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LinguagemImprimirDicionário critico

Figura

José Augusto Mourão

O termo de figura é bastante polivalente, o que propicia uma certa eficácia teórica. No campo da retórica, as figuras são assimiladas aos tropos, isto é, desvios do discurso em que se indica a relação da língua e do sujeito de enunciação, bem como os seus efeitos sobre as transformações do sentido. Segundo a definição tradicional, a figura seria um modo de dizer fora do habitual, que servia para dar mais força e elegância ao estilo. A figura permite novas combinações de linguagem, novas possibilidades expressivas da realidade enquanto fenómeno de transposição analógica. Pode dizer-se que toda a figura é o ponto de emergência duma potência anónima de que ela é a flor oferecida aos nossos olhos. Um desenho, uma fotografia, um cartaz publicitário, um logo são portadores de uma qualquer figuratividade, representam objectos ou pessoas, paisagens, artefactos.A figura é uma invenção própria dos discursos sem os quais ela não existe. O estado figural das grandezas figurativas remete para a ordem da linguagem, segundo os dois modos do “simbólico” e do “intersubjectivo”.

Palavras chave: estilo; relevo; emblema

Quando falamos de figura não visamos directamente a definição abstracta que faz dela uma grandeza terminada, enclausurada nos seus contornos. Sonhamos antes com essas formas tão diversas que a natureza propicia. Formas lábeis das nuvens que passam, formas mais duráveis que o olhar escrutina, restos magníficos de uma vida extinta sobre a rocha, gravuras de Foz Côa que testemunham da passagem do homem, do tempo e dos seus ritos. As formas, isto é, a diversidade que ligamos a uma determinada individualidade (o isto dos Antigos) abrem-se sobre uma frente mais larga que as transporta e em que assentam.

Pode dizer-se que toda a figura é o ponto de emergência duma potência anónima de que ela é a flor oferecida aos nossos olhos. Flor mortal que testemunha através da sua morte daquilo que não deveria morrer. Afinal, toda a figura deve repousar para ser figura. Ou não a veria, nem a mão a tocaria.

A “figura “enquanto tal não existe, dado que releva de um uso sempre singular dos signos e dos olhares, escreve D. Huberman[1]. “Figura” evoca um primeiro plano visual e convencional (figmentum, fiction) que esconde e significa um outro mais real: “figura”, mais próximo de personagem ou de máscara, opõe-se a “rosto”. Como organização coerente, mas passageira. É assim que falamos das figuras que reveste a justiça nas sociedades e é também o que faz dela um aspecto das culturas. A figura é um campo de forças de intensidades diferentes mas conjugáveis, nunca hierarquizadas, a sua dinâmica é a do fractal, não a da linearidade espácio-temporal[2]. Segundo o Wester’s Unabridged Dictionary (ed. 1887, p. 510ss) figura (do latim figura, fingere, raíz figurativa, formar, modelar). Figura é a forma de qualquer coisa, a sua estrutura ou aparência, um carácter que representa um número, um dígito. Na retórica, a figura é um modo de expressar ideias abstractas ou um imaterial através de palavras que sugerem imagens do mundo físico, um tropo, uma linguagem pictórica.

A Figura – no sentido de uma “profecia em actos”, como a define Auerbach – impõe-se como um meio mais fecundo e mais livre para garantir o impulso da representação. A figura retoma acontecimentos reais de uma história, para os interpretar como promessa de uma significação aberta, dominando o destino da representação ocidental: Eva prefigura Maria, Moisés o Cristo, a Sinagoga a Igreja, e isto, até à perda do sentido-fonte, da figuração realista até à sua depuração indefinida que é a arte moderna.

Aristóteles, nos Primeiros Analíticos, I, cc. 4-6, para designar a figura silogística fala de configuração, forma ou estruturação – schema. Com Hegel, o termo figura adquire um sentido novo: a figura é a tradução do termo Gestalt, que foi traduzido na psicologia por forma e que mais conviria traduzir por modelo. Cícero, no Brutus (69) quando faz o elogio de Catão diz que “os Gregos costumam ornar o discurso quando modificam o uso das palavras a que chamam tropos (trópous), ou quando modificam a construção da frase, a que chamam figura (schèmata)”. Quintiliano (Inst., IX, c. 1, 17 e antes VIII, c. VI, onde trata da metáfora que é u dos “tropos”, longe pulcherrimus) discute sobre a distinção que se mantém ao longo da Idade Média e da Renascença.

