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ImagemImprimirDicionário critico

Imagem Técnica

Manuel José Damásio

A nossa definição de imagem técnica inicia-se com a relação primordial entre visão e imagem visualizada, para a partir daí discutir o papel central do dispositivo tecnológico – aqui entendido como instrumento material – na configuração da imagem técnica. A partir da relação de mediação tecnológica entre sujeito e visual, procede-se à análise de cada um dos intervenientes no processo, em ordem à anulação de um entendimento tecnologicamente determinado da imagem técnica que anuncie para a mesma potencialidades originais de representação. A não-aceitação do carácter autónomo dos dispositivos tecnológicos, implica assim uma concepção não-instrumental da imagem técnica, que privilegia o contexto de produção e recepção em desfavor da natureza específica de cada um dos instrumentos ou meios, como a fotografia e o cinema, utilizados no processo de uso e consumo dessas imagens.

Palavras chave: cinema; imagem digital; fotografia; percepção; reprodutibilidade; técnica.

A nossa cultura fez muitas coisas e disse muitas coisas sobre a imagem. Categoria central do pensamento ocidental, ela é representação, cópia, informação, ecrã, ilusão, imitação, que tem como essência ser a representação de uma coisa que não é, duplicando enfim essa coisa e a ela se substituindo. A imagem é uma segunda presença daquilo que representa, um objecto de visionamento que medeia conhecimento e informação.

A nossa
cultura do visual lidou desde sempre com diferentes formulações da imagem, coisas submetidas a uma lei do visível que faz delas objectos percepcionados pelos sujeitos no mundo externo e assim contribuindo para a relação destes com o real.


A imagem técnica marca o apogeu desta necessidade de representação do real, nomeadamente por via de um dos seus medium maiores: a fotografia. Contrariamente a formas imagéticas anteriores, a imagem técnica vive da representação mimética da realidade, opondo-se assim à representação aproximada da pintura clássica ou à virtualidade da
imagem digital. Tal distinção deve obviamente ser enquadrada no contexto de uma cultura Ocidental onde a representação é percebida como a presença de uma realidade ausente por via de um objecto. Tais formas de representação encerram a ilusão como fenómeno perceptivo e o realismo como conjunto de regras sociais que regulam a relação entre representação e real.

A relação próxima entre
percepção e imagem está na origem do visual enquanto categoria que nomeia imagens cujo referente é reconhecido de imediato por recurso à percepção, sem que haja necessidade de interpretação ou descodificação da imagem [1].

A imagem técnica faz antes de mais parte da categoria particular de imagens visuais que resultam de uma actividade humana intencional. Estas imagens distinguem-se de todos os outros objectos visuais que eu também percepciono de forma imediata, mas que não resultam de uma actividade humana intencional (ex. as nuvens no céu ou as flores num prado). As imagens técnicas são assim objectos que acrescentam a esta relação central entre sujeito e coisa percepcionada, a mediação de uma técnica.

A definição de imagem técnica pode incorporar uma perspectiva que localiza na génese destas imagens a moderna produção tecnicamente mediada, ou uma concepção mais ampla, que entende por técnica todo o processo criativo que exige competências específicas e de que resulta a criação de um objecto visível e culturalmente mediado.

A definição de imagem técnica está usualmente associada à cultura da cópia e da reprodução que a primeira definição encerra
[2]. Essas são as imagens reproduzidas com que diariamente lidamos, as imagens criadas e veiculadas através dos media. A segunda concepção remete para o objecto único, para a imagem manualmente criada, a imagem do espaço artístico, criativamente apenas a alguns acessível. Se a primeira é produção industrial, a segunda é produção artística, lugar do objecto único ligado às artes artesanais.

Tal distinção entre a imagem manual, objecto artístico por excelência, e a imagem automática, objecto industrial que tem por base a reprodução, vê-se actualmente confrontada com um novo tipo de imagens, a imagem virtual, objecto desmaterializado que torna obsoletas categorias anteriores, como a de cópia ou reprodução, e nos obriga e repensar a relação de mediação que a técnica opera entre o sujeito e o percepcionado.

