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Reflexo

Jacinto Godinho

Reflexo do reflexo. Tomando o Reflexo como conceito, duas parábolas de sentido oposto emergem: a famosa história de Narciso e o conhecido conto de Borges - O Aleph. Ambas apontam para diferentes interpretações constitutivas do conceito do reflexo. Entre as duas parece ter-se imposto culturalmente a lenda negativa de Narciso. Porquê? Porque faz totalizar a ideia de reflexo na imagem do espelho. Narciso sintomatiza uma cultura que demonizou os espelhos por representarem a via mais perigosa da experiência – circuitos do eu sobre si próprio, improdutivos e autodestrutivos.

Palavras chave: projecção, repetição, imitação.

Reflexo, espelho, imitação estão ligados por uma conexão negativa desde Platão. Recorde-se a associação simples feita, pelo filósofo no Livro X da República: a arte não merece a urbe ideal porque ela é imitação do mundo. Ora se o próprio mundo já é reflexo das ideias e se os objectos emergem como reflexo dos pensamentos então seria inútil a arte. Ela é mero reflexo de um reflexo. A teoria pavloviana também não ajudou muito o conceito de reflexo tomado como referência para os mais básicos e primários dos gestos humanos. Por acto reflexo denominamos normalmente as acções que correm foram da consciência, mecânicas. Assim mecânicos os dispositivos que geram apenas reflexos, como as máquinas de imagens (câmaras de fotografia, cinema e televisão) são também fonte de inquietação e não geram entusiasmos críticos, a não ser adversos. O conto de Borges mostra-nos uma outra via onde o reflexo se cruza com o desejo:

“ Fechei os olhos, abri-os. Então vi o Aleph.(…) Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta­-cores, de brilho quase intolerável. Primeiro, supus que fosse giratória; depois, compreendi que esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espectáculos que encerrava. O diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico estava ali, sem diminui­ção de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo. Vi o populoso mar, vi a aurora e a tarde, vi as multidões da América".[1]

Um ponto onde se encontram todos os pontos. Uma imagem onde se vêm todos as imagens. Trata-se esta de uma concepção demasiado forçada para a associar à simples noção de reflexo? O absurdo do conto de Borges liga-se bem com os estudos sobre a reflexão da luz . O Livro II de Óptica Ibn-Al-Haytham forneceu a prova experimental da teoria da reflexão especular. As imagens formam-se no olho porque os raios vindos de uma infinidade de pontos convergem em reflexão para um único ponto por efeito da convexão ocular produzida no cristalino. Foi esta teoria da reflexão de Ibn-Al-Haytham que permitiu perceber a lei dos pontos de fuga, essencial para a perspectiva artificialis do Quatrocento e para a generalidade dos dispositivos ópticos modernos.

Geralmente a ideia comum de reflexo, demonizada por Narciso, aparece como antagónica de um outro conceito à qual está umbilicalmente ligada: o de reflexão. Hegel e Pavlov parecem até estar em campos opostos. O reflexo pavloviano demonstra um agir acéfalo enquanto a reflexão sugere um dos gestos mais nucleares da actividade de pensar. A teoria hegeliana da reflexão ajudará a aclarar o conceito de reflexo? Para Hegel a reflexão é o processo das coisas reproduzindo-se sobre a influência de outras coisas - ideias, imagens, sensações. A teoria da reflexão mostra que o pensar é um processo activo de gestação de coisas a partir de reflexos de contacto com outras coisas. O reflexo não é uma simples repetição das coisas no espírito como se de um espelho se tratasse. Aliás o reflexo oferece a possibilidade à experiência de se ver em oposição. No espelho sujeito uma tem oportunidade única a de “ver-se a ver”. De se ver saindo para fora de si. Também a reflexão é um sair para fora de si no confronto dialéctico e produtivo com as coisas. Por isso o que somos é um reflexo da nossa actividade, uma ideia que tanto atraiu os marxistas.

O mito de Narciso acentuou os efeitos mortais do reflexo especular mas poderia ter tido outro destino. Bastava que se tivesse dado mais destaque às palavras iniciais do conto de Ovídio[2]: “Quando Narciso nasceu, perguntaram a Tiresias se a criança teria uma longa vida e o oráculo, conhecedor das consequências problemáticas da enigmática máxima “ conhece-te a ti próprio”, respondeu: "Se ele nunca se conhecer a ele próprio."

Pelo Aleph também se ganha um novo reflexo sobre os painéis de arte rupestre. Também eles parecem uma concentração das imagens daquele mundo. Um ponto onde se começam a concentrar todos os pontos do mundo, onde a experiência se torna “infinitas coisas” constituindo-se num permanente “fora-de-si”.


[1] Borges, Jorge Luís – “O Aleph” in Textos Seleccionados, via http://www2.fcsh.unl.pt/borgesjorgeluis/textos_borgesjorgeluis/textos1.htm
[2] Ovídio, Metamorfoses (trad. Paulo Farmhouse Alberto), Lisboa, Cotovia, 2006

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