Ao longo dos tempos foram aparecendo além de figura de palavra e de pensamento, as de paixão (como interrogação, suspensão, apóstrofe, enumeração) as de metáfora e as mistas (isto é de imagem e pensamento, como a metonímia e a perífrase). João Mendes funda a figura na transposição analógica ou na semelhança imaginativa dos objectos aproximados (a comparação, a alegoria, a metáfora), na implicação intelectual da expressão (a perífrase, a alusão, a metonímia, a ironia, o eufemismo), na intensificação do discurso (a apóstrofe, a interrogação, a anáfora, a anadiplose, o hipérbato, a antítese)
[3]. Freud vê no “trabalho do sonho” (traumarbeit) a transformação do pensamento abstracto em imagens, quase sempre visuais.

Na linguagem corrente, as palavras “literal” e “figurativo” são normalmente tomadas como opostas. É uma oposição que tem as suas raízes muito longe. No capítulo 21 da Poética Aristóteles faz a distinção entre o nome padrão de uma coisa e os variados outros tipos de nomes entre os quais alista a metáfora. A teoria medieval distinguia o sentido literal, alegórico, moral e analógico das Escrituras. A figuratividade na linguagem remete-nos para uma ordem ou padrão de segundo nível no uso das palavras. A ordem do primeiro nível da linguagem consiste nas funções e convenções por um falante competente da linguagem. A ordem figurativa é um segundo nível de arranjos verbais sobreposto ao primeiro nível[4]. Os textos ficcionais são, por definição, formas conotativas compósitas que relatam acontecimentos no tempo e no espaço, modelados em acontecimentos da vida real. Interpretamos estes textos, não como narrativas de acontecimentos literais, mas como acontecimentos que implicam vários sentidos psicológicos, sociológicos ou metafísicos. O nível da conotação no signo visual é o ponto em que os signos já codificados se intersectam com os códigos semânticos profundos duma cultura. Tomemos o exemplo do discurso publicitário. Aqui não existe o puramente denotativo. Não havendo de modo algum representação “natural”. Todo o signo visual em publicidade conota uma qualidade, situação valor ou inferência, que está presente como um significado de implicação que depende da sua posição conotativa. No exemplo de Barthes, o colete de lã tricocada significa sempre “abrigo cálido” (denotação) e daí a actividade/valor de “conservar calor”. Porém, nos seus níveis mais conotativos também pode significar “a chegada do inverno” ou “um dia frio”. E nos subcódigos da moda especializados em colete de lã pode significar outras coisas ainda.

O esquema transcendental de Kant é um produto da imaginação como capacidade para representar um objecto mesmo sem a sua presença na intuição, capacidade de figurar. U. Eco diz que o esquema não é uma imagem porque a imagem é um produto da imaginação reprodutiva, enquanto o esquema de conceitos sensíveis é um produto da capacidade pura a priori de imaginar “per così un monogramma”. O esquema kantiano estaria mais próximo da Bild wittgensteiniana, proposição que tem a mesma forma do facto que representa, no mesmo sentido em que fala da relação icónica para uma fórmula algébrica, ou do modelo no sentido técnico-científicio[5]. A matemática designa a figura como símbolo geométrico da forma dos corpos. As figuras são formadas por pontos, linhas ou superfícies: a linha recta, a linha poligonal, o círculo, a elipse, a espiral, o cubo, a esfera. Figura, neste campo, é igualmente qualquer esquema gráfico que representa os elementos fundamentais da forma de um objecto e que visa a demonstração ou solução de um problema. A música, por seu lado, chama figuras aos sinais da notação vulgarmente chamados notas ou pausas. É deste antigo nome que deriva a designação de “canto figurado”, dado à composição mensural e contrapontística, por oposição ao cantochão. Na arte a figura é a capacidade de elaborar por meio de formas gráficas, um sentido, significado ou símbolo, com ou sem fins de comunicação. A figura inscreve-se no cruzamento das técnicas, da linguagem e da religião, em que surgem as artes plásticas.