Se não há imagem que não seja a percepção de uma imagem, não existe imagem técnica que não seja o resultado de uma interpretação de algo sobre a forma de uma representação que estabelece uma relação com o mundo ou com outros.

A imagem técnica é assim e, em primeiro lugar, a imagem com uma função, a imagem criada para ser usada. A existência do propósito determinava o trabalho físico do criador da imagem, o “artista”, que com a sua “técnica” dava origem manual a uma produção simbólica. Esse era o objecto único a que a emergência de processos automatizados de base tecnológica vêm contrapor a imagem criada e reproduzida por meio da técnica, a imagem gerada no seio da mediação entre sujeito e dispositivo tecnológico.

Todo o meio tecnológico passível de produzir imagens visuais produz imagens técnicas, ou seja, imagens que podem ser reconhecidas perceptualmente e que encerram no seu acto criativo uma interpretação do real. A fotografia e o cinema são os meios técnicos por excelência, lugares primordiais da imagem moderna recebida por via da cópia reflectida ou projectada, imagem parada ou em movimento, imagem historicamente constituída em função de lógicas sociais e culturais marcadas
[3]. Na imagem técnica, o ponto crucial de mediação entre sujeito e tecnologia situa-se no instante produtivo de criação ou duplicação da imagem.

Hoje lidamos com outras e diferentes formas de mediação. A evolução tecnológica deu lugar, por via do digital, à
imagem virtual, modelo distinto de representação e armazenamento de informação, que introduz a distribuição como ponto fulcral de relação entre sujeito e tecnologia.

A definição de imagem técnica indicia então toda a estrutura de representação visual que resulta das operacionalização pelo homem de um dispositivo de base tecnológica de acordo com um conjunto de competências e formas de conhecimento. Tal uso dos dispositivos ocorre em determinado contexto cultural e social, dele resultando consequências específicas. A forma, uso e modo de produção deste tipo de imagens, distingue-se por isso de outras formas de representação visual que não dependem de um dispositivo técnico, na medida em que a relação entre aquele que vê e aquilo que é visto, é influenciada por factores técnicos que afectam o valor simbólico e cultural das imagens.

Se tal distinção entre a imagem técnica e outras formas de representação visual existe, em parte, em função dos dispositivos tecnológicos que as produzem e distribuem, tal não justifica o carácter autónomo dos mesmos. O estatuto exacto da tecnologia face à produção e distribuição de imagens técnicas configura-se, a par com a relação central entre espectador e imagem que organiza todo o visual, como essencial para a correcta compreensão da mesma.

A complexa relação entre a técnica – entendida enquanto conjunto de procedimentos e conhecimentos aplicados a uma actividade – e a tecnologia – os dispositivos materiais propriamente ditos e respectivas formas de uso - só pode ser compreendida no contexto da evolução social e cultural da tecnologia. Tal processo evolutivo configurou sucessivas formas de entendimento da imagem técnica, desde um estágio primordial, onde a imagem técnica representa as primeiras tentativas humanas de fixar sobre a forma material o domínio do visual, até ao estágio contemporâneo, onde a imagem técnica adquire por via do digital um carácter virtual.

Ao longo de todo este processo, a influência dos factores tecnológicos e técnicos sobre o valor simbólico do contexto social e cultural em que a imagem é percepcionada não cessou de se alterar. Esta relação não é unívoca, na medida em que tais contextos também foram até certo ponto determinantes para a evolução da imagem técnica. Tal visão desembocou muitas vezes numa leitura “ideológica” da evolução da imagem, que associa determinados processos, como o da emergência da perspectiva mecânica da fotografia que vem substituir a perspectiva da pintura clássica, à doutrinação de um sujeito manietado por forma a aceitar determinado meio como forma legítima de representação do real, registo verdadeiro que não pode ser contestado
[4]. As leituras ideológicas da evolução histórica das tecnologias, hoje consideradas um pouco “fora de moda”, alertam-nos no entanto para um factor crucial: o risco de valorizarmos em demasia o peso dos factores técnicos na constituição de novas formas de representação e com isso promovermos um determinismo tecnológico que ignore a esfera social onde em última instância ocorrem todos os processos de mediação que temos vindo a descrever.

