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Representação visual

Isabel Calado


A representação visual é um sistema de significações que assume uma função simbólica. A expressão aponta para uma estrutura de sentido, mas igualmente para aquilo que advém de podermos encará-la como um desempenho: o desempenho dos signos, limitado, modelado, subvertido ou expandido por disposições e regulamentos sociais explícitos, bem como por sinergias implícitas nos contextos em que emergem e que, na verdade, os contêm. Neste sentido, o vocábulo convoca noções semióticas e estéticas, mas também políticas e até económicas, na medida em que remete para um valor de presença: a representação é aquilo que “está em vez de outra coisa”.

Palavras chave: cultura; código visual; signo; iconicidade; simbólico

O vocábulo “representação” é um dos mais poderosos instrumentos conceptuais de observação do real, ao permitir responder a questões emergentes do foro das ciências da linguagem, da sociologia e ainda de disciplinas consideradas mais técnicas e operativas. O conceito tornou-se relevante sobretudo a partir do momento em que foi assumido por alguns círculos de investigação e produção científica, como o dos Cultural Studies que, cruzando as ópticas semiótica e discursiva, não se confina ao estudo da poética da linguagem (dedicada a estudar como a linguagem produz sentido), mas igualmente se preocupa com a sua política, ou seja, com a análise dos efeitos e consequências das representações, das relações que estabelecem com o poder e a regulação das condutas sociais. [Fig. 1].

Quando encarada do ponto de vista da sua realização material, a representação está ligada à tecnicidade dos dispositivos de fabricação dos
signos, mas não se confina a essa óptica; ela compromete decisivamente a análise das materialidades com outro tipo de questões incontornáveis, que se prendem com o envolvimento desses signos na vida social e na sua complexa dinâmica de funcionamento.

Enquanto representações (sistemas de significação), as imagens adquirem uma função simbólica. O conceito chega a aproximar-se da realidade da transfiguração: em terminologia litúrgica, “representação” designa “um caixão vazio sobre o qual se estende uma mortalha para uma cerimónia fúnebre”. A ligação primordial da imagem ao drama da morte fica ainda patente na França dos séculos XIV a XVI, quando o ritual fúnebre de manter exposto o corpo do rei durante quarenta dias (como o melhor substituto do morto) é trocado pela utilização de uma efígie muito realista do falecido.[1] Nesta circunstância, como de um modo geral, representar equivale a tornar presente um ausente. Vão neste sentido os dois significados propostos para o termo pelo Shorter Oxford English Dictionary: “1) Representar algo é descrever ou apresentar isso, chamá-lo à mente pela descrição ou retrato ou imaginação; colocar uma semelhança disso perante nós, à nossa mente ou aos nossos sentidos; como, por exemplo, na frase: ‘Esta imagem representa o assassinato de Abel por Caim.’ 2) Representar também significa simbolizar, substituir, ser um espécimen...., como na frase ‘No Cristianismo, a cruz representa o sofrimento e a crucificação de Cristo.’”[2]

O vocábulo “representação” designa uma ligação entre linguagem e cultura, permitindo referir os mundos dos objectos, pessoas e acontecimentos, sejam estes reais ou ficcionais. Enquanto representações sociais, as imagens constituem filtros ou focalizações selectivas que aplicamos à realidade circundante e que são decorrentes de interesses e estereótipos que nos tornam sensíveis a determinados aspectos dessa realidade, ao mesmo tempo que nos levam a ignorar, ocultar ou desprezar outros tantos.

Sendo um elemento da linguagem e da cultura, a representação é necessariamente, e ainda, um produto do pensamento, mostrando-se estreitamente vinculada às actividades mentais, sobretudo nas suas componentes imagéticas, icónicas ou visuais. A Semiótica Cognitiva dedica-se a evidenciar como o pensamento, ao tratar informação, se socorre de estratégias peculiares de iconicidade, estruturando-se por intermédio de símbolos, imagens e relações espaciais que, entre outros modos, possuem um carácter analógico. Encarada como actividade/processo cognitivo, e como produto dessa actividade, a representação visual, nas suas diversas manifestações materiais e mentais (que se referem tanto à realidade concreta, como a coisas tão abstractas como a ideia de guerra, morte ou amizade), pode assumir várias funções. Algumas delas são vicariais, outras são de carácter pragmático, não se limitando a recolher e guardar a informação, mas analisando-a.

Basicamente, existem representações que servem para:
1) conservar a informação (ex: uma fotografia familiar ou uma reportagem);
2) revelar aspectos da realidade que não são acessíveis de outro modo (ex: imagética médica, fotos da face escondida da lua)
3) explicitar informação e orientar na execução de actividades diversas (ex: um plano urbanístico ou arquitectónico, uma maquete);
4) sistematizar um corpus, constituindo, por essa via, um instrumento de descrição e de conhecimento do real (ex: uma árvore genealógica, as relações de pertença a classes num esquema taxonómico, um organigrama);
5)
sinalizar (ex: pictogramas internacionais, sinais de trânsito);
6) metaforizar ou
emblematizar, tornando-se as representações, neste caso, parte de sistemas mais complexos de circulação de informação inter-individual e social.

Sendo parte integrante dos sistemas mental e linguístico-semiótico, é na instância da
cultura, enquanto meio particular onde germinam e se desenvolvem estes dois sistemas (e, por outro lado, enquanto produto deles), que as representações se manifestam e exprimem.


[1] Cf. Debray, Régis. Vida e morte da imagem – uma história do olhar no ocidente. Vozes, 1994, pág. 24-25

[2] Hall, Stuart. Representation – cultural representations and signifying practices. Sage, 1997, pág. 16

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