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Imago / Máscara

José António Fernandes Dias

Na tradição ocidental costuma associar-se a origem da máscara à morte. Das culturas do período da chamada revolução neolítica, chegam-nos máscaras de pedra (bem como crânios e estátuas-manequim), que inicialmente cobriam a cabeça do morto, ou mais tarde seriam usadas por actores que representavam a presença dos mortos. A presença de máscaras mortuárias em sociedades em que as práticas funerárias têm grande relevo é bem conhecida: no Egipto, mas também das civilizações incas, das mesoamericanas e do México. Normalmente representam traços dos falecidos, para os honrar, para garantir uma comunicação com o seu espírito, para os forçar a partir para o mundo dos espíritos. Na Roma clássica, chamava-se imago a um molde em cera da cara dos mortos que poderia ter variados usos numa sociedade fundada no cultos antepassados.

Palavras chave: magia; religião; xamanismo

Curiosamente a palavra latina imago ganhou no ocidente um variado número de sentidos no decorrer dos séculos. A teologia cristã refere-se à imago Dei, como a imagem de Deus em que os humanos foram criados, e com que devem esforçar-se por se conformar. A expressão imago mundi remete para a ideia religiosa de uma ordem cósmica. E, já no século XX a psicanálise introduziu o conceito de imago para se referir à imagem idealizada de alguém (normalmente um parente), formada na infância e que se mantém inconscientemente na idade adulta, como uma espécie de Eu ideal.

Porém a máscara, o mascarar, é um fenómeno universal ou tendencialmente universal, conhecido em todas as culturas, de todos os tempos e de todos os espaços. Das culturas da antiguidade ocidental, asiática (da China, Índia, Japão), e americana, até aos nossos dias. E nas culturas tradicionais de África, das Américas, da Ásia e da Oceânia têm uma presença particularmente forte.

Não são seguras as raízes etimológicas da palavra “máscara”. Terá aparecido nas línguas modernas europeias em finais do século XVI, com antecedentes possíveis no italiano maschera (do radical mask- + nero, de origem obscura), e mais remotos no latim popular mascus, ‘fantasma’, no hebraico masecha, ou no árabe maskhara, ‘zombaria’ e masakha, ‘transformação’.

Mas é interessante, e importante notar que esta palavra não tem equivalente nem tradução directa em muitas das línguas faladas por aqueles que, contudo, têm o que tendemos a pensar serem tradições de mascaradas. Ao contrário da ênfase do termo entre nós - o facto de esconder, de disfarçar –, nessas situações ela desloca-se antes para a capacidade de revelar, de dar presença ao que está ausente. Mas, se pensarmos num caso limite como a máscara de um assaltante ou de um terrorista em que a máscara só esconde a identidade do seu utilizador sem lhe atribuir qualquer outra, mesmo neste caso a sua utilização não é inerte nem sem eficácia. E ninguém fica indiferente quando num contexto de pura diversão se fita a cara, imóvel e pasmada, de algum amigo mascarado. Em qualquer caso a máscara apresenta-se-nos com um qualquer poder ambíguo, tendo sobre nós um efeito de surpresa, ameaça ou medo, que por sua vez pode conduzir ao riso. Quer dizer, mais do que um objecto inerte, a máscara e a mascarada implicam uma acção humana, mas a sua utilização revela uma presença estranha, mesmo quando sabemos que é uma pessoa comum que está a usá-la. O que nos afasta da familiaridade, da simplicidade e da uniformidade com que à primeira vista encaramos as máscaras: um objecto usado sobre a face para disfarçar a identidade de quem a usa.

A diversidade das suas formas e aparências é imensa, bem como dos seus usos, funções, e simbolismos. Podem parecer-se com a face humana ou cabeças de animais, mas também podem ser abstractas. Podem ser usadas só na face, mas mais fre-quentemente são só parte de um fato e acessórios que cobrem todo o corpo [Fig.1]; e há máscaras que são colocadas noutras partes do corpo, como as máscaras de dedos dos Inuit, ou as máscaras miniatura dos Dan da Libéria que as usam penduradas dentro de um pequeno saco de couro; ou que não são usadas sobre o corpo, como as inúmeras “máscaras para turista” que se fazem por todo lado e que mais frequentemente são penduradas na parede.

