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LinguagemImprimirDicionário critico

Gesto

Tito Cardoso e Cunha

o gesto é uma acção corpórea comunicativa que pode ter com a linguagem diferentes relações. Tanto a pode substituir com complementar ou mesmo completar. O gesto é também central tanto na expressão artística como religiosa.

Palavras chave: linguagem; mito; mão

A noção de gesto implica sempre a acção de um corpo. Acção que é da ordem da comunicação com outros corpos. Mais ou menos proximamente, sendo que, quando o gesto toca, o sentido mais imediatamente se transmite e quando o gesto apenas sugere ou exprime, porventura simbolicamente apenas, a comunicação se apresenta mais diferidamente mediada.

 

Um gesto exprime sentido e significação, implica uma linguagem, a mais das vezes culturalmente codificada. Inserindo-se necessariamente num processo comunicativo, o gesto refere-se-lhe nem sempre da mesma maneira. Diferentes regimes gestuais são possíveis. O mais imediato é sem dúvida aquele que retoricamente complementa a linguagem, prestando-lhe o ênfase a certa altura requerido e porventura até completando ou mesmo esclarecendo o sentido da asserção linguística. Na retórica antiga, essa dimensão da gestualidade que acompanha o discurso do orador, complementando-o no processo comunicativo, já tinha sido assinalada pelos teorizadores primeiros da disciplina.

 

Assiste-se aí a uma verdadeira integração do gesto no processo comunicativo de que a linguagem é a face mais audível. O gesto acentua o que se ouve através do que se vê. Tal como a entoação pode dar diferentes sentidos à mesma enunciação linguística, assim também o gesto pode precisar ou mesmo desviar o sentido da fala.

É claro que este tipo de gestualidade, tal como a linguagem a que está associada, depende de uma codificação cultural precisa cujo conhecimento prévio é requerido para a perfeita compreensão da mensagem. No mais elementar dos exemplos, sabemos que a agitação da cabeça, no sentido vertical, acompanha a enunciação do “sim” e a movimentação no sentido horizontal a do “não.”
 

Neste exemplo, a afirmação, que noutras culturas se exprimirá através de gestos diferentes, pode até ser conseguida pela gestualidade apenas. O mesmo se passa naturalmente com o seu inverso, a negação. Aproximamo-nos aqui de um outro tipo de gesto comunicativo que funciona ele próprio como linguagem, isto é como substituto da linguagem verbal. A gestualidade enquanto linguagem, não já no complemento desta mas mesmo como seu substituto. O exemplo mais óbvio será, naturalmente, a linguagem gestual dos surdos-mudos em que cada gesto codifica um elemento comunicativo de base.

Ao substituir-se à linguagem verbal, a gestualidade adquire e desempenha as suas funções comunicativas de modo a torná-la dispensável, indo mais além ainda na sua expressividade comunicativa. O gesto afectivo, por exemplo, o afago, exprime por vezes gestualmente aquilo que as palavras não conseguem dizer totalmente ou tão completamente. Deste ponto de vista, o gesto pode intensificar a comunicação até um estádio de proximidade que a linguagem verbal dificilmente alcançaria.
 

A linguagem gestual permite ainda acompanhar a comunicação daquilo que a fala não alcança a não ser intermitentemente, isto é o silêncio. Ora, o silêncio, do ponto de vista retórico, pode ser um contexto de intensificação da mensagem sobretudo se ela intencionar um cariz mais afectivo. Diz-se de alguns silêncios serem eles eloquentes. Mais ainda quando um gesto os complementa ou mais completamente os exprime. Uma linguagem exclusivamente gestual, como a dos surdos-mudos, opera em silêncio nisso se diferenciando da fala que o rompe. Não totalmente, no entanto, uma vez que a fala é toda ela feita também de silêncios intercalares que é aliás o que lhe permite ser ouvida.

Gestualidades outras são as dos rituais, nomeadamente religiosos. O sinal da cruz, por exemplo, no cristianismo. Trata-se de um gesto ritual que exprime simbolicamente uma convicção religiosa mas com o qual se procuram também efeitos precisos de protecção ou outros. Manifestam-se através dessas substancialidades rituais sentimentos de respeito ou de imploração relativamente à entidade divina. A gestualidade ritual é toda ela feita de repetição como quando se comemora um acto primevo. Repeti-lo gestualmente é reactualizá-lo, retomar a sua força performativa. No exemplo da horda primitiva de que Freud fala em Totem e Tabu, o ritual impõe toda uma gestualidade apaziguadora do sentimento de culpa pelo crime cometido.
 

O rito e os gestos que o manifestam, dizem os antropólogos, referem-se sempre a um mito cuja narrativa ele encena. Essa encenação do mito pelo ritual faz dele uma espécie de representação, como no teatro. O objectivo será, por um lado, catártico, como na tragédia grega mas, por outro lado, a gestualidade do rito não se esgotará apenas nessa função. Ele efectua, como já vimos, não apenas uma repetição comemorativa mas, mais do que isso, uma actualização do universo mítico assim posto em cena.

O que se passa no teatro, com a sua gestualidade esfuziante, e na arte em geral, requer ainda alguma reflexão. É claro que a dança configura um puro gesto silencioso embora mimando intensamente o universo musical em que se insere e do qual se não pode separar. Mas é no desenho ou na pintura que o gesto se materializa deixando sempre as marcas mais indeléveis de uma singularidade. Estas artes visuais são como gestos materializados. Por vezes essa gestualidade materializada no papel tem a caligrafia por intenção como consabidamente acontece em algumas das culturas orientais. O gesto aí pode ter uma significação dupla: a da mensagem que ele concretiza no suporte dado e a que se exprime pela arte do gesto que assim se manifesta.
 

O gesto é sempre uma acção que emana necessariamente de um corpo que através dele se dá a ver e se torna presente. Há gestos que são históricos, como o de César atravessando o Rubicão, ou míticos, como Alexandre cortando o nó górdio. Outros são indefinidos no que a essa distinção se refere, embora certamente de cariz religioso como é para os cristão o gesto de repartir o pão e dar a beber o vinho, fazendo isso em memória de um primeiro gesto que não se quer perdido no tempo. Essa corporeidade do gesto é, em todo o caso, o seu traço mais saliente, talvez com o silêncio que representa como meio de comunicação. Ele contrasta com a materialidade do som na linguagem. Também a sua dimensão concreta e visível o opõe à invisibilidade da linguagem enquanto meio privilegiado de veicular significações até ao pensamento mais abstracto.

Também o gesto, tal como a linguagem, tem a sua vertente de calão ou gíria manifestando as suas mensagens de conotação mais negativa. Não esquecer com efeito que, se o gesto configura um modo de comunicação, esta não é necessariamente positiva ou afectuosa como no afago. Também o ódio se pode exprimir gestualmente e porventura com consequências bem mais gravosas do que a simples fala. É claro que sabemos, pelo menos desde Austin, ser a linguagem também capaz de fazer coisas e portanto agir. É no entanto a um outro nível de visibilidade que o gesto actua. Por isso mesmo se distinguindo na clareza das suas intenções. E no entanto teremos talvez de conceber ambos, gesto e fala, como as duas vertentes duma mesma moeda comunicativa.

  

Bibliografia

Barrier, G., La communication non verbale: Comprendre les gestes, perception et signification. ESF, 2007.
 

Jousse, M., L'Anthropologie du geste. Gallimard, 1974.

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