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Cinema

Teresa Castro

Abreviatura de "cinematógrafo" - aparelho inventado por Louis Lumière em 1895 -, o cinema refere-se, antes de mais, a uma tecnologia que permite reproduzir a ilusão de movimento através da projecção luminosa de imagens fixas (ou, neste caso, fotogramas). Fenómeno essencialmente urbano, o cinema encontra-se intimamente associado à modernidade, em particular às transformações ocorridas a nível da percepção e da estimulação sensoriais. Arte, indústria de entretenimento e/ou poderoso meio de propaganda, o cinema e a sua história são feitos de avanços técnicos, de aventuras e desventuras comerciais e de uma série de aspectos estéticos, ideológicos e sociais.

Palavras chave: arte moderna; percepção; projecção.

Abreviatura de "cinematógrafo" - aparelho inventado por Louis Lumière em 1895 -, o cinema refere-se, antes de mais, a uma tecnologia que permite reproduzir a ilusão de movimento através da projecção luminosa de imagens fixas (ou, neste caso, fotogramas).
Se a primeira apresentação pública do cinematógrafo Lumière, realizada em Paris no dia 28 de Dezembro de 1895, é habitualmente considerada como a data de nascimento oficial daquela que viria mais tarde a ser considerada como a sétima das artes, a invenção do cinematógrafo inscreve-se num contexto científico particular, marcado pela sucessão de estudos sobre o movimento.
Neste âmbito, os trabalhos fotográficos de decomposição do movimento humano e animal levados a cabo pelo fotógrafo inglês Eadward Muybridge [
Fig. 1] e o fisiologista francês Étienne-Jules Marey em finais do século XIX são especialmente importantes, antecipando alguns dos princípios técnicos do aparelho Lumière. A invenção da tecnologia cinematográfica é ainda inseparável de todo um conjunto de brinquedos ópticos, como o taumatoscópio, o fenacistocópio ou o zootrópio. Explorando o fenómeno da persistência retiniana como forma de recriar a ilusão do movimento, estes objectos são hoje unanimemente reconhecidos como fazendo parte da arqueologia do cinema, a par das lanternas mágicas e fantasmagorias, cujo dispositivo de projecção luminosa de imagens partilha com o espectáculo cinematográfico diversas características. A reacção dos primeiros espectadores face às projecções das "fotografias animadas" dos irmãos Lumière foi muitas vezes de espanto ou de receio, um sentimento resumido pela célebre fórmula de Máximo Gorky segundo a qual o cinema seria um espectral "reino das sombras". As condições materiais do dispositivo cinematográfico, comparado por alguns autores a uma moderna caverna de Platão, contribuíram, certamente, para esta situação. Sentado - e imobilizado - numa sala obscura, o estado psíquico do espectador diante do écran assemelha-se a um transe hipnótico ou a um sonho, uma situação explorada e estimulada pelo dispositivo fílmico do cinema narrativo clássico [Fig.2].

Fenómeno essencialmente urbano, o cinema encontra-se intimamente associado à modernidade, em particular às transformações ocorridas a nível da
percepção e da estimulação sensoriais. Autores como Walter Benjamin e Siegfried Kracauer foram pioneiros ao observar como a descontinuidade da percepção e os choques sensoriais característicos da vida nas grandes metrópoles prepararam a recepção da tecnologia cinematográfica e da experiência visual que ela proporciona. Para além de constituir uma tecnologia, o cinema é também uma experiência visual singular, inscrita numa história cultural do olhar e das sensações visuais[1].

Ainda que os seus inventores o destinassem a uma utilização exclusivamente científica, o cinematógrafo transformou-se rapidamente numa atracção popular, provocando o desenvolvimento de uma indústria competitiva e dando origem a modos de representação particulares.

