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ImagemImprimirDicionário critico

Imaginação

José Manuel Gomes Pinto

Para definição geral da imaginação, pode-se afirma que esta é a faculdade de produzir imagens, mostrando-se como o fundamento da síntese que constituem tanto o conceito realidade como o conceito subjectividade. Objecto e sujeito estão unidos pelo proceder da imaginação. Ora, a imagem humana do mundo pode assumir-se tanto como a imagem da memória, a das impressões dos sentidos, a dos hábitos, a do pensamento, a do juízo e a das mais eloquentes imagens da fantasia. Todos estes elementos constituem uma construção da imaginação. É também na imaginação onde se poder encontrar o princípio que supre a contingência predicativa do sujeito, ou seja, a sua finitude judicativa, a necessária contingência de todo o seu juízo. E esse mecanismo de suplência chamou a tradição do pensamento ocidental crença. A imaginação contém a possibilidade da crença se consubstanciar. Sem ela, a crença não é possível; sem uma imagem, a crença não contém qualquer objecto e, por tanto, não se apresentaria como crença. O conteúdo da crença é, assim, uma imagem possibilitada pela imaginação. Em última análise, a imaginação dá unidade a toda a experiência do sujeito, dando assim universalidade aos processos de pensamento humano, possibilitando por isso o universo da experiência com sentido.

Palavras chave: imagem mental; imaginário, experiência estética.

Este esforço por distinguir e caracterizar o objecto e as funções das diversas faculdades humanas, é algo que a história do pensamento ocidental vem fazendo desde os pensadores gregos. De resto, de entre aqueles, é Aristóteles o que melhor formula essa separação. Na tentava de isolar as diversas faculdades, em ordem a poder erigir um pensamento o mais estreitamente ligado ao acontecer real –o pensamento rigoroso–, Aristóteles procede à nominação de alguns conceitos que não mais abandonarão o pensamento europeu.

Para Aristóteles, a experiência –a sua unidade na imagem– nasce da recordação, uma vez que, diz, “de muitas recordações da mesmas coisas se chega a constituir a experiência”
[1]. A memória é assim um mecanismo de criação de imagem, da imaginação, mas cujos princípios de ordenação coincidem com os princípios do acontecimento, algo que não acontece com a outra modalidade da imagem produzida pela imaginação: a fantasia. É por isso que, diz Aristóteles, o senso comum se constrói, ou seja, que uma imagem colectiva, consensual, se torna possível. A memoria é produção de imagens, um procedimento da imaginação em todo o caso, mas um proceder que se atém ao acontecer real, e não um proceder arbitrário, como é o caso da fantasia. Na memória, a função da imaginação é meramente reprodutiva, mas não criadora, como na fantasia. Não existe arbitrariedade no proceder mnémico, como o há na criação da imagem fantástica, ou seja, na possibilidade criativa da imagem. É esta distinção que é mais tarde retomada pelo Iluminismo, principalmente pelos seus dois grandes pensadores antitéticos, David Hume e Immnanuel Kant. Vejamos, pois, como se procedeu de forma crítica, neste período e pela primeira vez na história do pensamento ocidental, à determinação de uma concepção da imaginação, na qual, a um dos seus produtos –à imagem sem vinculação material, imagem fantástica–, se lhe atribui o princípio de incerteza, mas onde simultaneamente se reconhece na imaginação a única possibilidade de acesso ao real. Do que se afirma anteriormente não é difícil chegar a compreender que o dispositivo que todo o sujeito dispõe para reter o objecto da afecção está dado na faculdade da representação, ou seja, na imaginação. A imaginação é, assim, o único dispositivo que permite aceder à ordenação temporal do real.

A essa imagem, a esse aparecer da coisa ao espírito humano, chamaram os gregos, precisamente, fantasma. Fantasma é uma forma mental de todo o objecto se manifestar ao espírito humano, quer dizer, fantasma é o vestígio desse objecto. Noutras palavras, fantasma é o objecto percebido feito
imagem mental. Assim, essa imagem, enquanto vestígio ou impressão, retém a afecção dos objectos, e não os objectos eles mesmos. É a este tipo de imagem que ordinariamente se chama memoria, ou seja, a raiz da ordenação temporal do real. O fantasma representa, pois, a realidade. Procede de tal forma que pode re-apresentar ao espírito aquilo que esteve presente a ele, ou seja, o objecto da sensibilidade, a temporalidade pura. Existem, pois, dois tempos distintos na imagem produzida pela imaginação humana: a da re-apresentação e a da representação.

