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Graffiti

Maria Augusta Babo

Graffiti é o termo genérico para designar um tipo de marcação contemporânea, inserida numa dimensão urbana e donde resultam inscrições murais, compostas de figuras e /ou letras, numa composição englobante e organizada. A céu aberto, os graffiti retomam hoje essas marcas inscritas nas superfícies rochosas que constituem a chamada arte do paleolítico. O espaço utilizado é, porém, diverso, já que as superfícies ocupadas são muros ou paredes de construções urbanas e suburbanas, podendo abarcar também superfícies móveis como a das composições ferroviárias ou do metropolitano.

Palavras chave: marca, assinatura, acto performativo.

Como produto urbano ou suburbano, este fenómeno funda a cultura underground e tem como principal função a marcação de território. Para além disso, e porque cada writer pretende singularizar a sua marcação, aparecem os tags ou marcas individuais e individuantes. Aparentado à escrita, afirma-se, contudo, contra os códigos comunicacionais, daí que não seja possível falar de expressão ou de representação. Os graffiti terão de se inscrever numa leitura de cariz mais pragmático, inseridos que estão numa dimensão performativa do próprio acto de marcar. Ao marcar, os tag ou graffiti marcam a marcação, operam um acto de territorialização que é, ao mesmo tempo, um acto de individuação. Isto é, delimitam e procedem à apropriação de um espaço, transformando-o em território, por um lado, mas criam, pelo seu próprio acto, uma individuação, na medida em que dão origem a uma marca - tag - posteriormente repetida e assumida como nome próprio - assinatura.

Pode referir-se a existência de graffiti, no seu contexto urbano, desde o aparecimento das cidades. Disso é exemplo Pompeia, cidade cujos edifícios ainda possuem frases e desenhos registados nos seus muros e que hoje figuram na linhagem desta prática de inscrição pública. Um outro exemplo pode ser observado nas catedrais medievais, onde os pedreiros inscreviam o símbolo da sua corporação nos blocos de pedra talhada, servindo este como assinatura colectiva. Mas, o acto de grafitar acontece desde o paleolítico e como tal deve ser pensado, antes mesmo de o remeter para a constante interrogação sobre o seu estatuto de arte. Tal como provavelmente nas gravuras rupestres, os graffiti contemporâneos cumprem uma função de marcação, delimitação, apropriação, passagem, acontecimento, individuação.

Se o registo frásico, onomástico ou de pequenos símbolos e figuras sempre foi conhecido no espaço público - desde os troncos de árvores dos parques urbanos aos sanitários -, já a prática dos graffiti enquanto movimento estético e sociologicamente relevante aparece nos meados dos anos 60, nos EUA. Para além desta ocorrência, os graffiti estão ligados também ao registo público de slogans políticos, nomeadamente em campanhas eleitorais. Genericamente, podem ser lidos como gesto de apropriação de terrenos baldios, suburbanos, aos quais se poderia destinar a expressão de não-lugares, da autoria de Marc Augé, mas ainda como gesto de apropriação do espaço público e nisso consiste a sua irreverência.

De movimento espontâneo, dá lugar à sua institucionalização, aquando da fundação do United Graffiti Artists - UGA - que desemboca, em certos casos como o de Jean-Michel Basquiat, na integração em circuito comercial, passando para suporte em tela e para o interior das galerias de arte. São, a partir de então, recuperados pela crítica e assumem-se como uma variante na pop art. Em paralelo com esta incorporação da prática de graffiti na instituição arte, surge um movimento generalizado dos municípios, de Nova Iorque às cidades europeias, no sentido de interditarem e limparem a graffitagem de mobiliário e de edifícios públicos. Considerada como vandalismo, esta actividade desenvolve-se, actualmente, em espaços previamente destinados a Writers pelas próprias instâncias municipais.

