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LinguagemImprimirDicionário critico

Arquivo

Maria Lucilia Marcos

Os processos de investigação - marcação dos sítios, procura e selecção de gravuras, análise e datação dos vestígios, hipóteses, ligações, sínteses provisórias, relatórios, etc. - são processos próprios de escrita. Só a cultura da escrita permite um olhar sistemático sobre documentos não escritos; só a escrita pode reescrever o tempo que ela própria deixara para trás. Porque interrompe a tradição. É desse processo de escrita que resulta a ideia de ‘arquivo'.

Palavras chave: simbólico; escrita; mnemotécnica

Presente em quase todas as regiões habitadas do globo (em mais de 120 países), a arte rupestre constitui uma rede de informações sobre os começos intelectuais do homem. Património frágil produzido em grutas ou em pleno ar livre, desafia hoje um trabalho árduo de investigação e preservação.

O suporte mais antigo parece ter sido a rocha - outros suportes a terem existido (pinturas no corpo, tatuagens, ornamentos, decorações, troncos ou folhas de árvores, desenhos na areia, colecções de pedras e seixos) não sobreviveram, por motivos óbvios, ao desgaste dos milénios. A música e a dança só deixaram traços indirectos em representações ou em vestígios de peças ou objectos.

É uma arte de ‘populações não letradas' - começa no aparecimento do Homo sapiens e desaparece com a escrita - e constitui o testemunho mais importante desse período. Desde há muito tempo que equipas de investigadores procuram recensear o máximo de locais de arte rupestre nos cinco continentes, assim como inúmeros documentos dispersos. O objectivo desses arquivos, cobrindo 40 000 anos de história de arte, é a realização de estudos comparativos e de síntese a partir de um número crescente de figurações pré-históricas. Alguns dos projectos mais conhecidos são o Arquivo Mundial de Arte Rupestre (WARA), criado em Itália em 1983, e o Conselho Internacional de Arte Rupestre (CAR-ICOMOS), que dispõe de um centro de documentação sobre património cultural e, ainda, iniciativas várias, nomeadamente da UNESCO. O ICOMOS é uma ONG (Organização Não Governamental) que promove a teoria, a metodologia e a tecnologia capazes de assegurar a protecção e valorização dos monumentos e sítios arquelógicos. O centro de documentação cobre todas as regiões do mundo e todos os estádios de conservação do património cultural e edita textos periódicos com os resultados das pesquisas especializadas. Além de estimativas e conclusões, os relatórios finais exploram a significação dos símbolos e a sintaxe das associações, reforçando-se a hipótese de a arte rupestre constituir uma fonte incontornável para pesquisar os fundamentos conceptuais e psicológicos do homem moderno, como escreveu o autor de dois dos relatórios publicados, Emmanuel Anati, em 1984 e em 1993: «Com efeito, na arte das origens, encontramos arquétipos e paradigmas que estão na raiz do nosso ser e aí permanecem profundamente ancorados ainda hoje».

Essas gravuras devem ter sido perfeitamente ‘legíveis' aos olhos daqueles que conheciam o seu conteúdo mítico-conceptual, mas essa tradição directa foi interrompida. O trabalho do arqueólogo consiste em reunir elementos que permitam perceber que ideias emanam desses signos. «As pesquisas fazem aparecer na arte rupestre de todos os continentes uma série de constantes: utilização de técnicas e de cores similares, temas restritos e repetidos, os mesmos modos de associação, o mesmo tipo de lógica, recorrência de uma gama de pictogramas, de ideogramas e de psicogramas. Esta constatação [...] incita a pensar que se encontra na origem de toda a criatividade artística uma mesma base estrutural e uma mesma dinâmica conceptual» (Emmanuel Anati, 1998).

No plano do estilo e no plano do conteúdo, distinguem-se cinco categorias: arte praticada por caçadores arcaicos, desconhecendo o arco e a flecha, sem composição de cenas, apenas curtas sequências sintácticas; arte praticada por povos colectores de frutos silvestres, com cenas simples, muitas vezes produzidas em estado de alucinação; arte praticada por caçadores evoluídos que já usam arco e se fixam em situações sociais; arte praticada por pastores, atentos aos animais domésticos e à vida familiar; arte praticada por povos que diversificam a economia com actividades agrícolas, compondo cenas mitológicas. Desde as origens da arte, há 40 000 ou 50 000 anos, o homem age em função de mecanismos mentais próprios, que o conduzem à invenção de associações, símbolos, abstracções ou sublimações, constituindo ainda hoje uma das características universais específicas. A esta suposta unidade temática e técnica das artes pré-históricas responde uma espantosa diversidade simbólica, segundo as culturas e as épocas.

Essas semelhanças e diferenças marcam a unidade e a diversidade das artes pré-históricas que o Sapiens desenvolveu no mundo. Traduzem os elos fundamentais que existem entre as culturas, as economias e as suas expressões gráficas, mas não escondem as originalidades culturais dos grupos humanos.

Os processos de investigação - marcação dos sítios, procura e selecção de gravuras, análise e datação dos vestígios, hipóteses, ligações, sínteses provisórias, relatórios, etc. - são processos próprios de escrita. Só a cultura da escrita permite um olhar sistemático sobre documentos não escritos; só a escrita pode reescrever o tempo que ela própria deixara para trás. Porque interrompe a tradição para se apropriar do seu sentido. Para lhe dar um sentido.

