Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

ImagemImprimirDicionário critico

Ponto de vista

Teresa Mendes Flores

Numa imagem, o ponto de vista expressa a relação que se estabelece entre o objecto representado e a posição de onde ele é visto ou visualizado pelo seu produtor e, por conseguinte, pelo espectador. O ponto de vista estabelece as relações espaciais entre quem vê e o objecto visto em termos de lateralidade (perfil, frente, trás, etc.) e ângulo de visão (frontal, em cima, em baixo nos seus diversos graus). Nas imagens em perspectiva que representam em tamanho mais pequeno objectos que devem ser interpretados como estando mais afastados do espectador, o ponto de vista indica ainda a proximidade/ distância face ao objecto. Nestas, o ponto de vista, do latim punctus visus, passa de um modo de figurar um objecto de um ou outro dos seus lados ou aspectos, para se tornar um índice do lugar do espectador, do lugar de onde se olha, ficcionado na imagem.

Palavras chave: Arte e Técnica, espectador; representação visual; construção social da imagem.

Toda a imagem figurativa representa uma dada relação com um ou mais pontos de vista, que podem estar presentes em simultâneo na mesma imagem e até na representação do mesmo objecto. O delineamento de perfil parece um dos mais antigos modos de figuração bidimensional, presente na maioria das figuras de animais da arte rupestre e em muitas das suas figuras humanas [Fig. 1]. Na arte egípcia são características as figuras humanas representadas com o tronco e membros superiores vistos frontalmente e a cabeça e membros inferiores de perfil. O tamanho dos objectos representados não expressa a relação espacial com o espectador mas a sua importância simbólica face aos outros objectos na mesma imagem. Na cartografia antiga é comum a mistura entre visões de cima «em carta» e objectos desenhados de perfil como, de resto, acontece em muitos outros tipos de imagens anteriores ao renascimento [Fig. 2].

O desenvolvimento do sistema de representação da perspectiva geométrica linear, que ocorre durante o Renascimento europeu, no século XV (Quattrocento), significou tornar o ponto de vista, e com ele o lugar do sujeito, o critério aglutinador central da concepção de imagem. Toda a imagem passa a ser concebida a partir de um único ponto de vista, a partir de uma perspectiva, que determina todos os demais aspectos da imagem e passará, por extensão, a significar igualmente o modo de ver particular de um autor, cuja afirmação então se inicia. Os pintores aprendem a usar o ponto de vista como meio expressivo fundamental [
Fig. 3].

Se podemos dizer genericamente que existe sempre, em toda a figura, um dado modo de a ver que corresponde a um ou vários pontos de vista, na perspectiva geométrica pretende-se tornar a imagem veículo de uma cena equivalente àquela que um espectador veria a partir de um dado ponto no espaço, tornando este espaço homogéneo e experienciável como unidade sensório-motora equivalente visual do espaço real. Embora esse lugar do espectador indicado pelo ponto de vista esteja fora da imagem (seja extra-diegético), é concebido como se estivesse em continuidade com o espaço representado.

A imagem passa a representar as coisas não como elas são mas como aparecem ao observador. Este representa não o que conhece dos objectos, por exemplo, as suas partes internas ou elementos não visíveis a partir de um dos lados do objecto, mas antes, submete a sua figuração ao ponto de vista a partir do qual o objecto é visto pelo observador, expressando uma relação espacial que é dominante face a outras possíveis formas de expressão. O ponto de vista é, pois, a noção fulcral da representação em perspectiva.
A etimologia da palavra perspectiva é o termo latino perspicere que significa «ver através», o qual originou igualmente o termo prospicere, «ver o que está diante de nós», à nossa frente, de que decorre a palavra «prospecto» com o sentido de «vista» ou «paisagem». Leon Battista Alberti (1404-1472), pintor, arquitecto e teórico da imagem italiano, propôs no seu tratado Della Pittura (1435) que o pintor pensasse a sua imagem como se olhasse através de uma janela, metáfora que marca esta concepção da imagem até aos nossos dias, incorporada que foi pelos dispositivos técnicos que usam os princípios projectivos da camera obscura, como é o caso das câmaras fotográficas e de filmar. A noção de enquadramento surge desta concepção projectiva da imagem que acabará por contribuir para a noção de imagem como «captura» e para a transformação do mundo visível em «vistas».