Do ponto de vista da inscrição propriamente dita, os graffiti podem incluir desenho de figuras mais ou menos estilizadas, recorrendo a relações de intertextualidade com outras expressões da pop art, como a B. D., mas podem ainda traduzir-se na exploração expressiva de letras, com design particular, e que são conhecidos como os tags. Na função de nome próprio, o tag pode ser composto de siglas, alcunhas, diminutivos, dando lugar a uma panóplia muito própria de nomeação. Caracterizam-se por utilizar um estilo selvagem - wild style - o que torna esses nomes indecifráveis. Tais marcas, pela sua ilegibilidade intencional, destinam-se, não a uma função predominantemente comunicativa mas, antes, a uma função designativa ou indicial. Mais do que ser expressão de sentido, os graffiti e os tags assumem-se como
assinatura. Este tipo de expressão é avessa à comunicação. Kokoreff (1992) fala, por isso, de não-cultura, quanto à dimensão gestual e violenta dos graffiti. Ao recusarem a mensagem, inscrevem-se no âmbito do não-verbal e é nesse registo que devem ser analisados. Nesta dimensão pode dizer-se que divergem da arte rupestre; sendo ambas expressões do domínio do não-verbal, as actuais marcas relevam de uma atitude pós-comunicativa deliberada: uma recusa do universo armadilhado da comunicação.

Expressão de um conflito, os graffiti estão no cruzamento de diversos factores: autoridade, poder, instituição e produção artística. Praticam uma estética da não representação e nisso opõem-se ao trompe l'oeil para afirmarem a violência do traço. Pode mesmo considerar-se o acto de graffitagem como um acto obsceno ou, quando muito, dito de "mau gosto". Pelo contrário, o trompe l'oeil como arte mural inscreve-se na lógica da representação, dissimula a falência arquitectónica ou outra, é um excesso de presença e nisso consiste a sua vertente de ilusão. Os graffiti não procuram mascarar, não se regem por estéticas naturalistas, não escondem ou iludem mas estão lá. Aí está patente a violência dessa escrita.

Na sua expressão minimal, os graffiti reduzem-se a ser marcas do corpo, ligados que estão ao gesto de marcação. Patente nos graffiti está mais o desencadear de um processo de singularização do que um processo de subjectivação. É nessa perspectiva que S. Stewart afirma: «a meta dos "escritores" de graffiti é uma estilização inseparável do corpo, uma estilização que, na sua impenetrável "selvajaria", poderia superar até referências linguísticas e servir puramente como marca de presença, a concreta evidência de uma existência individual e a reivindicação do meio ambiente através da marca pessoal» (1988: 165). Tal definição, pela sua abrangência e pelo estatuto em que coloca a prática da graffitagem poderia ser dedutivamente atribuída às gravuras do Côa. Em ambos os casos, a expressão é inseparável do corpo, é a sua marca indelével, o seu rasto. Mas essa singularidade que faz ao mesmo tempo a obscenidade deste acto contemporâneo é, segundo esta autora, o facto de ele ser um acto des-locado. Daí a sua provocação; daí a incomodidade que causa no seio do espaço urbano, função de todo existente nas marcas do paleolítico onde seria antes referencial, marcação de território, de percurso ou de acontecimento.

A actividade contemporânea dos graffiti, difundida à escala global, pode tomar diversas designações: Spray Art, Vandal Art ou Graff Art, marcando, todas elas, uma intenção de assunção estética na sociedade contemporânea. Verifica-se a coexistência de designações divergentes na medida em que o termo Spray Art remete para a técnica e material utilizado, enquanto que Vandal Art remete para a ordem da recepção e para os modos como o público e as instituições acolhem esta prática no espaço urbano. A Graff Art, por seu lado, desenvolvendo-se já numa lógica de consumo, abrange produtos sucedâneos como sites com exposição fotográfica das obras, vestuário (imagem), etc, etc. A sociedade de consumo integrou a Graff Art fazendo dela ornamento, decoração, moda. Ao retirar-se do espaço mural urbano para os pequenos objectos e gadgets, tal prática deixou-se, ela também, apropriar. De acto de apropriação do espaço público passou a arte apropriada pela lógica do consumo.




Bibliografia

Augé, M. (1998) Não-Lugares - Introdução a uma antropologia da sobremodernidade, Lisboa, Bertrand Editores

Babo, M. A. (2001) «Para uma semiótica do corpo», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 29 (O Campo da Semiótica), Lisboa, Relógio d'Água, pp. 255-269.

Kokoreff, M. (1992) «Margens da comunicação: os jovens, o tag e o rap», Revista de Comunicação e Linguagens, n.º 17-18 (O Não-Verbal em Questão), Lisboa, Cosmos, pp. 151-157.

Stewart, S. (1988) «Ceci tuera cela: Graffitti as crime and art», in Life after postmodernism: Essays on value and culture, St Martin's Press, Macmillan/New World Perpectives.

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