É desse processo de escrita que resulta a ideia de ‘arquivo'. Michel Foucault conferiu a esta noção um estatuto teórico complexo. Em L'archéologie du savoir (1969), considerou que, «em vez de ver alinhar-se, sobre o grande livro mítico da história, palavras que traduzem em caracteres visíveis pensamentos constituídos antes e algures, temos, na espessura das práticas discursivas, sistemas que instauram os enunciados como acontecimentos [...] e como coisas [...]. São todos esses sistemas de enunciados [...] que proponho apelidar arquivos». Não se trata da soma de todos os textos que cada cultura conserva como documentos do seu próprio passado, nem das instituições que os registam e os disponibilizam. Não se trata de interrogar as coisas ditas, nem quem as disse, nem as circunstâncias em que foram ditas. Trata-se de entender «o jogo de relações», «as regularidades específicas», «o sistema da discursividade», «as possibilidades e impossibilidades enunciativas», «a lei do que pode ser dito, o sistema que rege a aparição dos enunciados como acontecimentos singulares» .

A construção de um arquivo visa salvar a multiplicidade amorfa das coisas ditas, sem pretender inscrevê-las numa qualquer linearidade: desenha-lhes composições e relações de proximidade apesar das distâncias de tempo ou de espaço; define a enunciabilidade e a funcionabilidade do enunciado, mesmo que o enunciado se apague; diferencia e especifica os discursos, sem lhes forçar uma unidade confusa. «Entre a língua que define o sistema de construção das frases possíveis e o corpus que recolhe passivamente as palavras pronunciadas, o arquivo define [...] uma prática que faz surgir uma multiplicidade de enunciados como sendo acontecimentos regulares, como sendo coisas oferecidas ao tratamento e à manipulação». Devido a essa condição de prática sobre as práticas discursivas, o arquivo não se confunde com a biblioteca, a que, juntamente com o museu, Foucault (num outro texto, "Des espaces autres", escrito em 1967) chamou «espaço heterotópico» no qual «o tempo não cessa de se amontoar». Entre a acumulação e o apagamento, «entre a tradição e o esquecimento», o arquivo «é o sistema geral da formação e transformação dos enunciados».

A importância do conceito foucaultiano de arquivo excede os limites deste breve texto. Questionar a ideia de «homem», de «subjectividade», de «identidade», à luz das continuidades e rupturas da história, coloca em cena o «outro» e o «fora».

Foucault decide, «por direito das palavras», chamar arqueologia a essas pesquisas, tendo em vista, não reencontrar a origem esquecida, mas a dispersão que somos e fazemos. Sumariamente, elabora quatro princípios:

  • a arqueologia procura definir os discursos, enquanto práticas reguladas: não os discursos como documentos, como signos mais ou menos transparentes de outra coisa, mas no seu volume próprio, como monumentos; por isso, não é uma disciplina interpretativa nem alegórica;
  • a arqueologia é uma «análise diferencial das modalidades de discurso», não é uma «doxologia», mas a procura da especificidade do discurso, da sua irredutibilidade a qualquer outro;
  • a arqueologia define os tipos e as regras das práticas discursivas que atravessam as obras individuais: a instância do sujeito criador é para si uma ideia estranha;
  • a arqueologia não quer restituir o que possa ter sido «pensado, querido, visado, experimentado, desejado pelos homens no instante em que proferiram o discurso»; não procura uma identidade nem uma origem.


A arqueologia é, finalmente, definida por Foucault como uma «reescrita», mantida como «exterioridade», como «descrição sistemática de um discurso-objecto».

As gravuras paleolíticas, como monumentos situados e inamovíveis, alheios a qualquer hipótese de deslocação visando uma colecção de biblioteca ou de museu, aproximam o projecto de arquivo destes princípios. A sua opacidade de pedra e a opacidade imposta pelo tempo decorrido impossibilitam (opacificam) ver outra coisa por detrás delas, apesar do apelo insistente à especulação e à narrativa. A unidade e diversidade encontradas nas figuras desenhadas, a recorrência dos materiais técnicos e a originalidade simbólica, os mecanismos mentais em marcha e a execução integrada no ambiente e nos elementos naturais, a capacidade simbólica e a rigidez das condições de vida - interrompem qualquer pretensão de um discurso acerca das origens, de uma origem absolutamente datada, situada e esclarecida sobre a arte, sobre a linguagem, sobre o homem. Haverá sempre um missing link que nenhum arquivo, nem um utópico arquivo dos arquivos, poderá dizer.

Na forma electrónica e digital, o arquivo torna-se base de dados - transferível no espaço, preservável no tempo, alheio a qualquer presença autoral. É da autoria de tantos, que ultrapassa o princípio do autor como autoridade. Enquanto texto com significado, a base de dados não pertence a ninguém, pertence a todos e contudo ‘pertence' à instituição social que ‘detém' a sua propriedade, à empresa, ao estado, à biblioteca, à universidade. «A base de dados é um discurso de pura escrita que amplia o poder do seu proprietário/utilizador» (Poster, 1995) e, tal como o discurso, é uma prática «que sistematicamente dá forma aos objectos de que fala» (Foucault, 1969).

Bibliografia

AAVV, Le Courrier de l'Unesco, Paris, Avril, 1998
Foucault,Michel,  L' archéologie du savoir, Paris, Ed. Gallimard, 1969

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