O sistema de representação em perspectiva visa criar a ilusão de tridimensionalidade num sistema representativo bidimensional tendo por referência o funcionamento do nosso olho e por base explicativa a teoria da refracção luminosa. Daqui decorre uma concepção projectiva e geométrica da imagem que a entende como o resultado da intercepção que um plano bidimensional produz na «pirâmide ou cone visual». Nesta, o vértice da pirâmide corresponde ao olho do observador (e apenas a um olho), ao seu ponto de vista, e a sua base corresponde ao objecto. Os principais pontos deste são, assim, projectados/ transportados imaginariamente para um plano bidimensional colocado entre o observador e o objecto, e reproduzidos neste plano em dimensão diferente mas proporcional ao objecto representado, obedecendo a uma razão ou ratio matemático.

Para Erwin Panofsky, trata-se da inauguração do espaço moderno, sistemático e matematizável que pode ser correctamente interpretado quer como um fenómeno de objectividade na imagem, dada a relação ao mundo visível experienciável e à sua racionalização geométrica, quer como um fenómeno de subjectividade uma vez que introduz o ponto de vista do sujeito como critério fundador da própria imagem (in A Perspectiva como forma simbólica, 1993). Este aspecto é também sublinhado por Hubert Damisch no seu texto A origem da Perspectiva (1987). Esta origem é, precisamente, o «olho» do observador no vértice da «pirâmide visual» e a partir do qual se implementa a permutabilidade entre a visão do pintor e a do espectador, tornando o sistema de representação em perspectiva um «dispositivo de enunciação». Para Damisch o espectador é aquele que toma o lugar que o pintor lhe preparou, como quando usamos os advérbios de lugar e os pronomes pessoais, transformando «aquela vista» na nossa «visão».

A pintura como resultado de uma permanente triangulação de olhares, como um cruzamento entre os pontos de vista do pintor, do espectador e do modelo, é o verdadeiro tema do quadro Las Meninas (1656) de Diego Velásquez [
Fig. 4], objecto de variadíssimas análises, sendo uma das mais famosas a de Michel Foucault que põe em evidência o desequilíbrio de poderes entre aqueles pontos de vista. De resto, a temática do poder e da construção ideológica da subjectividade do espectador, em torno do ponto de vista que a imagem lhe prepara, é um dos aspectos característicos do debate contemporâneo sobre a imagem, em particular aquelas que são produzidas por câmaras (Commolli; Metz; Burgin; Sekula; Mulvey).

Na pintura, a crítica ao predomínio do ponto de vista surge particularmente no cubismo e no seu «regresso» a outras formas de representação e de envolvimento sensorial e plástico representando ao mesmo tempo vários pontos de vista, o que se relaciona com a percepção do movimento, experimentada na multiplicação de perspectivas das imagens em movimento. Este multi-perspectivismo lembra as figuras rupestres que surgem no Vale do Côa representando um mesmo corpo com várias cabeças [
Fig. 5].


Bibliografia

ALBERTI, Leon Battista, On Painting, 1435, London Penguin Books, introdução de Martin Kemp, 1972.
BURGIN, Victor,«Looking at photographs» in Thinking Photography, Macmillian, 1982.
COMOLLI, Jean-Louis, «Technique et idéologie» in Cahiers du Cinema, nºs 229-240, 1971.
DAMISCH, Hubert, L’Origine de la perspective, Paris, Flammarion, 1987.
FOUCAULT, Michel, As palavras e as coisas, 1966, Lisboa, Edições 70, tradução de António Ramos Rosa, 1998.
METZ, Christian, O Significante Imaginário: psicanálise e cinema, 1977, Lisboa, Livros Horizonte, 1980;
MULVEY, Laura, Visual and Other pleasures, Indianapolis, Indiana University Press, 1989
PANOFSKY, Erwin, A Perspectiva como forma simbólica, 1925, Lisboa,Ed. 70, 1993.
SEKULA, Alan, Photography against the grain. Essays and Photo Works 1973-1983, Halifax, NS Colledge of Art Press, 1984;

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved