Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

CulturaImprimirDicionário critico

Viagem

Eusébio Almeida

Falar do conceito alargado de viagem é falar de uma multiplicidade de camadas de significado que parecem estar longe de poder traduzir os vários níveis de sentido implícitos, muitas vezes, na experiência instável (líquida, mole, flutuante, indefinida, errática, estriada, sulcada, nomádica e trajectiva) que resulta da prática de um determinado espaço (território) à medida que este vai permitindo a transformação constante de quem o percorre (torção do corpo), e daquilo que é percorrido (torção do espaço), quase como se estivéssemos em permanente conflito com aquele «outro espaço», a que Deleuze e Guattari chamaram de sedentário. Este seria, porventura, um espaço capaz de nos prender, exilar, fixar, e acorrentar permanentemente à estabilidade demasiado paradoxal do real, impedindo-nos assim de assegurar uma prática de transformação e de descoberta dos espaços percorridos e a percorrer, quase como se não quiséssemos penetrar na chamada «escola da sobrevivência ou da bravura» do espaço, isto para usar uma expressão de Michel Crépu, escrita num texto dedicado a George Steiner, quando este reflectia a respeito do brilho resplandecente da «vida em acto» de Goethe1.
 

Palavras chave: contemporâneo, corpo, cibercultura, Land Art.

Na prática, será este o sentido original da estética e da política da viagem? Será este o sentido recorrente da procura de um novo caminho? Será este o sentido primeiro da liberdade do êxtase de continuarmos a caminhar/viajar como uma espécie de nómadas inquietos? Com ou sem estes sentidos, a verdade é que é entre estes e muitos outros espaços, é entre estes e muitos outros mecanismos (entre o real e o virtual, entre a ficção e a vida), que procuraremos, cada um à sua própria maneira, os pressupostos conceptuais, e os dispositivos deambulatórios e trajectivos, que nos permitam continuar a traçar os contornos inquietantes desta breve viagem pelas margens flutuantes do nomadismo contemporâneo (actual, contemporâneo).

É neste sentido, aliás, que nos interessa continuar a percorrer esses «lugares de passagem» de que falava W. Benjamin, a propósito da sua própria experiência de «viajante do exílio/andarilho sem rumo preciso», quase como se quiséssemos perseguir e praticar a inquietante experiência da viagem, não só a partir da fuga do real que está sempre em movimento em direcção à ficção, como também a partir da fuga da ficção que está sempre em movimento em direcção às múltiplas camadas do real. Quase como se este movimento ziguezagueante em direcção às infinitas incertezas da textura do mundo nos impelisse constantemente a fugir do anestesiante espaço do estar para o inquietante espaço do andar. Aí, onde se inscrevem, apenas, alguns dos nossos passos, dos nossos rastos, dos nossos gestos, já que «o espaço nómada é um espaço vazio e infinitamente desabitado. (...) um deserto de onde resulta uma difícil orientação, que é igual a um imenso oceano onde a única marca reconhecível é aquela deixada pelo próprio andar, uma marca móvel e evanescente (...), já que a essência do nomadismo é o lugar onde se celebra quotidianamente o ritual do eterno errar», diria ainda Francesco Careri2.

Ou seja, é entre esta vertiginosa necessidade de viajar sem parar (deslocação física), e a vertiginosa necessidade de andar sem sequer se deslocarem (fisicamente), como uma espécie de «turistas sentados»)3, que vários artistas tem traçado alguns dos seus mais interessantes projectos artísticos, quase como se desejassem compor e recompor uma espécie de «autobiografia nómada», isto é, quase como se ainda fosse necessário continuar a passar o muro, a furar a rede, a saltar por cima de uma qualquer fronteira, e mesmo que essa fronteira não exista, e muitas vezes não existe mesmo, ou parece não existir, a verdade é que estes artistas continuam a sentir a necessidade de cartografar novas «linhas de fuga» (Deleuze) na tentativa de intervir na plasticidade ondulatória do espaço (por mais impenetrável que ele possa parecer).