Apesar de podermos classificar funcionalmente as máscaras em três tipos – rituais, lúdicas, utilitárias –, esta classificação é demasiado esquemática. Para além das máscaras utilitárias, interessam-nos aqui os outros dois tipos. Nas primeiras podemos lembrar as máscaras de oxigénio e cirúrgicas utilizadas na medicina, máscaras de protecção como as usadas na guerra ou pelos apicultores e também as que se usam em determinados desportos como a esgrima ou o basebol.

No teatro, seja o da antiguidade grega ou romana, a máscara desempenha o papel fundamental de dar ao actor a sua personagem, a sua persona , ‘máscara’ em grego. Este uso das máscaras prolongou-se durante a idade média em autos religiosos e passou para o teatro italiano da commedia dell’arte. Se bem que tenha perdido importância no seu sentido estrito, a maquilhagem e o guarda-roupa vieram de certa forma cumprir essa mesma função de transformar o actor em personagem; mas no século XX muito teatro experimental retoma o seu uso. E a máscara continua a ser parte integrante de outras tradições teatrais - a chinesa, a indiana ou a japonesa por exemplo.

Fora do teatro, e bem no centro da noção de lúdico, as máscaras são usadas em ocasiões festivas, em inúmeros contextos culturais. Entre nós, lembremos o Carnaval, muitas festividades populares, os bailes de máscaras.

Se bem que mais próximas do tipo lúdico, do pólo lúdico, nestas máscaras e nestas situações a capacidade transformativa da máscara está ainda presente. Antes de tudo, e podemos dizer que genericamente, as máscaras são dispositivos de transformação, usadas em contextos também ligados a transformações; mesmo o teatro, ou o carnaval, constituem uma suspensão da vida quotidiana e das suas rotinas e valores, uma passagem para uma outra situação; e mascarar-se é sempre transformar-se. O que varia é a natureza dessas transformações. Se mais próximo do pólo lúdico a transformação é sempre provisória e temporária ( o actor ou o mascarado voltam de novo ao seu estado originário, os espectadores regressam à sua vida quotidiana), no outro pólo do contínuo da transformação — o ritual — ela é mais efectiva e permanente.
Uma das mais fecundas interpretações deste contínuo é feita pelo antropólogo Victor Turner, que centra a sua atenção no que chama a fase liminal ou transicional do ritual; um período intermediário no processo ritual em já não se está como antes e ainda não se realizou uma outra possibilidade. E esta análise da liminalidade é particularmente apropriada para a interpretação das máscaras. O que nos conduz às máscaras rituais e de cerimónias que têm valor religioso, mágico ou social; e daí à sua dimensão simbólica da máscara. Na maioria destas situações a máscara funciona ao mesmo tempo como uma armadilha e um veículo para forças, espíritos de antepassados, entidades míticas, permitindo que estes entrem na vida humana e provoquem transformações. É assim nas cerimónias ligadas aos momentos de passagem no ciclo da vida humana – do ser biológico para a pessoa, da iniciação das crianças na idade adulta, do casamento, da morte. Como nas cerimónias propiciatórias da caça, da pesca, da agricultura, ou da guerra, ou nos períodos de mudança de estações, quando é necessário garantir um novo equilíbrio. As máscaras são também usadas em contextos de mudança de estatuto, seja na promoção a um grau superior dentro de um grupo social limitado (como tantas sociedades secretas), seja no acesso a funções sociais especializadas (do domínio político, militar ou religioso). Bem como fazem parte de rituais de cura (xamanismo), ou participam em processos judiciais. Muitas vezes estes vários eventos sobrepõem-se. E quando, como acontece em muitas sociedades, há sociedades de máscaras, grupos que organizam e controlam os usos das máscaras dentro de uma cultura, os seus membros podem actuar em qualquer destas ocasiões.


Bibliografia

Belting, Hans, "Toward an Anthropology of the images”, in Mariët Westerman (ed), Anthropologies of art, Williamstown, Sterling and Francine Clark Art Institute, 2005.
Turner, Victor, From Ritual to Theatre. The Human Seriousness of Play, Nova Iorque, PAJ Publications, 1982.

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