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Inconsciente Óptico

Victor Flores

A expressão «inconsciente óptico» decorre do reconhecimento, por parte do filósofo alemão Walter Benjamin, de um contributo absolutamente original prestado pela fotografia e pelo cinema para o enriquecimento da percepção humana. Com estas novas imagens da técnica são descobertos movimentos e dimensões da realidade até então desconhecidos, ou seja, não reconhecidos e analisados pela percepção e, por isso, restringidos ao espaço do inconsciente ou, tal como o designou, de um «inconsciente óptico».

Palavras chave: fotografia, imagem técnica, psicanálise, cinema

O interesse de Walter Benjamin pela psicanálise e pela sua terminologia estão na origem desta sua expressão tão recorrente nos últimos anos e que surge nesta passagem do seu ensaio de 1936 «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica»: «A câmara leva-nos ao inconsciente óptico, tal como a psicanálise ao inconsciente das pulsões»[1]. Benjamin reconhece na fotografia e no cinema a capacidade de registo de aspectos da realidade que não cabem na óptica natural, nomeadamente por serem demasiado rápidos, por serem demasiado pequenos ou por serem dispersos. São muitas vezes aspectos que a retina também recebe mas que o sistema perceptivo não transforma em informação. Estas imagens técnicas vêm, como exemplifica, permitir analisar melhor o desempenho dos actores de um filme na medida em que este passa a ser «mais facilmente isolável nos seus elementos constituintes». Por outro lado, o grande plano e o ralenti no cinema, a ampliação e o retardador na fotografia não funcionam apenas como meios de exposição de elementos conhecidos da realidade, mas sobretudo como meios de «revelação de estruturas de matéria inteiramente novas da realidade».

Em causa está o confronto humano com a nova linguagem que a câmara representa e que tanto se distingue da do olho humano: «Em vez de um espaço preenchido conscientemente pelo homem, surge um outro preenchido inconscientemente. Mesmo que seja comum observar, ainda que grosseiramente, o andar das pessoas, nada se sabe da sua atitude na fracção de segundo em que avançam um passo. Em geral, o acto de pegar num isqueiro ou numa colher é-nos familiar, mas mal sabemos o que se passa entre a mão e o metal ao efectuar esses gestos (...)»[2]. Esta expressão dá assim conta de uma absoluta novidade das imagens técnicas: o facto delas poderem passar a integrar informações não retidas, processadas ou sequer intencionadas pelo operador. A característica inédita destas imagens reserva, no fundo, a capacidade de poder surpreender o olhar, de o surpreender com o imprevisto. Este foi um factor que não escapou aos primeiros diagnósticos feitos à fotografia, designadamente por François Arago, apesar de não ter sido aí que ganhou esta designação.

No seu «Rapport» Arago reconhece: «Quando os observadores aplicam um novo instrumento ao estudo da natureza, o que esperam é sempre pouca coisa relativamente à sucessão de descobertas que o instrumento origina. Neste género, é sempre com o imprevisto que devemos particularmente contar.»[3]. A abordagem deste conceito é ainda retomada por Benjamin na sua «Pequena história da fotografia»: «Deste inconsciente óptico só se tem conhecimento através da fotografia, da mesma forma que só através da psicanálise se tem conhecimento do inconsciente intuitivo. As características de estruturas, os tecidos de células, com os quais a técnica e a medicina gostam de se ocupar são, originalmente, mais familiares à câmara do que uma paisagem expressiva ou um retrato inspirado. Mas, simultaneamente, a fotografia revela neste material aspectos fisionómicos, mundos de imagens que residem num mínimo, suficientemente visível e oculto para ter encontrado refúgio num sonhar acordado mas que, tendo-se tornado grande e identificável, torna visível a diferença entre técnica e magia, enquanto variáveis claramente históricas»[4].

 


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[1] Benjamin, Walter «A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica» (1955), in Walter Benjamin, Sobre arte, técnica, linguagem e política, Lisboa, Relógio D’Água, 1992: 105.
[2] Benjamin, Walter, op. cit., p. 104.
[3] Arago, François, «Rapport sur le daguerréotype», in AA.VV., Du Bon Usage de la Photographie: une anthologie de textes, Centre National de la Photographie, Paris, 1987: 14.
[4] Benjamin, Walter, «Pequena história da fotografia», in Sobre arte, técnica, linguagem e política, Lisboa, Relógio D’Água, 1992: 119.

 

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