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ImagemImprimirDicionário critico

Automatismo da Imagem

Teresa Castro

A noção de automatismo da imagem diz respeito à natureza mecânica e automática do processo de produção e de reprodução das imagens. Neste âmbito, a invenção da fotografia constitui um acontecimento essencial, uma vez que as imagens fotográficas resultam da inscrição duma impressão luminosa sobre a superfície sensível da película. Durante o momento de exposição, esta operação escapa à intervenção de um sujeito humano: é precisamente a génese técnica das imagens (e aqui, génese óptico-química) que nos permite falar de automatismo a seu respeito. Naturalmente, a prática fotográfica encontra-se também condicionada por uma série de gestos codificados que dependem da acção humana, como escolha do tema a fotografar, do tipo de aparelho e de película a utilizar, do tempo de pose, do método de revelação, etc. A noção de automatismo da imagem diz apenas respeito ao instante – simbólica e teoricamente importante –de fixação de uma impressão luminosa.

Palavras chave: fotografia, reprodutibilidade da imagem, calotipo

Referindo-se à fotografia, o crítico e pensador francês André Bazin escreveu: “pela primeira vez, uma imagem do mundo exterior forma-se automaticamente sem intervenção criadora do homem, segundo um determinismo rigoroso (...). Todas as artes foram fundadas com base na presença do homem; com a fotografia, desfrutamos da sua ausência” (Bazin 1958).

Se a invenção da fotografia é particularmente importante para compreender a noção de automatismo da imagem, o processo de automatização da representação precede largamente a invenção da tecnologia fotográfica. Uma etapa importante corresponde ao aperfeiçoamento da perspectiva e das técnicas de projecção ocorrido durante o Renascimento. A partir de então, o trabalho de inúmeros artistas tornou-se indissociável de uma série de etapas técnicas, servidas por um conjunto de instrumentos ópticos.
A disseminação de camerae obscurae como auxiliares do desenho e da pintura a partir de finais do século XVI constitui talvez o exemplo mais flagrante da automatização progressiva do processo de criação de imagens (Hockney 2001). Inicialmente quartos escuros permitindo capturar imagens do exterior através do fenómeno de refracção da luz, as camerae obscurae transformam-se, no século XVII (e graças ao astrónomo Johannes Kepler), em objectos portáteis.

A moda das vistas perspécticas ou vedutae (pinturas realizadas com o auxílio de camerae obscurae) torna-se então particularmente forte em Veneza, tal como o ilustram as obras de pintores como Canaletto, Bernardo Bellotto ou Francesco Guardi. No que diz respeito ao processo de reprodução das imagens, a invenção da imprensa e o desenvolvimento das técnicas de gravura que a acompanham constituem um outro aspecto importante. Na verdade, a noção de automatismo da imagem é indissociável do debate em torno da sua
reprodutibilidade.

Regressando à
fotografia, observe-se que a noção de automatismo se encontra ainda associada à ideia de realismo representativo da imagem fotográfica. Durante o século XIX, diversos comentadores reconhecem no processo óptico-químico da fotografia o garante do mimetismo, da neutralidade e da objectividade das imagens. A fotografia é então interpretada como uma imitação objectiva da realidade devido à sua génese mecânica (ainda que, paradoxalmente, um certo halo de magia envolva durante todo o século XIX as suas origens químicas e ópticas). A condição automática da tecnologia fotográfica justificaria ainda a distinção entre fotografia e arte. A primeira, instrumento de uma memória documental do real, seria fruto da racionalidade e da neutralidade duma máquina, enquanto a segunda, criação imaginária, derivaria da mão e do génio do artista. De acordo com esta mesma lógica, inúmeros autores (entre os quais o acima citado André Bazin) proclamaram que a fotografia, instrumento fiel de reprodução do real, teria vindo libertar a arte, e em particular a pintura, do “complexo da semelhança” (Bazin 1958).

A questão do realismo e do automatismo da imagem evoca um outro aspecto essencial: a relação da imagem com o seu referente externo. A fotografia é uma arte referencial em que a representação ocorre por contiguidade física do signo com o seu referente. Tal como explica o filósofo americano Charles Sanders Peirce: “as fotografias, em particular as fotografias instantâneas, são muito instrutivas porque sabemos que em certos aspectos se assemelham exactamente aos objectos que representam. Mas esta semelhança é na realidade devida ao facto de estas fotografias terem sido produzidas em circunstâncias em que estavam fisicamente forçadas a corresponder ponto por ponto à Natureza” (Peirce 1978). Segundo Peirce, as fotografias correspondem assim a uma classe de signos particular: os índices. Estes últimos distinguem-se dos ícones, em que a representação se efectua por semelhança, e dos símbolos, uma forma de representação por convenção geral.

A questão do automatismo da imagem conheceu desenvolvimentos importantes com o desenvolvimento do cinema e da televisão. Actualmente, o progresso das tecnologias digitais e da realidade dita “virtual” veio alterar radicalmente os dados do problema, trazendo para a ribalta a questão do automatismo. Em ruptura franca com a lógica figurativa da visão e da representação ópticas, os novos processos de criação e de reprodução da imagem transformam o automatismo analógico num automatismo digital, que procede por tratamento numérico da informação e simulação da imagem.


Bibliografia 

André BAZIN, “Ontologie de l’image photographique”, in Qu’est-ce que le cinéma?, Paris, Éditions du Cerf, 1958.
Edmond COUCHOT, La technologie dans l’art. De la photographie à la réalité virtuelle, Nîmes, Jacqueline Chambon, 1998.
Philippe DUBOIS, O Acto fotográfico, Lisboa, Vega, 1992.
David HOCKNEY, Secret Knowledge. Rediscovering the Lost Techniques of the Old Masters, London, Thames and Hudson, 2001.
Charles S. PEIRCE, Écrits sur le signe, Paris, Les Éditions du Seuil, 1978.

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