oposição aos símbolos e aos ícones como uma categoria que compreende não apenas os signos naturais mas também os signos convencionais. Um signo veículo é um índex se é "realmente afectado" (Peirce § 2.248) pelo seu objecto referencial. "O índex está fisicamente conectado com o seu objecto: fazem um par orgânico" (§ 2.299). Peirce inclui na classe dos índices um relógio de água, uma fotografia, um dedo indicador, um grito.

O índice é um fragmento de um objecto ou em contiguidade com ele, parte do todo ou tomada pelo todo. Uma relíquia é um índice, neste sentido: o fémur do santo é o santo. Ou a pegada na areia. De resto, Peirce aplica o termo a signos tão diversos como uma impressão, um termómetro, um trovão, a palavra "isto", um indicador, uma imagem fotográfica, de tal forma que o conceito acabou por criar uma certa confusão.

Os índex e os sintomas são o correspondente da antiga classe dos signos naturais. Geralmente, a classe dos índices é definida em contraposição à classe dos
símbolos. Na taxonomia dos signos de Peirce, o poder do índice é um poder denotativo, forçando a tenção para um objecto particular, aqui e agora (Pierce 24). Este autor define o índex como "sendo realmente e na sua existência individual conectado com o objecto individual" (Peirce 251), mesmo não projectando qualquer luz sobre a natureza dos seus objectos; não tem valor cognitivo, apenas indica algo como "ali".

Logo, o "real" referenciado pelo índex não é o "real" do realismo. Aparece como um facto bruto e opaco, como pura indicação. É essa, para Didi-Huberman, a significância da pequena e irregular mancha localizada, aquilo que seria o rosto de Cristo impresso no sudário de Turim. Os índices são caracterizados por uma certa singularidade; referem-se sempre a indivíduos, unidades singulares. São dependentes de uma determinada contingência: o vento que sopra num dado momento e numa dada direcção, um pé que deixou pegada na lama precisamente neste lugar, a câmara que dispara num dado momento. Ao contrário dos
ícones, os índices não têm semelhança com os seus objectos, ainda que, directamente os causem. Isto deve-se ao facto de que o índex é esvaziado de conteúdo.

Um
indicador, por exemplo, designa algo sem o descrever ("O índex não afirma nada; apenas diz: "Ali"[1]. Dirige a atenção para um objecto por "compulsão cega" (Collected 161). Como os ícones e os símbolos, que se associam por semelhança ou operações intelectuais, o trabalho do índex associa-se por contiguidade (o pé toca o chão e deixa um traço, o vento empurra o cata-vento, o indicador indica um sítio). A especificidade e singularidade associada ao índex são evidenciadas mais claramente na designação dos pronomes demonstrativos ("este", "isto"). "Na linguagem tudo o que se relaciona com a deixis é um índex: palavras como Eu, tu, aqui, agora[2].

R. Jakobson chama aos dícticos shifters porque a sua referência depende totalmente da situação daquele que fala. Resnikow define o índice como um signo natural baseado numa "ligação natural" entre signo veículo e referente (1964, p. 138-39). Por seu lado, U. Eco divide a classe de signos naturais entre sintomas e índices (Eco, 1973b, p. 67). Ambos são definidos a partir da sua relação de contiguidade. Husserl define os índices como signos naturais ou artificiais produzidos sem intencionalidade (1900, p. 31). Este" é esvaziado de qualquer conteúdo e designa simplesmente um objecto específico e singular ou situação, quando a
linguagem parece aterrar, aderir à realidade presente da fala. Para Peirce, a iconicidade da imagem fotográfica é reduzida pela total aderência do signo ao seu objecto.

A fotografia e o filme parecem poder ser excelentes exemplos dos sistemas de signos que definem o ícone e o índex e, em certa medida, o símbolo. Embora icónicas ao existirem em similaridade com este objecto são também indexicais porque a imagem fotográfica tem uma ligação existencial com o seu objecto. E ainda, na medida em que a fotografia e o filme recorrem à linguagem, invocam o campo simbólico. Peirce parece ter situado a fotografia como primariamente indexical, subordinando a dimensão
icónica para um estatuto secundário (Collected 159). A característica distintiva do índex é a conexão física ou existencial com o seu objecto, no caso da fotografia dá origem a uma imagem icónica.

O índex, tal como o descreve Peirce, aparece frequentemente ligado a duas contradições, ou pelo menos a duas definições incompatíveis. Primeiro, quando o índex é exemplificado pela impressão ou pelo fotógrafo é um signo que pode ser descrito como um traço ou impressão do seu objecto. Algo do objecto deixa uma conexão material entre o signo e o objecto - a reprodutibilidade de um momento passado. O traço não se evaporou no momento da sua produção, mas fica lá como um testemunho da sua anterioridade. O índex como deixis - o dedo indicador, o "isto" da linguagem - estão ligados a uma inegável presença.

Há sempre um abismo entre o signo e o objecto e o toque é aqui apenas figurativo. Destas duas dimensões do índex, a última é frequentemente esquecida. Só a primeira definição - o índex como impressão ou traço - parece corresponder à imagem cinemática. O dedo indicador, que aparece no "este" da linguagem incarnado no ideal da indexicalidade, é puramente forma. O vazio do significante "este" contrasta nitidamente com a abundância da imagem cinemática, a sua inevitável iconicidade. O índice não perde o seu carácter de índice mesmo quando o
interpretante falta, enquanto a existência do seu objecto - a doença para um sintoma, por exemplo - lhe é semioticamente necessária.

Se Peirce apresenta o sintoma como um paradigma do índice é porque o sintoma semiotiza um mal que está a agir: um drama. É, em grego, uma palavra para o crime e para o rito. Se todo o contacto apela para o acto que o funda - segundo uma relação indiciária -, assim todo o acto apela para um nome próprio do actor (Peirce aponta também o nome próprio como um paradigma do índice, porque se liga a um sujeito absolutamente particular; porém o nome próprio é também um «legisigno»: um signo que legaliza a sua relação, de resto.



[1] Peirce, The Essential Peirce Selected Philosophical Wrintings, Vol. 1. Ed. Nathan Houser and Christina Kloesel, Bloomongton, Indiana UP, 1992, p. 226.
[2] O. Ducrot e T. Todorov, Encyclopedic Dictionary of the Sciences of Language, Baltimore, John's Hopkins UP, 1979, p. 86.

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