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Percepção

Jacinto Godinho

Abrir as portas da percepção[1]. A expressão é tão comum que mal a percepcionamos, ou seja, mal damos conta da simplicidade, mas também da complexidade que atravessa a metáfora. Aldous Huxley tentou fazê-lo mostrando como as drogas, abrindo as portas, fazem explodir as percepções. Mas é este o paradoxo da percepção.

Palavras chave: interpretante, sentido, linguagem, experiência estética, arte pré-histórica

If the doors of perception were cleansed everything would
appear to man as it is, infinite. —William Blake

 

O directo e descomplexado uso da expressão no quotidiano parece incompatível com os destroços das batalhas que as variadíssimas correntes da filosofia provocaram a propósito do conceito de percepção.

Do ponto de vista analítico, a percepção parece ser de tal forma um enigma que vários dos mais conhecidos movimentos filosóficos da modernidade se ocuparam em desvendá-lo. Nalguns, como a psicologia gestaltiana, a fenomenologia, o racionalismo de concepção transcendentalista, a teoria da percepção fornecia mesmo o núcleo central da argumentação. Daí que a metáfora das portas seja feliz. No plural, para dar conta da natureza labiríntica do problema. As percepções são portas que se abrem ao mundo, ou por onde o mundo entra, mas também por onde a percepção se fecha sobre ela própria.
 

As teorias da percepção delinearam-se na filosofia clássica com Descartes e especialmente com Leibniz. Descartes postulou uma interpretação de tal forma poderosa da percepção que ainda hoje é das mais dominantes A sua visão intelectualista foi explicada na Segunda Meditação em torno de um pedaço de cera que se tornou famoso: Or, ce qui est ici grandement à remarquer, c'est que sa perception (perception [2]) n'est point une vision (visio), ni un attouchement (tactio), ni une imagination (imaginatio), et ne l'a jamais été, quoiqu'il le semblât ainsi auparavant; mais seulement une inspection (inspectio) de l'esprit (mentis), laquelle peut être imparfaite et confuse, comme elle était auparavant, ou bien claire et distincte, comme elle est à présent, selon que mon attention se porte plus ou moins aux choses qui sont en elle [morceau de cire] , et dont elle est composée”. [3]

 

Segundo Descartes é a mente sozinha que conhece o mundo e a percepção será por isso um acto intelectual. Os sentidos informam, mas só existe percepção quando a mente conhece. A dotação da percepção como intelectual foi central para as teorias da percepção desenvolvidas pela psicologia gestaltiana e pela fenomenologia. Aprofundando a teoria husserliana da percepção Merleau Ponty considera que Descartes legou apenas uma teoria passiva de um processo que não explica a própria percepção. Porquê? Porque em Descartes a percepção não é mais que uma interpretação em cima das sensações. Visa articulá-las numa estrutura inteligível (leis matemáticas) que pré-existiria aos dados sensíveis. O que incluiria o juízo como um factor da percepção. Também o empirismo, que debateu nos finais do século XIX a percepção com o racionalismo psicologista, partindo da primeiridade dos dados sensíveis, não explica como estes se tornam claros para uma consciência. Para Merleau-Ponty a percepção não é a representação da ideia de um objecto nem se confunde com o juízo desse objecto. Ela é uma operação primeira que faz nascer um “sentido” nas coisas antes da predicação.

 

Para Merleau-Ponty o que sustenta a fenomenologia da percepção é a experiência do corpo-vivido ou o corpo-fenomenológico [4]. Trata-se de uma concepção que procura aprofundar a via aberta por Husserl no seu derradeiro livro “Erfharung und Urteil”. Neste ensaio Husserl fala de uma experiência pré-predicativa que antecede a representação. Essa experiência não é o resultado somado das sensações, como pretendia o atomismo de Locke, nem o acto “intelectual de apreensão” cartesiano. É o resultado de um movimento primeiro em que o vivido da experiência, cruzando-se com os dados sentidos, constitui um pré-sentido, um constituído que sustenta a predicação e a representação visual. Merleu-Ponty pensa resolver os paradoxos do transcendentalismo e do empirismo fazendo da percepção a base da experiência pensável para além das sensações e da representação. A percepção é a abertura, clareira (lichtung) activa que permite o acesso ao lebenswelt, embora, afastando-se de Heidegger, Merleau-Ponty defenda que é no corpo fenomenológico e não na linguagem que a clareira da percepção se activa.

 

O seu pensamento partilha algo da concepção Leibniziana de “harmonia pré-estabelecida”. Leibniz fala de percepção e de apercepção. Percepção seria já uma forma de representação mental da mônada[5], reduzindo o múltiplo ao único, mas na maioria dos casos são inconscientes. Só raras mônadas tem apercepções ou seja realizações conscientes da percepção.