Ao introduzir a mediação tecnológica como processo central de organização subjectiva do real, a imagem técnica promove uma separação entre percepção e interpretação da imagem, tornando inevitável que a forma como uma imagem é produzida tenha impacto na forma como os sujeitos se apropriam dela. Quer isto dizer que a imagem técnica é mais do que o visual? Não, o que queremos dizer é que a imagem técnica partilha com o visual os valores simbólicos, informativos e estéticos de todas as imagens deste tipo, mas às mesmas acrescenta o dispositivo tecnológico e respectivo contexto social e cultural de uso, de reprodução, e de recepção da imagem.

Se toda a imagem é o resultado de uma relação primordial entre um sujeito e o visual, a imagem técnica adiciona a esta equação o valor histórico e social de uma esfera simbólica, onde determinados dispositivos tecnológicos configuram distintas características materiais desse mesmo visual e, de acordo com diferentes formações sociais, originam diferentes consequências do uso e recepção das imagens. Tal valoração histórica e social das imagens técnicas, exige que a recepção das mesmas seja enquadrada por formas de literacia próprias, a
literacia do visual, em ordem à efectiva percepção e interpretação das mesmas.

Se toda a imagem é algo que é visível, a imagem técnica é algo mais: a soma do visual, da estrutura material em que ele é fixado, das intenções subjectivas que determinam a selecção daquele bloco de informação e não de outro, e dos dispositivos que possibilitam todo o processo.

Torna-se assim claro que desde que existem representações visuais enquanto formas de materialização da experiência subjectiva da percepção, que podemos falar da “imagem técnica” enquanto forma de representação visual cuja produção exige aos sujeitos competências técnicas específicas (ex. o domínio das técnicas de preparação de pigmentos pelos pintores do Renascimento Italiano); o acesso a ferramentas necessárias para a operacionalização de tais técnicas e a capacidade de reproduzir e distribuir esse conhecimento e respectivos resultados, e contextos sociais e culturais que influenciam todos os aspectos anteriores. No entanto, e face ao anteriormente exposto, já podemos afirmar que tal classificação não se pode aplicar às imagens técnicas, aqui definidas enquanto resultado da mediação tecnológica, objectos culturais reproduzidos de forma automática com recurso a dispositivos específicos em função de intenções criativas humanas.

Compreender a imagem técnica implica assim que se analisem os diferentes intervenientes subjectivos no processo: o dispositivo tecnológico, o sujeito que cria algo, que progride entre o visual e o imaginário para criar uma nova imagem, e o sujeito que observa, que se apropria dessa imagem por via de um processo de mediação tecnológica, o espectador
[5].

A
fotografia e o cinema são os dois dispositivos tecnológicos por excelência da era da imagem técnica, a que devemos ainda acrescentar enquanto forma de representação analógica, o vídeo. Qualquer um destes dispositivos assinala uma ruptura com formas materiais anteriores, como por exemplo a pintura. Tal ruptura situa-se a vários níveis. Em primeiro lugar, na própria base material: à fixação manual dos pigmentos na pintura sucede-se a impressão dos químicos da fotografia e do cinema, a tela dá lugar ao negativo e ao positivo, o não-temporal da pintura é confrontado com o temporal do cinema e o efeito de real que a duração aí gera. As transformações verificam-se, em segundo lugar, ao nível do processo de percepção, com a imagem reflectida a ser confrontada com a imagem projectada, e com novos modelos de cor e luminosidade. No entanto, a ruptura mais decisiva é aquela que se dá ao nível do processo produtivo e respectivo contexto social e cultural, com a imagem manual a ser substituída pela imagem automatizada e o acto criativo manual pela aquisição do visível através de uma câmara, o que vai possibilitar a cópia em larga escala e em intervalos de tempo muito inferiores.

