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Espectador

Jacinto Godinho

Fruidor passivo de imagens produzidas, o espectador é uma das mais importantes posições da experiência moderna. Observador e espectador não são duas meras funções a escolher como sinónimos. São duas das posições mais importantes da experiência moderna. Podemo-lo resumir da seguinte forma: os dispositivos ópticos modernos, exigindo à partida observadores tão activos como são os fotógrafos, os realizadores de cinema, os repórteres de imagem de televisão, os cientistas produzindo imagens fantásticas do interior do corpo humano ou confins do universo, produzem imagens que no final são consumidas numa posição tão passiva como a de espectador.

Palavras chave: antropologia da imagem; acontecimentos; visualidade; cinema; televisão

Na análise que faz do observador moderno, Jonathan Crary explica, a determinada altura, que prefere usar o termo observer em vez de spectator: “escolhi o termo observer principalmente devido à sua ressonância etimológica. Ao contrário de spectare, a raiz latina para spectator, a raiz de observer não significa literalmente “to look at”. Spectator também transporta conotações específicas, especialmente no contexto da cultura do séc. XIX, que prefiro evitar – nomeadamente a referência a quem é um passivo assistente de um espectáculo, de uma galeria de arte ou de um teatro”[1]. Contrariando até o tom geral da sua tese, Crary trata as diferenças entre observador e espectador como meras diferenças de figuras conceptuais e escolhe a que melhor se aplica às suas argumentações. No entanto, tanto espectador como observador (se os analisarmos em pormenor) são duas posições importantes da experiência que é preciso ter em conta. O ponto-chave, na análise de Crary, é a ideia de que o observador (tal como o leitor) não é apenas uma função que diz respeito ao campo específico das imagens, ou da arte, sendo antes uma posição central na experiência ocidental, cuja reorganização permanente (através de dispositivos visuais, alegorias, arenas, imagens, quadros, esculturas, arquitecturas e outras técnicas) tem implicações vastíssimas e complexas, tanto nos campos interiores da subjectividade como nos campos exteriores da política e restantes relações humanas.

O problema reside no facto de que os mesmos dispositivos ópticos que parecem performar um melhor observador (câmaras, microscópios, telescópios) optimizam também um melhor espectador, fruidor passivo das imagens produzidas. Observador e espectador não são portanto duas meras funções a escolher como sinónimos. São duas das posições mais importantes da experiência moderna, interligadas por aquilo que Jacques Ranciére apelida "o paradoxo do espectador" no texto The Emancipated Spectator [2]. Podemo-lo resumir da seguinte forma: os dispositivos ópticos modernos, exigindo à partida observadores tão activos como são os fotógrafos, os realizadores de cinema, os repórteres de imagem de televisão, os cientistas produzindo imagens fantásticas do interior do corpo humano ou confins do universo, produzem imagens que no final são consumidas numa posição tão passiva como a de espectador.


O paradoxo do espectador pode também ser colocado neste termos: nunca como na modernidade se foi tão longe na denuncia da passividade ignorante dos espectadores. Ecoa com força a critica de Platão ao espectador, esse sofredor passivo e ignorante de um espectáculo que apenas alcança com visão empírica. Mas também nunca como nos tempos actuais tantas posições de experiência foram revertidas para a posição do sujeito-espectador. Passamos cada vez mais a vida sentados, de cadeira em cadeira, de sofá em sofá: dos bancos da escola à cadeira do computador do trabalho; da sala de cinema ao sofá da televisão. Nas viagens de carro e avião, nas salas de concertos, nas bancadas dos estádios e em frente à Internet … o quotidiano vai-se vivendo mudando posições de espectador.


Guy Debord foi uma das vozes mais fortes na ampliação da critica e demonização da figura do espectador: “ quanto mais o homem contempla menos ele é”
[3]. A posição de espectador centra a experiência na visão e a visão separa e externaliza. Esta é para Debord a essência do espectáculo e tem como consequência a inautênticidade do humano. Recorde-se que o “olhar mau” ( mau olhado) é o do demónio e deriva do grego daiwn, que significa “o que divide”. Enquanto o “olhar bom” reúne, o “olhar mau” divide e separa os humanos.


A superação do espectador é central tanto Brecht como de Artaud que perseguiram a constituição do teatro fora da relação óptica. Um teatro sem espectadores ou antes com os espectadores transmutados na hora em participantes activos de uma performance colectiva. O termo performance é aliás um dos que lidera o combate contra a cultura do sujeito-espectador óptico. Foi adoptado tanto nas artes cénicas plásticas como nas artes plásticas e pretende contrariar a atracção dos espectadores pela preguiça no visionamento de um espectáculo apontando para uma experiência activa e participante na qualidade de observadores.

A solução para a cura desta “doença” (preguiça) estará na expulsão dos milhões de espectadores passivos para fora dos seus poderosos dispositivos de espectáculo (estádios, televisões)? Ou será que a critica não percebendo a complexidade da posição de sujeito-espectador está a deixa-la evoluir em vias subterrâneas e fora do controlo?


Hanna Arendt foi nas ultimas décadas uma das raras vozes, em contra-corrente, que procurou aprodundar a reflexão sobre a experiência do espectador. As suas coordenadas de pensamento sobre o assunto permitem-nos perceber porque é que o sujeito-espectador se tornou uma posição tão forte da experiência moderna.


