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ImagemImprimirDicionário critico

Fantasmagoria

José Manuel Gomes Pinto

"Arte de fazer aparecer os espectros ou os fantasmas por meio de ilusões ópticas", o termo fantasmagoria tornou-se de uso corrente no século XIX, remetendo para um conjunto de imagens técnicas. As imagem fantasmagóricas são sínteses operadas tecnicamente. É essa mediação técnica que a fantasmagoria dá a ver.

Palavras chave: espectador; imaginário; imaginação; percepção

O termo fantasmagoria tornou-se de uso corrente no século XIX. Uma das primeiras ocorrências do termo podemos encontrá-la num dicionário francês em 1886. A entrada diz: “arte de fazer aparecer os espectros ou os fantasmas por meio de ilusões ópticas"[1], que significa a imagem que o sujeito guarda depois da percepção se dar. A formulação do problema dos phantasmata para os gregos atinge a sua formulação acabada em Aristóteles ao afirmar que “[…] as imagens (phantasmata) tomam o lugar das sensações”[2], aquilo que a tradição latina veio a chamar imaginação. Phantasia é, assim, uma faculdade que se caracteriza pela estreita dependência da percepção. A descrição que Aristóteles faz da imaginação antecipa a possibilidade de entender o sentido de fantasmagoria: “[...] a imaginação deve ser um movimento produzido pela sensação operando activamente. E porque a visão é o sentido mais importante, o nome fantasia é derivado de phaos (luz), porque sem luz, é impossível ver”[4].

Esta é a razão pela qual o conceito fantasmagoria utilizado no século XIX se afasta do dos gregos. Fantasmagoria remete, ao contrário, para o conjunto das imagens criadas, das imagens técnicas. As imagem fantasmagóricas são sínteses operadas tecnicamente. É essa mediação técnica que a fantasmagoria dá a ver. Para perceber a imagem fantasmagórica, deve-se ter em conta que no acto natural da
percepção, não pode existir uma diferença temporal entre o ver e o visto, mas já na imagem produzida tecnicamente, na qual a posição do homem é sempre a de espectador, a imagem olha-o. Para seguir a formulação grega, a imagem técnica faz luz sobre o espectador, permitindo-o vê-la.
A imaginação é assim a “arte de fazer aparecer” mediante um procedimento natural. A fantasmagoria, será assim o fazer ‘aparecer’ mediante um procedimento técnico. A faculdade de criar imagens para Aristóteles é, justamente, a phantasia
[3]. Fantasmagoria tem origem na palavra grega phantasma.

Os dispositivos técnicos de criação de imagens são seculares, contudo, é só em 1798 que o belga Etienne Gaspard Robert apresenta pela primeira vez a Fantasmagoria como espectáculo, em Paris, a 20 de Janeiro no Pavilhão de L’Echiquer. O espectáculo está assente num mecanismo designado por Fantascope, um dispositivo que consegue projectar no mundo exterior uma imagem, e não, como acontecia com a camera obscura, somente a projecção de um objecto real numa superfície. Aí, Robertson –como se fazia chamar–, apresenta imagens de mitos provenientes da tradição grega e da judaico-cristã, fazendo também ‘aparecer’ personagens históricos, personagens que antes somente poderiam ter lugar na literatura e, por tanto, no imaginário [Fig. 1]. A fantasmagoria é assim pensada como algo audiovisual, tentando simular a percepção do acontecimento real. É assim que Robertson nos descreve o seu dispositivo e espectáculo: “A uma distância muito recuada, um ponto misterioso parece surgir: uma figura, primeiro pequena, se desenha, depois aproxima-se a passo lento, e a cada passo parece aumentar”[5].

Uma das condições da efectividade da fantasmagoria, é que, do lado de lá do dispositivo onde se projecta a imagem, os espectadores não são conscientes dos mecanismos técnicos que proporcionam a sua emergência, percebem apenas a sua condição técnica. O que é dado a perceber, enquanto imagem, percebe-se como se fossem perceptíveis naturais. Esta é, facto, a condição do espectador e da fantasmagoria que o cria: o dar-se conta de que aquilo que se percebe, se percebe numa distância que causa estranheza. A essência da fantasmagoria tem pois o seu princípio na estranheza que produz ao fazer percepcionar.