O advento da imagem técnica dá-se por isso com o surgimento do negativo fotográfico e respectivo potencial de reprodução. A partir desse momento, a imagem técnica ocupou o lugar central na relação visual entre sujeito e real, assumindo-se como representação por excelência, forma única de registo parcial de um instante do real. Tal possibilidade técnica era absolutamente original. Enquanto uma pintura demorava no mínimo horas a realizar, já em 1880 se media o tempo de exposição de uma fotografia em segundos, criando-se assim uma nova relação com o tempo e com a capacidade de o representar.

A fotografia afirma-se quase de imediato face a outros dispositivos de reprodutibilidade de imagens, em função dos seus custos e portabilidade das imagens impressas a que dava origem. O processo de fixação do real inerente à fotografia trouxe consigo uma nova e original forma de percepção humana. Pela primeira vez na história, a imagem técnica possibilita a captura de um momento individual assim possibilitando, pelo menos aparentemente, que a própria experiência seja entendida como uma imagem. Ver algo passa a ser equivalente de experimentar algo!

Com a imagem técnica a visualidade torna-se fotográfica. Mas também se torna banal. Com efeito, a imagem fotográfica implica uma democratização do acesso às posições respectivas de produtor e receptor de imagens. Embora de início diversos fotógrafos, como Daguerre ou Fox Talbot, tenham tentado acerrimamente defender o estatuto elitista desta nova tecnologia, a rápida democratização do acesso à fotografia transformou-a quase instantaneamente num medium do povo, uma nova e poderosa ferramenta de fixação da perspectiva individual, de enquadramento do sujeito já não com o real, mas sim com a sua envolvente cultural.

Esta figuração da imagem técnica como objecto cultural, resultou numa organização social que estruturou a relação com estes bens em função daqueles que os consumiam e daqueles que os produziam. Consumidores e produtores eram figuras bem distintas, com as suas limitações e poderes, sendo que os primeiros estavam num lugar relativamente passivo face à imagem e os segundos assumiam, nomeadamente nos primórdios da imagem técnica, um estatuto quase divino, por via das capacidades únicas que possuíam de captar o sublime.

Para que esta relação se mantivesse ou até acentuasse, a modernidade não cessou de aprofundar o estatuto artístico destes novos meios tecnológicos. O que o cinema, a fotografia e o vídeo partilham entre si, para além de todos serem dispositivos tecnológicos destinados à produção e reprodução de representações visuais, é o facto de historicamente serem promovidos no interior da cultura que os vê nascerem como formas de arte.

Já afirmámos que a imagem técnica é toda a imagem que resulta do advento de um novo dispositivo tecnológico e respectivas capacidades de ser utilizado pelos sujeitos em ordem à produção e reprodução de imagens. Mas anteriormente também dissemos que não podemos limitar a compreensão destas imagens à análise dos dispositivos tecnológicos e que também nos devemos deter de forma prolongada na discussão dos papéis de sujeito que produz e sujeito que recepciona as imagens e respectivos contextos históricos e sociais. A exaltação da imagem técnica como momento de ruptura na história do visual, assenta no essencial na defesa de efeitos peculiares para cada um destes novos media. Tais argumentos enunciam uma especificidade dos media, que procura simultaneamente legitimar os mesmos em função dos seus efeitos originais, mas também estabelecer a posição desses dispositivos face a outros meios anteriores, e dos sujeitos face ao domínio do seu potencial representativo e expressivo
[6].

A evolução do aparelho tecnológico de produção de imagens que ocorreu no contexto mais vasto do processo de evolução da tecnologia
[7], teve um momento marcante com o advento de tecnologias, tais como a fotografia, que permitem a criação e a reprodução automática de imagens, dando com isso origem a uma forma original de fixação material da imagem visual: a imagem técnica. A questão que se coloca é a de percebermos se tal forma pode ser considerada uma categoria original de representação visual, ou apenas um refinamento tecnológico, por via do automatismo, de processos visuais de organização do real, anteriormente já existentes.