De resto, Aristóteles, para além de identificar analogamente fantasia e sensação
[2] (estas têm, apenas, um modo de ser diferente), afirma que o tempo é, também ele, um perceptível comum. Ou seja, que do tempo existe percepção, que o tempo é algo que fica preso na imagem. Esse modo de ser diferente da fantasia e da sensibilidade está fundado, justamente, na sua temporalidade. O tempo é um perceptível comum, pelo que sensibilidade percebe tempo no perceber e a imagem retém o tempo no re-apresentar. Antes de qualquer experiência possível não existe, com propriedade, tempo, temporalidade, dinâmica. O que é o mesmo que dizer que antes da imagem não existe tempo. Só com a imaginação encontra o homem a temporalidade, a sua temporalidade própria. O sujeito, percebe o que está presente, o aqui e agora, e unicamente consegue representar o que já esteve presente, mas já não está. A distinção entre afecção e imagem (fantasma) só pode ser feita pela temporalidade: dar-se propriamente dito da imagem. Afecção e imagem apresentam-se como o problema de existência. A afecção é uma sensação de algo (real) presente aqui e agora à sensibilidade humana, algo do qual não há imagem. O fantasma (imagem) é uma afecção representativa, uma afecção do sujeito e produzida pelo sujeito. Ele é o verdeadeiro produto da actividade imaginativa. Porém, à sua classificação não se pode proceder no momento em que a afecção se produz. É por esta razão que o sentido comum –que tem fundamento no operar universal da imaginação– pode chegar a ser enganoso: ele dá o acontecimento de acordo com as regras de formação da imagem, ou seja, do proceder da imaginação. A crítica ocidental ‘erros da imaginação’ tem aqui o seu lugar. René Descartes assume-se como o expoente máximo desta crítica. Se as Meditações de filosofia primeira (1641) de Descartes são exemplo disso, já em 1677 Bento de Espinosa na sua Ethica alertava para o facto de a imaginação não conter em si mesma nenhum erro, mas somente a distracção e a ingenuidade do juízo poderiam levar a imaginação ao erro.

Mas voltemos ao pensador grego. Diz Aristóteles que do presente não há memória; ou seja, que deste não pode haver imagem, mas apenas percepção[3]. O presente, ou o que é o mesmo, a afecção pura, não tem representação, mas unicamente manifestação. As impressões, o fantasma, são unicamente um vestígio seu. A imagem da mnémica é uma imagem que contém tempo. Sendo assim, a imagem que representa e se apresenta só se distingue do objecto de forma temporal; ou seja, a imagem não e um dado imediato. É no conter já tempo da imagem mnémica, que a memoria pode ser vinculada com o mundo exterior. A conclusão é óbvia: somente existe pensamento porque existem imagens. Diz Aristóteles: “a memória implica, pois, um lapso de tempo”
[4], por conseguinte, “de todos os seres que percebem o tempo, somente àqueles animais que têm memória lhes é permitido compreender o tempo”. A faculdade que realiza essa reconstrução da afecção é a imaginação, pelo que, remata Aristóteles, “não e possível pensar sem imagens”[5].

A imaginação mostra-se assim como a faculdade mediante a qual o homem pode devir homem, e exteriorizar-se do domínio da animalidade. É a imaginação que permite que o sujeito seja possível. É, pois, na forma como a imaginação age –quer seja com materiais do mundo externo ou por objectos forjados por ela mesma– e na forma como é afectada –por si mesma ou pelo real–, que se pode encontrar a estrutura e a conformação das restantes faculdades humanas. A imaginação é a sede os princípios de associação das ideias, das regras gerais que ordenam o pensamento e o tornam possível. Por isso ela é ao mesmo tempo passiva e activa.

É passiva enquanto reprodutora, activa enquanto criativa. Enquanto passiva a imagem da imaginação é do domínio da verdade, enquanto criativa a imagem da imaginação é do domínio da estética, da arte, da criação, da liberdade
[6]. 



[1] Aristóteles, Metafísica, Lib. I 980b28-981a2. Metafísica (ed. trilingue), Madrid, Gredos, 1990.

[2] Cfr., Aristóteles, «Dos sonhos», 559a15, in On the Soul; Parva Naturalia; On Breath. Cambridge/Mass.,Harvard University Press, 1995.

[3] Aristóteles, «Da memória e da reminiscência», 449a10, in Parva Naturalia, op. cit.

[4] Aristóteles, «Da memória e da reminiscência», 449b27, op. cit.

[5] Aristóteles, «De memória e da reminiscência», 449b28-32, op. cit.

[6] Para uma visão geral e histórica sobre a imaginação: Maurizio Feraris, L’immaginazione, Bologna, il Mulino, 1996.

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