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ImagemImprimirDicionário critico

Imagem e Magia

José António Fernandes Dias

Do que falamos quando dizemos “imagem”? Do que falamos quando dizemos “magia”? Curiosamente, as duas palavras compartilham a mesma origem etimológica; ambas terão derivado do persa magus, magi. Mas, para além desta mesma origem etimológica há outras características em comum que poderão ajudar-nos a entender as várias relações que entre elas se estabelecem.

Palavras chave: magia; Antropologia da Imagem; imagem mental;religião; Marcel Mauss

O conceito de imagem parece-nos de fácil definição, mas só à primeira vista. Uma atenção mais demorada revela como é de difícil precisão. Quando olhamos para uma fotografia de uma pessoa, por exemplo, podemos distinguir entre a representação mental que dela fazemos, e os traços físicos na foto, linhas, formas, cores ou tonalidades que nos permitem identificá-la aí, na fotografia. Imagem mental, interior, e imagem física exterior. Distinguir entre a imagem dessa pessoa e o médium, neste caso a  fotografia. Não se trata porém de os considerar como duas entidades diferentes; antes de dois momentos numa relação entre o que vemos na fotografia e o que imaginamos, ou de que nos recordamos. “As imagens acontecem entre nós que as olhamos, e os seus médiuns, com que respondem ao nosso olhar”(1). Hans Belting é um dos autores recentes que abordam a imagem como uma configuração de diferentes parâmetros: a imagem, o médium e um olhar, lançado por um corpo; para alem evidentemente do modelo, ou protótipo, que está ausente e que é suposto o médium-imagem representar. De modo equivalente, Alfred Gell, não desde uma antropologia filosófica mas da antropologia social, adopta também uma perspectiva relacional na sua teoria antropológica da imagem (2): uma abordagem centrada na acção, em que objectos se fundem com pessoas porque existem relações sociais entre pessoas e coisas, e de pessoas com pessoas através de coisas – entre a imagem mediatizada ou objectificada, o seu produtor, o seu receptor, e o modelo.
Não podemos esquecer que são os humanos, homens e mulheres quem fabrica as imagens, as reconhece e lhes atribui sentido - elas têm uma pre-sença tão antiga quanto a da humanidade. E que é necessário considerar que todas as imagens se formam através de médiuns que lhes dão visibilidade, que todas as imagens visíveis estão obrigatoriamente inscritas num médium de suporte ou de transmissão. O que também é verdade nas
imagens mentais, em que o médium, vivo, é o nosso próprio corpo – um caso em que isso é ainda mais evidente é o das imagens dos nossos sonhos.
Também quando falamos de magia queremos referir e significar coisas muito diferentes: os rituais mágicos, o espectáculo mágico do ilusionista, a magia dos feitiços de amor, a magia do cinema. Mas de todos os seus usos relevam duas ideias fortes: a de acção, de efectividade, de ser capaz de produzir uma transformação no estado do mundo ou no estado mental; e a de remeter sempre para algo de extraordinário, de fantástico, algo que exerce fascínio. Aqui interessa-nos só a ideia de magia como uma prática ritual, paralela mas diferente da
religião. Marcel Mauss, um antropólogo que lhe dedicou uma grande atenção, refere-se à magia como a “arte do fazer”, uma espécie de técnica; uma “técnica do encantamento”, chama-lhe Alfred Gell. Mauss liga-a à imagem, já que “ela consegue substituir a realidade por imagens.” É com imagens que a magia opera, “não faz nada ou quase nada, mas em tudo faz crer, tanto mais facilmente quando põe ao serviço da imaginação individual forças e ideias colectivas.” (3)
Quando juntamos as duas, imagem e magia, e as relacionamos com a con-juntiva “e”, isso permite pensar em várias coisas. Tomemos o que costumamos identificar como imagens mágicas: amuletos e talismãs, estatuetas e figuras fetiche, inscrições e pinturas rupestres, ou qualquer coisa material a que se atribui vulgarmente poderes sobrenaturais, positivos ou negativos.
Ao contrário das coisas quotidianas, não são inertes e mudos; ao serem usados, segundo critérios culturalmente fixados, aproximam-se mais de capacidades atribuídas vulgarmente a pessoas, como vontade, acção. E.B. Tylor introduziu em 1871 o conceito de animismo para se referir à crença de que todas as coisas são animadas, têm alma. As imagens mágicas são normalmente identificadas com práticas rituais pré-históricas, primitivas ou populares, e os seus sentidos e objectivos variam consoante os seus contextos originais, mas também de acordo com a época em que foram estudadas e com a perspectiva teórica adoptada para esse estudo. Nas três disciplinas que desde o século XIX  prestaram maior atenção à magia e aos objectos mágicos, a antropologia da religião, a psicologia e particularmente a psicanálise, e a teoria económica e política marxismo, eles surgem tradicionalmente como erros da razão, perversões ou ilusões: o poder do amuleto e o seu (falso) valor de protecção, a manipulação de um sapato e a sua (falsa) capacidade de proporcionar gratificação sexual, a magia da mercadoria e o seu (falso) valor comercial.
Mas será necessário invocar crenças mágicas ou animistas para entender o que se passa? Qualquer pessoa se sente no mínimo incomodada com qualquer representação hostil que dela seja feita; e qualquer um de nós se sentirá atingido se vir uma fotografia sua a ser picada com pregos, cuspida, ou ostensivamente rasgada. Roy Ellen identifica quatro processos cognitivos envolvidos nestas situações, mostrando como  não constituem um tipo particular de pensamento, mas uma extensão e uma culminação possível do processo de objectivação das ideias (4).
Para perceber porque é fácil aproximar a imagem da magia é interessante pensar também nos textos (do latim textum, entrelaçamento ou tecido). Ambos são modos de comunicar; as palavras e as frases que lemos num texto, tal como as formas e cores que vemos numa imagem expressam alguma coisa sobre o mundo. Mas fazem-no de modos muito diferentes. A linguagem verbal é já um sistema de signos que não tem relações materiais com aquilo que representa; quando escrita, quando lemos um texto, académico, literário, jornalístico, publicitário ou de qualquer outro tipo, estamos diante de uma tessitura de palavras, opaca e distante daquilo que elas referem. Com a imagem não é assim; em vez da distância e opacidade entre o texto e o seu referente, a imagem é transparente e próxima, seja por semelhança com a aparência do seu referente, ou por contágio, por continuidade substancial com ele ou com algum aspecto seu. Veja-se por exemplo, e respectivamente, um desenho de Dürer de um coelho
e uma relíquia religiosa de Santo António ou uma relíquia desportiva de Pélé. Ou por outras palavras, a leitura de um texto remete para as ideias do autor, enquanto que as imagens são quase sempre remetidas ao referente que apresentam.