A questão do
automatismo está no centro de um longo debate em torno da especificidade do medium [8]. A relevância deste tipo de imagens para a nossa cultura, obriga a que se compreenda a relação entre o sujeito que percepciona a imagem e a imagem concreta, não mais em função das determinantes psicológicas e fisiológicas desta relação, mas sim em função de um conjunto de factores contextualizantes de natureza social e cultural, nomeadamente os métodos e tecnologias de produção, distribuição e reprodução destas imagens. A imagem técnica implicou uma proliferação da circulação e produção de imagens, processo esse de que resultou que a imagem originada no seio de uma prática artística deixou de ser a forma de representação visual dominante, para ser substituída, pelo menos no que se refere à representação da realidade ou partes desta, por imagens originadas fora do mundo da arte.

A imagem técnica situa-se no advento de uma cultura moderna dos media baseada na reprodutibilidade técnica das imagens. O surgimento da máquina no domínio da produção de imagens marca a separação entre a imagem manual e a imagem automática. A imagem produzida pelas máquinas, dispositivos tecnológicos originais que introduzem novas competências e formas criativas, é doravante dominante em todos os aspectos da cultura visual.

Se a fotografia é o meio primordial de compreensão do dispositivo tecnológico que promove a produção de imagens técnicas, o cinema e o vídeo vêm-lhe acrescentar novas modalidades e potencialidades, nomeadamente a dimensão temporal.

A imagem técnica é comummente entendida como esta imagem automatizada que surge com as máquinas da nossa modernidade. No momento em que a mediação técnica se torna generalizada e em que as máquinas parecem usurpar todas as actividades criadoras, muitos como Benjamim, vêem neste processo a fatalidade de uma modernidade que perdeu algo e que se viu contagiada por um mal que destrói o valor original das suas imagens.

A emergência das máquinas como dispositivos centrais para toda a mediação técnica acarreta um outro debate complementar, o do papel de cada novo medium na evolução da experiência do sujeito e da sua capacidade expressiva. A discussão em torno da especificidade do medium resulta em parte do facto de que a própria imagem técnica integra a materialidade do medium que a suporta, mas não contribui para a especificidade do mesmo nem para a sua essência
[9].

A concepção dominante de imagem técnica que temos vindo em parte a enunciar, classifica por via da originalidade do meio de produção e da especificidade do medium, a representação fotográfica e cinematográfica como distintas de outras formas pictóricas anteriores
[10]. Enquanto que a imagem manual assenta numa semelhança com o referente e respectiva representação, a fotografia, o cinema e o vídeo sustentam uma relação de identidade entre referente e representação. Tal argumento sintetiza o cerne da relação que temos vindo a discutir entre dispositivo e sujeito: a defesa da natureza da representação produzida pela imagem técnica como distinta de formas de representação anteriores; a existência de uma relação de identidade nessa forma de representação do referente real porque, elemento nuclear, ela só existe porque é produzida ou causada pelo referente e pela intencionalidade do sujeito.

Dispositivo, sujeito que cria e sujeito que visionam, encontram-se assim, de acordo com esta proposição, por via da mediação tecnológica, numa posição original de organização visual do real que só pode existir porque é apresentado por via do medium. Tal mediação tecnológica possibilita esta identidade entre a imagem e o modelo, em função de uma objectividade que resulta do processo mecânico e analógico que está na origem da produção da imagem. Assim, a imagem mecânica seria algo original em toda a história do visual, porque representaria pela primeira vez efectivamente a realidade.

Tais propostas não encontram eco em práticas de uso das imagens que replicam formas de representação anteriores, qualquer que fosse a sua natureza, e levam-nos sim a considerar que os modos de representação que encontramos na fotografia, no cinema e no vídeo, são determinados pelos usos que os sujeitos fazem destas tecnologias. A imagem técnica não é então essencialmente uma forma original de representação, nem mesmo de recepção das imagens. Os media que facilitaram a emergência das imagens técnicas, adaptaram-se a uma evolução da tecnologia que exigia respostas específicas dos mesmos e do seu uso. Mais determinante do que a natureza específica da representação que resulta da imagem técnica, é o facto de esta facilitar a disseminação em larga escala de imagens paradas e em movimento de três grandes categorias: a imagem impressa, a imagem projectada e a imagem ubíqua. Qualquer uma destas categorias é o resultado da evolução dos dispositivos e dos propósitos que os sujeitos encontraram para eles.

