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LinguagemImprimirDicionário critico

Linguagem

Maria Augusta Babo e José Augusto Mourão

 

Palavras chave:  

O domínio da inscrição é anterior ao aparecimento da escrita. Se a História se formou como conceito e como disciplina através da clivagem operada pela escrita, tal clivagem está hoje posta em causa, dado que o domínio do inscritível se verifica já na Pré-história. A arte pré-histórica é legível/visível, como objecto da paleontologia e ainda dotada de dimensões pragmáticas para além de estéticas ou sagradas.

Alguns antropólogos consideram que, exceptuando evidentemente a emergência da linguagem, a passagem de uma transmissão hereditária à transmissão por herança é a grande transformação levada a cabo pelo humano. A primeira é comum a todo o vivo, participa dos genes; mas, aquilo que constitui hoje a especificidade do humano é a capacidade da transmissão por herança. Essa inscrição e constituição de uma memória exterior e autónoma do vivo é, por natureza, morta, sendo, enquanto morta, legável. Ora, a mão é o próprio operador de transcrição entre o corpo e o traço, rasto de um gesto numa superfície inscritível. Depara-se-nos uma função do traço, seja ele escrita, desenho ou imagem, que consiste na apropriação de um espaço aberto, não configurado ou marginal, que passa a funcionar como território, espaço possuído, ou simplesmente como percurso, canal, ligação. O relevo do terreno, pela sua saliência, pode surgir como apelo à inscrição. O par vector/alvo induz uma estrutura tensiva que pode ser aferida a partir de duas dimensões ou valências - os gradientes da intensidade e da extensão. De uma forma geral, o graffiti pode ser lido como essa apropriação de espaço transformado em território. Também a assinatura marca e demarca um espaço através de um acto que é, para além de inscrição, um acto performativo. Neste caso, está ainda a tatuagem, marca que escolhe o corpo próprio fazendo dele sintoma de subjectivação.

A escrita como sistema particular de inscrição releva dessa autonomia constitutiva do arquivo, desse legado transmissível. A diversidade de documentos/monumentos com os quais lidamos hoje configura a nossa postura individual e social. Somos também o fruto dessa herança textual. Por outro lado, a escrita está, na sua origem, ligada à lei, à fundação de uma ordem socio-política que é, por si, instauradora de clivagens sociais hierarquizantes, para além de conferir ao texto um sentido monológico de que só na época moderna se libertará. Enquanto razão gráfica, ela liga o registo da palavra à emergência do número e mesmo do cálculo. Distinta da oralidade como acontecimento, a escrita organiza o iterativo, da ordem do ritmo e da repetição. Tal como se admite que a origem das línguas não reside numa língua única, também assim a escrita acolhe múltiplas variedades e variações, desde o ideograma à escrita alfabética; desde a caligrafia ao tipo/tupos.

Enquanto mediação, a escrita abre-se numa dupla função que releva de uma aparente contradição. Não prescinde do seu carácter técnico, exterior, social, mesmo se labora ou se elabora a partir de dispositivos simbólicos de natureza discursiva. Ela permite-nos pensar esse lugar entre-dois, nem totalmente instrumental, nem totalmente subjectivo, que é a mediação. E opera transacções e transições constantes entre o racional e o afectivo, entre a exterioridade da técnica e a experiência reflexiva. Nesse aspecto, é um poderoso produtor de sentido e ainda dos seus interpretantes próprios.

Num domínio abrangente, todo o vestígio, enquanto sinal, remete para o mundo físico e, como tal, situa-se fora do sistema de signos que é a linguagem. As variadas figuras de que a marca se reveste, dadas as suas saliência e pregnância, podem ser legíveis. Há três aspectos a considerar na marca como vestígio: ela é o resultado da acção de um corpo sobre uma superfície de impressão. Podendo este índice partilhar com o objecto de que é marca o seu carácter de semelhança, institui-se também como ícone. Por outro lado, a relação entre a marca como texto e a marca enquanto imagem pode ser a de uma dependência alternada no par legenda/ilustração: enquanto que na ilustração, a imagem está subordinada ao texto, na sua dimensão de legenda, é o texto que se submete à imagem como seu de interpretante.

Mas, desde o momento em que a marca passa a nome (por exemplo, próprio), ela participa da natureza do simbólico: ganha iterabilidade e sistematicidade, desligando-se do referente imediato e da intenção de significação. É a partir das noções de marca distintiva que a representação inaugura essa clivagem entre a imagem, da ordem da semelhança, e a linguagem, da ordem da diferença, instaurando o imaginário face ao simbólico. É a economia da linguagem – não a palavra - que leva à realidade das coisas. As palavras apenas têm sentido pelas suas posições num campo de forças. Os processos de sedimentação e de transformação das formas discursivas que o uso das comunidades sócio-culturais fixa sob a forma de tipos, de estereótipos, de clichés ou de esquemas, depositam-se no sistema, onde a enunciação os convoca, antes que novos usos, por sua vez, os revoguem para constituir novos estereótipos. O mundo da linguagem está mais ligado, no senso comum, à própria sonosfera, do que ao registo. Os traços estilísticos, por outro lado, são de natureza verbal, visível ou sonora cuja recorrência (ou ausência) permite estabelecer a paternidade de um qualquer escrito.

Mas para além da sua natureza intrínseca, o signo é-o sempre para alguém, donde a sua dimensão comunicacional. Por ser, antes de mais, um operador de representação, a sua condição poderia reduzir-se apenas à de substituição da coisa, mas a sua dimensão de interpretante é sempre possível. O código é a associação de dois sistemas de natureza diferente: um sistema significante a um sistema significado. Vivemos num mundo de signos que abarca os signos do mundo natural, ou de expressão, e os artificiais, ou de comunicação. A natureza (o mundo, o cosmos, a realidade) revela-se também a si mesma através dos processos de semiose. É importante distinguir na retórica das provas - na abdução, por exemplo – o par verdade/verosímil, sendo o último pura semelhança. O acto de veridicção leva à partilha de um universo de crenças. Por outro lado, os indícios ligam a presença ou ausência de um objecto a comportamentos possíveis do seu provável possuidor. Se a impressão é considerada como testemunho, prova e assinatura individual, já a pátina aparece como o exemplo perfeito de um índice não-subjectivo. Outras tantas figuras são consideradas estilizações, havendo-as regidas por códigos fortes, como os brasões, os letreiros ou assentes em códigos mais fracos, como os «símbolos» e máximas, entre os quais os ditos «arquétipos» (mandala, suástica chinesa). Podemos encarar os fenómenos como emblemas do mundo, isto é, elementos de código interoceptivo, através do trabalho da memória que converte os signos sensíveis em insígnias imemoriais.

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