A imagem apresenta algo que está ausente, e que só está aqui presente como imagem. É nisto que reside a magia da imagem, de qualquer imagem, na contradição que caracteriza todas as imagens: elas tornam visível uma ausência transformando-a numa nova espécie de presença. É por isto que não podemos considerar o médium isolado (o desenho, a pintura, a fotografia); não é o médium que tem o poder de reengendrar o que está ausente, a magia é uma propriedade do olhar e não do médium. A imagem começa exactamente a partir do momento em que não vemos mais aquilo que é imediatamente dado no suporte material, mas outra coisa. E esse é o trabalho do olhar, do corpo. Deixamos de ver o médium para ver a coisa representada, por transparência; vemos o modelo, não a imagem médium; e é a ele, o modelo, que atribuímos o poder da imagem, poder de tornar presente. A imagem faz crer que não é uma imagem, faz-se esquecer como tal. Daí as relações de paixão ou de resistência, até à proibição e destruição das imagens em tantos contextos culturais e temporais. Nas religiões, na política, na arte. Em todos os tempos.

Bibliografia

(1) Hans BELTING, 2005, “Toward an Anthropology of the Images”, in Mariet WESTERMAN (ed), Anthropologies of Art. Sterling and Francine Clark Art Institute, p. 46.
(2) Alfred GELL, 1998, Art and Agency. An Anthropological Theory, Oxford University Press.
(3) Marcel MAUSS, 2003 (1902-1903), “Esboço de uma teoria geral da magia”, in Sociologia e antropologia, Cosac & Naifi, p.174.
(4) Roy ELLEN, 1988, “Fetishism”, in Man, 23,p.213-235

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