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Literacia Visual

Manuel José Damásio

Tradicionalmente associado às capacidades de leitura e escrita da palavra textual, tornou-se comum nos nossos dias a utilização do termo "literacia" para referir competências genéricas de escrita e leitura associadas às mais variadas formas de representação.

Palavras chave: imagem digital; imagem técnica; representação visual

A separação tradicional entre conhecimento/educação e entretenimento/prazer, levou a que o valor social do termo literacia fosse directamente associado uma função educacional - a aquisição de competências de escrita e leitura em ordem à criação de modelos e metodologias de ensino e aprendizagem que resultassem no desenvolvimento de indivíduos mais conhecedores e mais competentes [1].

O estudo da literacia refere-se normalmente à análise da capacidade de processamento de informação através da palavra escrita ou lida. No entanto, a importância que outras formas de representação e expressão simbólica, para além da palavra escrita, têm vindo a adquirir na nossa sociedade, provocaram o surgimento de diversos movimentos que defendem uma expansão do conceito de literacia [2].

Para estes autores [3], o carácter altamente mutável do sistema de representações em que nos movimentamos e a que estamos expostos, e a complexidade do sistema tecnológico de comunicação que lhe está subjacente, exige uma nova visão do conceito de literacia. Na base desta nova visão de literacia, está o alargamento das competências que lhe são próprias a outras formas de expressão que não apenas a escrita [4].

O processamento de informação através da palavra escrita e oral implica, para além das competências base de uso restrito dessas formas de expressão, a compreensão das funções que a escrita e a palavra desempenham aos mais variados níveis sociais, como por exemplo ao nível legal [5]. Assim, também no caso da adequação das capacidades de escrita e leitura a outras formas de expressão, como a visual (representação visual), o seu uso restrito não pode ser dissociado da compreensão das funções por elas desempenhadas.

É esta característica central do termo "literacia", a referência a capacidades específicas de utilização de uma língua escrita, que permite distinguir "literacia" de "alfabetização". "Alfabetização" corresponde a um estado, normalmente associado à formação escolar, de iniciação na utilização da língua, enquanto que "literacia" refere "um processo permanente e contínuo de evolução" [6].

A expansão do conceito de literacia em função do contexto comunicacional do mundo contemporâneo, resultou em diversos movimentos de sentido complementar que integram uma cada vez maior variedade de disciplinas no estudo do fenómeno. Assistimos assim à emergência de uma preocupação com a capacidade de compreensão crítica das mensagens produzidas pelos meios de comunicação de massas por parte dos sujeitos. Tal movimento, conhecido como "literacia dos media", introduz o conceito de literacia visual como a capacidade de interpretar e extrair um sentido da informação visual contida numa imagem resultante da actividade humana, mas enquadra muitas vezes tais preocupações num modelo ideológico de entendimento dos efeitos dos media. Neste contexto, o termo "literacia visual" assenta no princípio de que as imagens podem ser lidas e que um sentido que resulte dessa leitura pode ser comunicado. É precisamente este princípio de que o sentido construído pode ser comunicado e distribuído, que está na base de perspectivas mais amplas que enquadram a literacia visual como um constituinte das práticas sociais do sujeito contemporâneo.

A autoria do termo "literacia visual" é muitas vezes atribuída a John Debes, que em 1969 definiu como literacia visual "um grupo de competências que um sujeito pode desenvolver e que pode integrar outras experiências sensoriais" [7]. A evolução constante das tecnologias de produção e representação de imagens técnicas e o papel progressivamente mais importante que as mesmas desempenham na modelação da relação entre os sujeitos e o mundo, levou a que o conceito de literacia visual fosse expandido por forma a enquadrar, não apenas as competências interpretativas, mas também as competências relativas à produção de imagens.

A expansão do termo implicou um aumento do leque de saberes que contribuem para o enquadramento disciplinar da literacia visual, mas também resultou na inexistência de uma teoria unificada que permita compreender o mesmo. Qualquer que seja a origem disciplinar ou o campo de trabalho em causa, a generalidade dos autores parece concordar com o princípio de que a literacia visual é hoje uma componente educativa central, que deve ser reforçada nos diversos níveis de ensino [8].