Entre A Condição Humana e A Vida do Espírito, Arendt debate-se com uma frase de Catão que encerra o primeiro livro e inicia o segundo: "Um homem nunca está tão activo como quando não faz nada, nunca está tão acompanhado como quando está sozinho"
[4]. Arendt repara que a palavra theoria emerge da palavra grega para espectadores – theathai [5]. Esta existência de um sentido mais antigo da palavra detecta-o Arendt nas palavras de Diógenes Laertius: “A vida é como um festival; alguns de nós vêm ao festival para competir, outros para trocar a sua mercadoria, mas os melhores vêm como espectadores (theatai), tal como na vida os servos procuram a fama (doxa) ou o interesse, mas os filósofos procuram a verdade” [6]. O que é invulgar nesta frase de Diógenes é a importância dada ao espectador terreno em desfavor do feito (fama) heróico. A nobreza do gesto de “ser espectador” é para Arendt um enigma semelhante ao da frase de Catão. Uma nobre e importante acção deve estar associada ao ser espectador (theaths) que justifique ter uma importância suprema para os gregos. Mas que acção importante se realiza “assistindo” apenas?

 

Arendt percebe então que a “participação não activa”, de quem apenas observa, permite o exercício de uma função que se terá tornado fundamental na polis grega – o exercício de julgar. Julgar não só os actores no festival, mas as pessoas na vida, organizadas como referimos atrás, num viver representativo (entendendo a vida como um enorme stadion onde se actua para os deuses e para o seu julgamento).

 
Isto significa para Arendt que, se a theoria é o que é produzido por estes espectadores, então o fim pensável da teoria (theatai) tem mais a ver com o julgamentos de
acontecimentos do que com a contemplação e articulação de verdades eternas e necessárias. Esta interpretação da “teoria” mais próxima do logos e do juízo acaba por aclarar realmente como pode esta matriz, centrada no visual, ser um motor da experiência. A magia inebriante da representação teatral (alcançada mais tarde também pelo romance e pelo cinema) é a de conseguir que um indivíduo, sentado nuns degraus de pedra, guiado apenas pelos olhos e ouvidos e pelo pensamento, consiga estar “dentro da peça”. Esta estranha ligação (estar “fora” e estar “dentro”), a experiência de imersão do espectador (num outro presente paralelo ao seu tempo presente) é tão forte nos tempo modernos que não cessam de surgir dispositivos que nela se baseiam.


Será que, ecoando Catão, nunca estamos tão activos como quando somos espectadores?


Na discussão com Lessing sobre o Selbtsdenken, (pensamento próprio), Arendt defende uma outra forma de pensamento – o pensamento independente (ou desinteressado). O pensamento independente não é o do indivíduo que, isolado, olha para o mundo de forma a “harmonizar-se com o mundo através do pensamento”
[7]. O pensamento não se ergue do indivíduo, mas é o que o leva para fora de si: “O individual – que Lessing diria ter sido criado para a acção e não para o raciocínio – elege tal pensamento (independente) porque descobre nesse pensamento uma outra forma de se mover sobre o mundo”. Esta actividade, Arendt não a justifica pelos meios e fins a atingir, mas como uma finalidade em si. “Sair de si”, “reportar-se a”, é a experiência, é um novo começo, é o initium que é acção para não perder o pensamento.


O “pensamento desinteressado” o sair de si completa-se na posição de espectador desde que optimizado pela performance plena do pensamento. Zizek chama a esta intensa experiência do espectador "interpassividade". O problema é que na posição de sujeito-espectador actuam forças opostas. Entre a visual preguiça de quem vê telenovelas ou a intensa performance de quem, também parado e sentado no sofá, assiste a um intelectualmente exigente filme de David Lynch conflitua toda a experiência do espectador. Nunca o homem está tão activo como quando está parado mas também é possível que nunca se anule tanto como no sofá frente à televisão. A batalha não se ganha superando o espectador. Trava-se na interpassividade. Ecoando Catão é uma batalha decisiva porque é a do pensar.

Seria arrogância atribuir à
arte pré-histórica a responsabilidade pelo nascimento da experiência do espectador. As imagens gravadas nas pedras e pintadas nas grutas podem até ser tomadas como dispositivo de espectáculo porque o passado é sempre generoso a acolher as forçadas interpretações do presente. O que interessa é que sejam actualmente, ainda, imagens dotadas com forte potencial de interrogação. Tornam-se por isso dos mais válidos desafios colocados ao sujeito-espectador e ao aprofundamento da experiência interpassiva.

[1] Crary, Jonathan Techniques of the Observer on Vision and Modernity in the Nineteenth Century, Cambridge, Massachussets, MIT Press, 1992, p. 5.
[2] Jacques Rancière apresentou a conferência "The Emancipated Spectator" na abertura da Quinta Academia Internacional de Verão em Frankfurt no mês de Agosto, 2004.

 [3] Debord, Guy, A Sociedade do Espetáculo - comentários sobre a sociedade do espetáculo, trad. Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: ed. Contraponto, 1997. p. 24-25.
[4]Tradução do latim “Numquam se plus agere quam nihil cum ageret, numquam minus solum esse quam cum solus esset”.
 [5] Plural de QEATHS (Theaths).

[6] Arendt, Hannah Men in Dark Times, New York: Harcourt, Brace and World, 1968, p. 105.
[7] Arendt, Hannah Men in Dark Times, New York: Harcourt, Brace and World, 1968.

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