Falar de “figura” é situar-se aquém dos signos constituídos, abordar os sistemas de significação a partir da dissociação do signo, de uma perda do sentido tal qual ele existe no seu “estado semiológico”. Esta questão é a da distinção entre manifestação e imanência entre dois “estados” da significação. Para a semiótica do discurso, falar de figura, segundo esta acepção, é distanciar-se do modelo do signo. Na tradição de Hjelmslev, a figura é um “não-signo” que intervém na construção dos signos, quer no plano da expressão quer no plano do conteúdo[6]. Se analisamos o inventário das palavras seguintes “touro”, “vaca”, “homem”, “mulher”, reconheceremos que este pequeno corpo lexical está estruturado por grandezas do conteúdo inferiores a estas palavras, tais como masculino/feminino, bovino/humano. A semiótica literária guardou esta primeira definição da figura. “Barca”, “redes”, “peixes” são figuras enquanto grandezas do conteúdo que tanto no discurso como no dicionário têm o poder de remeter para estas realidades do mundo dito natural que são uma verdadeira barca e redes através dos quais se pescam peixes. A figura, como elemento do conteúdo, deve combinar-se com outras figuras para produzir os seus efeitos de significação, não sendo por isso redutível a um significado estabilizado. A figura é assim uma invenção própria dos discursos sem os quais ela não existe. É por isso que se queremos estudar as figuras, convém lê-las não nos dicionários das línguas mas nos textos. A figura é um significante figurativo que pertence à forma do conteúdo: fala do mundo sem o reproduzir. As figuras assinalam perturbações no código da língua, são o efeito das tensões enunciativas no sistema da língua como índices do corpo que fala. Deve-se a J. Geninasca o termo de “figural” para designar este estatuto propriamente discursivo das grandezas figurativas[7]. A discursivização, em que se realiza a enunciação, provoca nas grandezas figurativas uma prova do vazio. Entre a virtualidade em que se encontram nas configurações discursivas, prenhas de multiplicidades do sentido e dos usos, e actualização em que elas se encontrariam postas “em valor” através de uma estrutura sémio-narrativa específica, era necessário prever uma fase de “vazio”, em que as grandezas figurativas estão em estado “figural”, no estado de significante sem significado mais do que no estado de signo em que a figura se encontra ligada a um valor. A disposição discursiva do plano figurativo “baralha” a representação do mundo: não se trata apenas de uma metamorfose ficcional do mundo “real”, mas trata-se de uma transformação que afecta ao mesmo tempo o ponto de vista (descentrado, múltiplo, fragmentado), as condições da percepção e a função icónica dos elementos figurativos. Ela deforma a imagem em proveito do que se pode chamara a anamorfose. A anamorfose desenha uma perspectiva de interpretação discursiva, enunciativa, que retoma o conjunto do plano figurativo do texto, à distância das dimensões referencial e temática. Anamorfóticos ou figurais, estes não-signos alertam para o tratamento propriamente discursivo das figuras do mundo natural: o discurso transforma os signos reconhecíveis (visíveis e os signos decodificáveis em significantes visuais. O figural introduz no discurso a regra do significante, transformando o visível em visual. O carácter “visual” do discurso anuncia-se através dessa “deformação coerente” do mundo de que falava M. Merleau-Ponty e que G. Didi-Hubermann retoma para definir o efeito da obra pictórica, quando fala do surdir do visual no visível, uma deformação cuja coerência (discursiva) assinala um ponto focal[8]. A deformação do mundo” releva de uma coerência discursiva porque são agora as regras do discurso (metáfora, metonímia…) e não apenas as da “verosimilhança” do mundo que presidem ao agenciamento discursivo.

Desde 1964, R. Barthes observava que a retórica merecia ser repensada em termos de linguística estrutural[9], ao mesmo tempo G. Genette inaugurava, com La rhétorique de l’espace du langage uma série de estudos sobre o tema geral das Figures (1966, 1969, 1972), enquanto T. Todorov anexava a uma das suas primeiras obras (1967) um esboço de sistema dos tropos e figuras. Na retórica, as figuras são observadas em função dos papéis que desempenham num determinado momento dos discursos argumentativos. Na teoria de Perelman e Olbrechts-Tyteca distinguem-se “figuras de opção”, “figuras de presença” e “figuras de comunhão”. O critério de classificação está nos efeitos sociais e cognitivos da figura e não na sua estrutura lógica ou discursiva. É esta função social que leva Perelman a distinguir as “figuras de estilo” das “figuras argumentativas”, ditas por vezes de “retórica”[10]: Neste contexto, as figuras apenas interessam se podem ser factores de persuasão. O tropo poético é, nesta perspectiva, considerado um simples ornamento, sendo definido como o efeito de um discurso argumentativo que falhou.

