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Analogia e Semelhança

Maria Helena Martins Costa Pires

Entendida como uma figura da retórica, a analogia (versão, para alguns, mais alargada da metáfora) tem por fim servir a tradução, irregular e inexacta, entre sistemas ou elementos reciprocamente não justaponíveis. É no âmbito de um dado contexto, psicológico-cultural e semiótico, que uma complexa relação irracional entre expressão e conteúdo se transforma numa equivalência aproximativa. Tal como outras figuras (a metonímia, a sinédoque...), a analogia é essencial ao pensamento criativo. A produção de novos laços de sentido, através da aproximação daquilo que é aparentemente dissemelhante, é a característica fundamental da analogia. Na base deste processo, encontra-se a possibilidade de correspondência por similitude, condicionada por um determinado quadro de valores. Mais do que através de uma relação de identificação, a semelhança define-se, ao nível do imaginário, pela coerência convencional da relação entre segmentos.

Palavras chave: criação; realismo; imaginário; visualidade.

No dizer de Perelman[1], «as concepções e o papel da analogia têm variado na história da filosofia. Enquanto para certos pensadores, como Platão e São Tomás, a analogia representa um tipo de raciocínio específico e indispensável, para outros, como os empiristas, a mesma limita-se a afirmar uma semelhança bastante ténue e serve para a invenção de hipóteses, mas devendo ser eliminada da formulação dos resultados da investigação científica». Compondo a comunicação e o raciocínio não-formais, a analogia diz assim respeito à teoria da argumentação e não à ontologia. Neste sentido, «toda a analogia põe em evidência certas relações e deixa características na sombra»[2]. Porém, é de referir que para S. Tomás, e ao contrário dos nominalistas, os nomes reflectem as propriedades das coisas. Invocando o princípio aristotélico da analogia entis, segundo o qual não há distinção entre as categorias linguísticas e as categorias do ser, nota S. Tomás que de Deus falamos por analogia ou por relação de proporção entre causa e efeito[3].

Do ponto de vista da linguística, a aproximação irregular, através da constituição de analogias, nomeadamente, entre um sistema textual contínuo e um sistema descontínuo, resulta na «criação, não de uma simples transferência semântica, mas de uma situação semântica radicalmente nova e paradoxal»[4]
. Não se trata, assim, de uma simples transposição de sentido, do interior de um dado registo (onde esse mesmo sentido é regularmente admissível) para outro. Nem tão pouco de uma mutação do significado fundamental de uma palavra para um outro significado mais inesperado, mas que ainda assim lhe seria de algum modo inerente. Pelo contrário, o pensamento retórico impõe a criação de textos radicalmente novos. Isto é, implica exprimir um conteúdo que de outro modo não pode ser transmitido. O que não quer dizer que uma tal aproximação irregular não acabe por produzir novas regularidades.

Em suma, podemos dizer que há dois processos de gestação dos textos[5]. Por um lado, o processo de gestação dos textos linguísticos, determinado por modelos lógicos e mecanismos automáticos inconscientes. Aliás, segundo Ducrot, desde a 2ª metade do século XIX que a linguística histórica incide sobre o estudo das transformações linguísticas e suas causas (precisamente, à luz deste paradigma explicativo, a tendência para a analogia constituiria um tipo de causa psicológica)
[6]. Por outro lado, existe o processo de gestação dos textos retóricos, determinado por mecanismos conscientes e por regras activamente incluídas no texto. Num sentido lato, a criação de um mundo imaginário mediante analogias contraria a esfera lógica, uma vez que os tropos, definindo-se como mecanismos de construção de conteúdos "impossíveis" ou enquanto mecanismos de geração de não-univocidade, relevam o grau de indeterminação de uma dada estrutura semântica.

As figuras, e a analogia enquanto tipo particular, não são ornamentos, mas a base do pensamento criativo. Para Walter Benjamin, a categoria de semelhança (noção análoga à de analogia) conhece desenvolvimentos ilimitados ao nível da não-consciência[7]. Usando expressões como «sobreposição», «coincidência», o autor designa com o termo semelhança o facto de que «cada coisa tem o grau de presença física que permite procurar nela, como num rosto, a aparição de certos traços». O que quererá ainda dizer que «qualquer verdade reenvia de maneira evidente para o seu contrário». Em Benjamin, a semelhança, ou mesmo a analogia (num sentido mais lato), implica, pois, a justaposição enigmática de realidades aparentemente opostas
[8].

Quando aplicada à imagem, a noção de analogia pode designar a criação de novos objectos imaginários, e de novas relações entre eles, os quais não são necessariamente semelhantes aos da experiência sensível. Invocando, nomeadamente Cézanne, Francastel[9] sublinha a importância, para os pintores, da sugestão, mais ou menos explícita, de uma certa analogia entre os velhos e os novos objectos. Segundo Francastel, para a análise de uma obra de arte, mais importante do que a sua exacta semelhança com elementos situados e experienciados no universo físico, importa averiguar sobre «o mecanismo que torna possível a integração, numa única composição, de elementos à partida estranhos uns aos outros no tempo e no espaço»[10]
. Na base da produção da coerência das relações imaginárias entre os elementos encontra-se, precisamente, a analogia.


[1]Chaïm Perelman, O Império Retórico, Edições Asa, 1993, p. 127.
[2] Ibidem, p. 131.
[3] Cf. Enciclopédia Einaudi, Vol. 31 (Signo), Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1994, p. 223.
[4] Enciclopédia Einaudi, Vol 17 (Literatura e Texto), Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1989, p. 245.
[5] Cf. Ibidem, p. 240-241.
[6] Oswald Ducrot e Jean-Marie Schaeffer, Nouveau Dictionnaire Encyclopédique des Sciences du Langage, Seuil, 1995 [1972], p. 26.
[7] Em Paris, Capitale du XIXe Siècle. Le Livre des Passages, Cerf, 2002, p. 436 [M1 a, 1], diz Walter Benjamin: «A categoria de semelhança não tem mais do que uma importância muito limitada para a consciência acordada, mas recebe uma ilimitada no universo do haxixe».
[8] Sobre esta noção, é importante referir ainda a obra de Walter Benjamin, Origem do Drama Trágico Alemão, Assírio & Alvim, 2004 [1928].
[9] Pierre Francastel, A imagem, a visão e a imaginação, Edições 70, 1998 [1983], p. 73.
[10] Ibidem, p. 123.

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