O individuo visualmente literato é aquele que é capaz de descodificar e interpretar uma composição visual, mas também aquele que é capaz de codificar e compor imagens passíveis de possuírem um sentido comummente entendido.

Embora alguns autores entendam a literacia visual como um estado [9] que facilita aos sujeitos a compreensão das representações visuais à sua volta, a acelerada evolução de mecanismos de reprodução da imagem a partir da modernidade, mas mais essencialmente a emergência da imagem digital nos nossos dias, torna inegável a relevância de processos que facilitem a aquisição pelo sujeito de competências de selecção, interpretação, codificação/descodificação e produção de imagens.

A proliferação de imagens na nossa cultura, implica que a literacia visual seja entendida, quer na sua forma mais básica de descodificação de simbologias visuais, quer na sua forma mais avançada de construção de representações de sentido complexo, como um processo central de aquisição de informação, construção de conhecimento e obtenção de resultados educativos pelos sujeitos.

A necessidade de uma literacia visual resulta em primeiro lugar do facto de que os símbolos e modos de representação utilizados na comunicação visual não possuem um vocabulário fixo. Para além da extensão inimaginável de símbolos e formas que teriam de constar de tal eventual vocabulário, coloca-se o problema muito mais premente de que a interpretação e construção de sentidos em comunicação visual varia consoante o contexto de produção e recepção das imagens.

A literacia visual constitui-se assim como um conjunto de competências que envolve a compreensão das convenções, intenções subjectivas e conjunto de referências ao real, incluídas na produção ou recepção de uma imagem. Tal processo de construção de sentido, resulta numa sintáctica e semântica que implica que a literacia visual seja entendida como uma prática social que não se limita ao texto da imagem, mas antes enquadra esta no seu contexto social e cultural [10].


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[1] Kress, G. & van Leuwen, T. Reading Images. The grammar of visual literacy. London, Routledge, 1996.
[2] Bamford, A. "The visual literacy white paper" disponível on-line em http://www.adobe.com/uk/education/pdf/adobe_visual_literacy_paper.pdf publicado em 02/2004 consultado em 09/2008.
[3] Uma das principais representantes deste movimento, normalmente identificado como "Media Literacy Movement", é Patricia Auferheid, autora de um artigo seminal sobre a necessidade de se introduzir o estudo e análise intensiva dos media e dos seus efeitos em todos os currículos do sistema educativo Norte-Americano. (Aufderheide, 1993).
[4] De acordo com Renee Hobbs, esta expansão do "texto" surge como consequência lógica do facto de que o ensino suportado em mensagens puramente textuais está "desligado e é muito remoto face à experiência dos estudantes, nomeadamente à sua experiência televisiva" e que "quando os materiais literários são usados exclusivamente como veículos para exercícios de desenvolvimento das capacidades de compreensão e vocabulário, os estudantes ficam alienados dos processos de escrita e leitura num vasto conjunto de contextos". (...) "A análise dos media permite-lhes transferir a sua experiência educativa, para a sua experiência de vida exterior à escola e, mais importante ainda, permite-lhes olhar o texto escrito com mais motivação". Hobbs, Renee, "Expanding the concept of literacy", in Kubey, Robert (ed), Media Literacy in the Information Age, Transaction Publishers, London 1997. pp. 163-184. cit. p. 168.
[5] A avaliação da literacia através da consideração do nível de compreensão demonstrado pelos indivíduos perante funções da palavra como as que aqui referimos - ex. A capacidade de compreender um texto legislativo ou um formulário de declarações de impostos -, foi sempre considerada central por todos os estudos.
[6] Potter, W. J. Media Literacy, London: Sage Publications, 1998.
[7] Avgerinou, M. & Ericson, J. "A review of the concept of visual literacy". British Journal of Educational Technology, 1997, 28(4), 280-291.
[8] Kellner, D., "Technological Revolution, Multiple Literacies and the Restructuring of education", in I. Snyder (ed.), Silicon Literacies: Communication, Innovation and Education in the Electronic Age, London, Routledge, 2002, pp. 154-171.
[9] Messaris, P. Visual Literacy: Image, Mind & Reality. Boulder CO, Westview.
[10] Turner, G, Film as social practice, London, Routledge, 2006.

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