Na raiz da palavra figura está o termo latino fingere que significa imitar, mas também imaginar e inventar. Para descrever a figura icónica precisamos de dispor de uma série de conceitos: isotopia (pertinência), alotopia (impertinência), degrau (inferência), degrau concebido, interacção entre o percebido e o concebido, níveis portador, formador e revelador, sub-tipo e determinante. Um desenho, uma fotografia, um cartaz publicitário, um logo são portadores de uma qualquer figuratividade, representam objectos ou pessoas, paisagens, artefactos. Por outro lado, uma imagem pode ser portadora de significados ulteriores que têm que ver com os seus aspectos especificamente plásticos (visivos). As formas gráficas ou pictóricas podem ser portadoras de um sentido específico. Qualquer que seja o sentido produzido, não é o carácter simbólico do cromatismo, mas aquilo a que se chama a relação semisimbólica entre os cromatismos presentes no mesmo texto e os significados de que é portador (cf. Floch 1985, 1986b). Para a escola de Bruxelas, toda a figura apresenta dois aspectos necessários: por um lado, uma estrutura discernível, independente do conteúdo, por outro, um emprego que se afasta da função normal de se exprimir, atraindo por isso a atenção (1976: 227). É assim que de facto a retórica da elocutio define estas figuras: 1. como um desvio cuja reavaliação é determinada por factores contextuais e pragmáticos. 2. Como procedimentos próprios para provocar o efeito de autelismo, que Perelman e Olbrechts-Tyteca reencontram com a fórmula “atrair a atenção”. A figura tem, fundamentalmente, a função de instrumento de reorganização das categorias que resultam da experiência (o saber enciclopédico).


Bibliografia


Didier-Huberman, G., L'image ouverte, Paris, Gallimard, 2007, p. 195.

Wester's Unabridged Dictionary, ed. 1887, p. 510ss.

Joaquim, Augusto, posfácio a Causa Amante de Maria Gabriela Llansol, Lisboa, A regra do Jogo, 1984, p. 191.

Mendes, João , Figura" in Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira, Edição Século XXI, Lisboa, São Paulo,1999, p. 1375.

Didi-Hubermann, G., Devant l'image, Paris, Minuit, 1972, p. 175s.

Barthes, Roland , La Rhétorique, Cours à l'école Pratique des Hautes Études, 1964-1965. Retomado em AA.VV., 1970, pp. 172-223 sob o título L' Ancienne Rhétorique.

Perelman, L'empire réthorique. Rhétorique et argumentation, Paris, Vrin, 1977.
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Geninasca, Jacques , "Stylistique et sémiosis", Sémiotique et Bible, nº 85, Lyon, 1997, p. 3-7.
Kittay, E. F. , in Metaphor, Oxford, Clarendon Press, 1987. Donald Davidson, "A Nice Derangement of Epitaphs", in Philosophical Grounds of Rationality, Richard E. Grandy and Richard Warner (eds), Oxford, Clarendon Press, 1986, 157-174.
John Searle, "Literal Meaning", in Expression and Meaning, Cambridge University Press, 1979, 117-136.
Eco, U., Dalla'albero al labirinto. Studi storici sul segno e l'interpretazione, Milão, Bompiani, 2007, p. 429.






[1] Didier-Huberman, G., L’image ouverte, Paris, Gallimard, 2007, p. 195.

[2] Cf Augusto Joaquim, posfácio a Causa Amante de Maria Gabriela Llansol, Lisboa, A regra do Jogo, 1984, p. 191.

[3] João Mendes, Figura” in Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira, Edição Século XXI, Lisboa, São Paulo,1999, p. 1375.

[4] E. F. Kittay, in Metaphor, Oxford, Clarendon Press, 1987. Donald Davidson, “A Nice Derangement of Epitaphs”, in Philosophical Grounds of Rationality, Richard E. Grandy and Richard Warner (eds), Oxford, Clarendon Press, 1986, 157-174. John Searle, “Literal Meaning”, in Expression and Meaning, Cambridge University Press, 1979, 117-136.

[5] Eco, Umberto, Dalla’albero al labirinto. Studi storici sul segno e l’interpretazione, Milão, Bompiani, 2007, p. 429.

[6] L. Hjelmslev, Prolégomènes à une théorie du langage, cap. XII: “Signes et figures”, p. 58-64.

[7] Jacques Geninasca, “Stylistique et sémiosis”, Sémiotique et Bible, nº 85, Lyon, 1997, p. 3-7.

[8] G. Didi-Hubermann, Devant l’image, Paris, Minuit, 1972, p. 175s.

[9] Barthes, Roland La Rhétorique, Cours à l’école Pratique des Hautes Études, 1964-1965. Retomado em AA.VV., 1970, pp. 172-223 sob o título L’ Ancienne Rhétorique.

[10] Perelman, L’empire réthorique. Rhétorique et argumentation, Paris, Vrin, 1977.

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