O cinema dos primórdios ou "primitivo" (anterior a 1915) corresponde ao modelo conhecido como "cinema das atracções"
[2], isto é, um modo de representação caracterizado pela estimulação directa do olhar do espectador, em particular por via do choque ou da surpresa. Ainda que muito diferentes, tanto os filmes produzidos pelos irmãos Lumière como os filmes realizados pelo ilusionista Georges Méliès pertencem a este modelo, as vistas Lumière fascinando essencialmente pelos seus célebres "efeitos de realidade" (o movimento das folhas de árvore no fundo de A refeição do bebé) e as cenas de Méliès chamando a atenção pelos seus truques inventivos.
Face ao modelo clássico imposto progressivamente pelo cinema narrativo, o "cinema das atracções" privilegia a visibilidade e a dimensão literalmente espectacular do dispositivo cinematográfico.
Em ruptura directa com este modelo, os filmes do realizador americano D. W. Griffith, em particular O nascimento de uma nação (1915) e Intolerância (1916), constituem um marco importante. Insurgindo-se contra a frontalidade da câmara e a unicidade do ponto de vista, Griffith explora nos seus filmes uma lógica sequencial, servida pela montagem em paralelo ou alternada, que representa uma ruptura radical em termos de linguagem cinematográfica e anuncia o triunfo do estilo narrativo hollywoodiano.

Apesar da hegemonia comercial de Hollywood (consolidada durante a Primeira Guerra Mundial), a história do cinema mudo (1915-1929) é uma história de cinematografias nacionais particularmente inventivas (europeias, soviéticas, asiáticas), em que se destacam obras tão diferentes como A roda do francês Abel Gance (1923), O couraçado Potemkine (1925) do soviético S. M. Eisenstein, Metropolis do alemão Fritz Lang ou A paixão de Joana d'Arc (1929) do dinamarquês Carl Th. Dreyer. Em 1927, um filme da Warner Bros, O cantor de Jazz, anunciava a passagem do cinema à era sonora. Porém, tal como no caso da cor, inúmeras experiências antecipam o feito da produtora americana.

Arte, indústria de entretenimento ou poderoso meio de propaganda, o cinema e a sua história são feitos de avanços técnicos, de aventuras e desventuras comerciais e de uma série de aspectos estéticos, ideológicos e sociais. Combinação de "formas fílmicas" (ditadas pela escala dos planos, os movimentos de câmara, a incarnação de pontos de vista, a velocidade da imagem, etc.), expressão de diferentes géneros (animação, comédias, documentários, fantástico, filmes "noir", westerns, etc.) ou correntes (caligarismo, neo-realismo, "nouvelle vague", experimental, etc.), a história do cinema resiste a periodizações (cinema dos primórdios, cinema mudo, cinema clássico hollywoodiano, cinema moderno, cinema contemporâneo?) e a generalizações que ignoram tanto a heterogeneidade das inúmeras cinematografias nacionais e transnacionais (cinema hollwyoodiano, cinema indiano, cinema africano, etc.) como a singularidade dos seus "autores" (Renoir, Hitchcock, Godard, Oliveira, etc.).

Confrontado actualmente com o impacto das tecnologias digitais e com a reconfiguração dos sistemas de produção, distribuição e consumo de imagens, o futuro do cinema, velho de apenas um século, surge, aos olhos de alguns, como profundamente ameaçado e incerto. Outros insistem sobre o fenómeno de "migração das imagens"
[3], tentando repensar a história da arte do século XX à luz do cinema, entendido como modo de pensar sobre (e com) as imagens.


[1] Crary, Jonathan (1992), Techniques of the Observer on Vision and Modernity in the Nineteenth Century, Cambridge, Massachussets, MIT Press.
[2] Gunning, Thomas (1990), "The Cinema of Attractions: Early Film, Its Spectator and the Avant-Garde", in Elsaesser, Th. (ed.), Early Cinema: Space, Frame, Narrative, London, BFI, pp. 56-62.
[3] Michaud, Philippe-Alain (2006), « Le mouvement des images », in Le Mouvement des images
(catálogo da exposição), Paris, Centre Pompidou, pp. 15-30.

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