É por isso que a condição de possibilidade da fantasmagoria está dada neste diferendo temporal que se instala entre o perceber e do percebido e que constitui o espectador. O espectador dá-se conta de que está a percepcionar, e não somente percebe naturalmente. A imagem fantasmagórica interpela-o, olha-o. Mas é, contudo, na natureza própria do ver que está assente esse carácter interpelador do fantasma: a da ilusão produzida tecnicamente sobre o espectador, que afectará não só a sua percepção, mas a também sua emoção. Cria-se, assim, uma emoção de ver. Aquilo, pois, que distingue ‘imaginação’ e ‘fantasmagoria’ é, justamente, o carácter técnico desta última. Ou melhor, aquilo que se joga no proceder técnico do homem é justamente a distinção entre imaginário e fantasmagoria. O imaginário é conjunto das imagens que dizem do homem e que se inscreve historicamente mediante o proceder técnico: pela escrita, pela pintura, pelo desenho, a escultura, etc. A fantasmagoria, pelo contrário, não se dá na técnica, mas sim na possibilidade da técnica fazer aparecer. Fantasmagórica é a própria natureza da técnica. O fantasma tende por isso a ser diferido do seu motor técnico e aí obtém o seu carácter inquietante (Unheimlich). Ou seja, e para utilizar a terminologia aristotélica, a técnica funciona para com o fantasma como a luz para com o ver: é diáfana[6]. O fantasmagórico, a sua objectivação. Fantasmas, espectros são sempre revenants, são imagens que voltam, que regressam, nos revisitam. A essência da imagem fantasmagórica é a repetição, como notou Sigmund Freud[7]. A imagem fantasmagórica, enquanto imagem técnica, mecânica, é repetitiva porque traz sempre o aparecer do mesmo como outro (duplicação).

É, pois no ver, no seu mecanismo, e na técnica, enquanto emulação artificial desse mecanismo, que encontramos a forma e matéria dos fantasmas e da fantasmagoria. Toda a imagem, enquanto continuum da visão, é sempre repetição. Neste sentido, todo o olhar a imagem é fantasmagórico. É quando este olhar fica preso da técnica, fixado nela, que se constitui o seu próprio arquivo: a fantasmagoria. É certo que a sua formulação teórica se começa a delimitar no século XIX e partir da noção de simulacro[8]. Mas se o fantasmagórico se fixa com os românticos, tem porém as suas origens, em toda a possibilidade técnica da produção da imagem, qualquer que ela seja, mesmo o ancestral e arcaico esforço de a fixar na pedra.


[1]Milner, Apud Max, La fantasmagorie, Paris, PUF, 1982, p. 9.
[2]Aristotle, On the Soul, Cambridge-Mass., Harvard University Press, 1995, 431a14.
[3]Cfr., op. cit., 427b15: “mas a imaginação (phantasia) é diferente da percepção (aistheseos) como do pensamento (dianoias); a imaginação implica sempre percepção, mas esta é implicada pelo juízo (upolepsis)”.
[4]Op. cit., 429a32.
[5]‘Mémoires récréatifs, scientifiques et anecdotiques d’un physicien-aéronaute E. G. Robertson’. Paris: de Wurtz, 1831, 2 vol., p. 282. Apud Max Milner, op. cit., p. 11.
[6]Sobre o tema, veja-se Georges Didi-Huberman, Ce que nous voyons, ce qui nous regarde, Paris, Éditions de Minuit, 1999.
[7]As análises levadas a cabo por Freud no seu ensaio Das Unheimlich assentam justamente no mecanismo do ver, que é sempre o da duplicação: um fazer aparecer outro do mesmo. Neste sentido o conto de E.T.A Hoffman, O Homem de Areia, constitui para S. Freud o seu exemplo mais acabado. É assim que Nathanael, o personagem principal do conto, reage à interpelação de Coppola,: “Maldito homem, como podes ter tu olhos... olhos, olhos?”. E.T.A Hoffman, Der Sandman. Stuttgart: Reclam, 2003, p. 27. Sobre o assunto cfr., Friedrich Kittler, ‘“Das Phantom unseres Ich” und die Litteraturpsychologie: E.T.A. Hoffman-Freud-Lacan’, in F. A. Kittler und Horst Turk (Hrsg.), Urszenen. Literaturwissenschaft als Diskursanalyse und Diskurskritik, Frankfurt a.M.,: Suhrkamp, 1977, pp. 139-166.
[8]Sobre o tema crf, Boie, Bernhild, L’Homme et ses simulacres. Essai sur la romantisme allemand, Paris, Joseph Corti, 1980.

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