Existe num entanto uma diferença decisiva entre as concepções de Descartes e as de Leibniz. Descartes define a percepção dentro dos processos epistemológicos de internalização, de intelectualização do mundo. Em Leibniz, a percepção é um modo de expressão do sujeito, tem a ver com as suas acções no mundo. Esta concepção gerou tanto leituras teológicas como pragmáticas: "Broadly speaking, soul will be the same as life or vital principle, that is, the principle of internal action existing in the simple thing or monad, to which external action corresponds. And this correspondence of internal and external, or representation of the external in the internal, of the composite in the simple, of multiplicity in unity, constitutes in reality
perception".[6]

Compreende-se agora porque é que a percepção se tornou num conceito fundamental para as correntes estéticas que partem da ideia que só na filosofia pode a arte encontrar o modo certo para se cruzar com a experiência pensável.


Na verdade, a filosofia
estética sempre se desenvolveu próximo do cartesianismo analisando as condições em que o sujeito se apropria da exterioridade e partindo do principio de que é a arte quem assegura melhor ligação ao mundo e que portanto mais eficazmente abre as “portas da percepção”. A arte também encaixa bem nas concepções fenomenológicas de Husserl e Merleau-Ponty porque parece ligar-se à experiência pela via da percepção, expondo-se e situando-se nesse pré-adquirido que ainda não demonstrou interpretar mas parece poder sustentar todas as analíticas. “(…) “trata-se de descrever e não de explicar nem analisar” [7] sentencia Merleu-Ponty

A arte da arte seria portanto essa capacidade de produzir a percepção certa que contem em potência a possibilidade de restituir o sentido ao mundo. Talvez seja uma visão demasiado ambiciosa. Já é suficiente que arte problematize porque é nessa via que o pensar floresce. O pensamento, como o demonstrou Bartleby, não floresce apenas no sentido, também é produtivo no não-sentido, na impotência.

Será a impotência, o negativo, o abismar também uma percepção? Na visão de Aldous Huxley a droga demonstraria que a percepção comum funciona como uma censurância aos estímulos. Bastaria um estimulante adequado (LSD) para se adquirir percepção sobre todos os estímulos que no mesmo instante cruzam o corpo humano. Muitas das formas de arte embarcam neste projecto sensorial de abrir as portas da percepção. Mas o excesso também é indigestível, neste caso pela experiência. A censurância que a percepção efectua sobre o censório é a única garantia de manter regulável a experiência pelo pensar.

Tudo o que seja objecto de pensamento é percepção. È esta a complexa visão que Martin Heidegger defende  em A Origem Da Obra De Arte.[8] As portas da percepção são na concepção heideggeriana a clareira do próprio pensamento. A “porta” é elo que liga a arte, percepção e pensamento.

Como é que estas concepções nos podem ajudar a ter uma “percepção” da arte pré-histórica? Exercendo uma suspensão sobre todas as buscas de sentido que a procuram explicar, procurando novos modos de percepção e ... apreendendo a problematizar a partir do enigma que ostentam ao pensar.

 

[1] O livro Doors of Perception de Aldous Huxley é inspirado na frase citada de William Blake.
[2] CRESS, Donald : “Perceptio : a related word perceptione in I:11 is translated as knowledge, or perception. In II:5 vel odoratu percipi is translated as [the sense of] smell. In II:7 percipiat is translated perceive or know. In II:11 perceptiones is translated perceptions, notions, or ideas. In II:12 solâ mente percipere is rendered "it is the mind alone which perceives it" (Veitch), "it is my mind alone which perceives it" (Haldane), "I perceive it through the mind alone" (Cress). In II:14 perfectius evidentiusque percipiebam is translated "evident and perfect conception" (Haldane), "clearer and more perfect perception" (Veitch), and "perceived more perfectly and evidently" (Cress) in Descartes, René. Meditations on First Philosophy: in Which the Existence of God and the Distinction of the Soul from the Body are Demonstrated . Trans. Donald A. Cress. Indianapolis: Hackett Publishing, 1993.
[3] Descartes, René (1641), Méditations métaphysiques ( Méditations sur la philosophie première) in http://mper.chez-alice.fr/oeuvres/Descartes/Medita/Med2.html. (29-07-2008).
[4] Lebenswelt- Conceito elaborado na fenomenologia que procura definir o território de convicções pré-adquiridas onde se elabora o conhecimento e a comunicação.
[5] Mônada é um termo atribuído a Giordano Bruno e fundamental para a filosofia de Leibniz. De alguma forma utilizamos o termo individuo numa acepção semelhante à mônada. Mônada refere o que existe de único e indivisível em cada ser humano.
[6] Carta de Leibniz a Rudolph Wagner em 4 de Junho de 1710
[7] Maurice Merleau-Ponty, Phénoménologie de la Perception (1945), Paris, Gallimard, 2005. pag.2
[8] There is also the notion of a thing as the
unity or bundle of sensations in the mind that provide us with a perception, or a thing as an
object of thought, e.g. an apple, unicorn or next week's reading assignment. [25ff] "The Origin of the Work of Art" in Poetry, Language,
Thought, Martin Heidegger (trans. Albert Hofstadter), New York: Harper and Row, 1975

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