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Projecção

Jacinto Godinho

Projecção é um conceito que ligamos à arte, primeiramente de um ponto de vista técnico, desde que a refracção da luz e a matemática entraram no universo da pintura e da arquitectura originando o período conhecido como a Perspectiva do Quatrocento. Neste período os cálculos da projecção geométrica tornaram-se numa técnica de estudo fundamental da arte moderna.

Palavras chave: experiência estética; percepção; arte e técnica

A técnica da projecção desenvolveu-se a partir dos estudos sobre a refracção da luz do matemático árabe Ibn al-Haythan[1] o primeiro a perceber que o raio se estendia de forma rectilínea a partir de um ponto fixo. Partindo desta base, desenvolvida depois no ocidente por Roger Bacon, Jonh Peckam e Vitelo, Leon Alberti desenvolveu um técnica para a pintura pressupondo que o que o olho vê é uma intercepção de linhas a partir de um ponto fixo que se passou a denominar ponto de fuga. O quadro pintado seria como que um corte transversal nessa projecção. O tratado Della Pittura de Alberti contém o primeiro estudo científico da perspectiva linear que se tornaria num instrumento fundamental para os pintores do Quatrocento. Alberti influenciou também Filippo Brunelleschi que aplicou a técnica da projecção à arquitectura[2].

Desenvolveu-se portanto no Renascimento um projeccionismo técnico que depois foi também ganhando fortes amplitudes epistemológicas.

A percepção da capacidade de projectar abriu um novo paradigma ao entendimento tido a partir daí como centro do conhecimento de onde se projecta a luz que, saindo da mente, explica o mundo. O projeccionismo como traço fundamental do período iluminista da experiência tem o seu momento forte na filosofia de David Hume, especialmente na sua teoria da projecção explicativa. Para Hume todo o conhecimento se baseia na experiência dos factos. O que nos permite tentar explicar o mundo é a percepção de que a observação de acontecimentos semelhantes, repetidos no tempo pode levar o entendimento, a projectar uma relação causal entre eles. Críticos de Hume catalogaram esta projecção de psicológica. E efectivamente foi com a psicanálise no século XIX que a projecção se tornaria num interessante conceito filosófico com propriedades para estender o seu alcance à analítica estética.

Na concepção psicanalítica procura-se entender a experiência como um processo resultante da transferência para os outros, sob a forma de projecção, de ideias, valores e mitos que formam o quadro mental do si.

Por isso a ideia da arte como reflexo (das ideias) deve ser antes devedora de um entendimento primeiro como projecção. No objecto artístico projecta-se a experiência e o seu complexo sistema de transferências.

Algumas das primeiras teorias antropológicas apresentaram-nos linhas interpretativas da arte rupestre como exemplo de projecções mágicas. O francês Henri Breuil chamou-lhe “magia propiciatória”[3] Nos animais a caçar projectar-se-ia uma vulnerabilidade que os enfraqueceria se pintados ou gravados antecipadamente. Teoria contestada pelo antropólogo Henri Delporte devido aos sinais que detectou nas gravuras e a que chamou “índices estéticos”. Nem todas as gravuras representavam fauna. Delporte detectou também flora e outras formas.

A projecção “propiciatória não teria por isso validade por si só sem explicações mais complexas. Efectivamente a projecção mais que misticismo mágico ou religioso, manifesta-se no período rupestre com uma característica que atravessará todas as seguintes épocas da arte – a miniaturização. A miniaturização das coisas como manifestação de uma projecção de poder. Miniaturizando a coisa gravada, colocando-a ao alcance da mão procura-se conquistar sobre ela uma forma de disponibilidade. Este ao “alcance da mão” pode ser uma das traduções do Zuhandenheit de Heidegger. Através da noção de Zuhandenheit Heidegger expôs uma das formas de emergência do ser no mundo que mais o seduzia – dispor do mundo manualmente e não tecnologicamente.


[1] Ibn alI, p. 90-91-Haytham, The Optics of Ibn al-Haytham, tr. A.I. Sabra. London: The Warburg Institute, 1989, vol.
[2] O biógrafo de Filippo Brunelleschi, Antonio Manetti, afirma que a perspectiva linear foi primeiro aplicada na construção do Baptistério de Florença
[3] Breuil, Henri (1952), Quatre cents siècles d'Art pariétal, Reed. Max Fourny, París. Páginas 373-374

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