A enunciação contemporânea de uma “era das imagens”, onde a tecnologia digital anuncia novas e avassaladoras formas de poder visual, simulação e ilusão
[11], encerra, por via dos dispositivos de distribuição e produção de imagens, a anulação da separação anterior das formas de uso, entre produção e consumo, e marca o instante em que a imagem técnica deixa de ser, à semelhança de outros objectos culturais, como por exemplo os livros, algo de fixo e rígido, para adquirir uma plasticidade única na sua histórica.

Percebemos então que qualquer tentativa de categorizar as imagens técnicas, incorre necessariamente no risco de subordinar a natureza destas imagens ao contexto tecnológico do meio que suporta a sua produção
[12].

A imagem técnica foi um elemento central de uma sociedade moderna centrada no consumo de objectos culturais rígidos e com estruturas informacionais fixas. A imagem técnica é parte integrante e essencial de todos os objectos culturais que caracterizam uma cultura moderna do consumo. Se a imagem antes da reprodutibilidade técnica pode ser compreendida como sistema de objectivação da cultura, na medida em que mediatizava a relação entre o sujeito e os objectos do real, com a imagem técnica, esta não abandona o seu lugar de mediadora das práticas culturais, mas passa a ser profundamente afectada na sua criação, produção e distribuição, pelos media que facultam o seu consumo.

Com a imagem digital a imagem técnica adquire novos contornos. A imagem técnica da era digital pode ser alterada pelo seu receptor no acto de consumo, anulando-se assim uma distância entre o objecto cultural e o seu consumidor que presidia de forma essencial a práticas anteriores
[13].

A imagem técnica digitalmente codificada implica novas operações distintas da
reprodutibilidade que caracterizava as imagens técnicas da era analógica. A imagem digital perde rigidez e nesse processo o consumidor transforma-se em criador. Embora tal possibilidade já existisse no passado, por exemplo no domínio da montagem cinematográfica, ela exigia um volume de competências que já não se aplicam a objectos digitais que são por definição abertos à transformação. Mas este novo estágio de desenvolvimento das tecnologias do visual não anuncia o fim das formas de representação visual do passado e dos códigos que elas encerram. As imagens híbridas do futuro não estarão certamente libertas das prisões do realismo que marcaram a imagem técnica. Terão, isso é certo, é à sua disposição cada vez mais tecnologia de criação e produção que facilitará novos usos e projectos [14].

[1] Carrol, Noel, Beyond Aesthetics, Cambridge, Cambridge University press, 2001.
[2] Aumont, Jacques, The Image, London, British Film Institute, 1997; Machado, Arlindo, Máquina e Imaginário, São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1993.
[3] Crary, Jonathan, Suspensions of perception: attention, spectale, and modern culture, Cambridge: MIT press, 1999.
[4] Aumont, Jacques, The Image, London, British Film Institute, 1997.
[5] Mirzoeff, Nicholas, An introduction to visual culture, London, Routledge, 1999.
[6] Winston, B. Media Technology and Society, London, Routledge, 2003.
[7] Winston, B. Media Technology and Society, London, Routledge, 2003.
[8] Carrol, Noel, Theorizing the moving Image, Cambridge, Cambridge University press, 1996.
[9] Carrol, Noel, Theorizing the moving Image, Cambridge, Cambridge University press, 1996.
[10]Mitchell, William, The reconfigured eye: visual truth in the post-photographic era, Cambridge MA: MIT press, 1994.
[11] Mitchell, W.J.Thomas, Picture Theory, Chicago, Chicago University Press, 1994.
[12] Burnett, Ron, How Images Think, Cambridge MA, MIT press, 2005.
[13] Wood, Aylish, Digital Encounters, London, Routledge 2007.
[14] Manovich, Lev, “Image Future” in Animation. An interdisciplinary Journal, volume 1, number 1, July 2006, Sage Publications, pp: 25-44.

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