Foi, aliás, a partir deste pensamento que Smithson (ao contrário de Richard Long que o apontava como uma espécie de «urban cowboy» incapaz de praticar o espaço) se lançou para os destroços dos subúrbios do mundo, em busca de uma nova viagem4, de um novo espaço, e de uma nova paisagem («paisagem entrópica»), na tentativa de formular novas perguntas e respostas sobre as inúmeras contradições do espaço micro-utópico do andar (do «andar como prática estética»). No fundo, Smithson, entre o «caçador do paleolítico e o arqueólogo de futuros abandonados», tentava reflectir sobre alguns dos muitos destroços do pensamento e da cultura, não só em busca de uma espécie de «transformação simbólica do território ameaçado», mas também em busca de uma espécie de «construção de novos lugares», segundo as palavras de Rosalind Krauss. Nesse «campo expandido» da enorme escultura da vida, Smithson dizia, a propósito das suas viagens de exploração aos territórios "virgens e marginais" de Passaic River (a sua terra natal), que para ele a «viagem» era uma espécie de «odisseia suburbana, uma epopeia pseudoturística que parecia preservar as presenças vivas de um espaço em vias de destruição (extinção), ou seja, um lugar que trinta anos mais tarde viria a ser chamado precisamente de não-lugar»5.

Muitas destas viagens protagonizadas não só por Smithson6, mas também porRichard Long7, Tony Smith, Walter de Maria, R. Morris, Dani Karavan, Hamish Fulton (que se auto-denominava precisamente de walking artist), e de muitos outros artistas, pretendiam documentar aquilo a que poderíamos chamar uma espécie de micro-utopia do «andar como prática estética», isto para recorrer novamente às palavras de Francesco Careri.

Esta micro-utopia nomádica, tal como a temos vindo a desenhar (símbolo do eterno errar), parece remeter-nos também para uma espécie de pequena história do andar. Neste caso, o andar, não só como forma de intervenção social, cultural e humana, capaz de conter todos os ingredientes simbólicos de um primeiro acto criativo (Adão e Eva), e de um primeiro acto criminoso (Abel e Caim), mas também o andar como essa forma de experiência que foi percorrendo os «destroços» da «história da humanidade» (que é, no fundo, a história do nomadismo), até chegarmos ao século XX/XXI, onde se podem encontrar algumas das experiências mais interessantes desta pequena/grande história do «andar como prática estética».

Algumas dessas experiências estariam ligadas, segundo Careri, não só ao Dadaísmo, ao Surrealismo, à deambulação da escrita automática, aos passeios do flâneur pelas ruas das grandes cidades, à Internacional Letrista, à Internacional Situacionista, e à «Teoria da deriva» dos anos 50/60, como  também às primeiras imagens de uma cidade verdadeiramente nómada, como a de Guy Debord e Asger Jorn, ou ainda à cidade labiríntica de Constant, na sua New Babylon, etc. No entanto, foi só a partir da segunda metade do século XX, que se terá começado a considerar a «prática do andar» como uma verdadeira prática artística (através do movimento da
Land Art) capaz de proporcionar a uma nova geração de artistas a possibilidade de intervirem  directamente na paisagem inquietante do mundo (tendo sido  esta  considerada, aliás, durante muito tempo,  como o seu único suporte de inscrição/intervenção). Alguns desses artistas (já referidos), seriam, por exemplo Walter De Maria, que para além da sua famosa - Cama de Pregos (1968/69), também terá percorrido, furiosamente, milhares e milhares de quilómetros atrás de uma qualquer «paisagem distópica», isto só para referir essa espécie de construção sem qualquer tipo de estrutura modular que é a sua Escultura de Cinco Continentes (formada por rochas provenientes de cinco continentes, colocadas dentro de paredes de vidro, quase como se ele as quisesse fixar no sistema de dupla projecção do espelho incandescente do deserto).

Nesta perspectiva, teríamos também o exemplo desse infatigável caminhante que foi Richard Long, que a partir da sua - Line Made by Walking, terá traçado uma das mais inquietantes metáforas do século, e de todos os séculos (a metáfora do perigo do eterno caminhar), ou seja, uma forma de work in progress que parecia ganhar autonomia a partir das cartografias tautológicas da sua própria ausência/presença.Teríamos, ainda, o inquietante Smithson (A Tour of the Monuments of Passaic), e a sua tentativa de "habitar" as partes mais obscuras de uma cidade abandonada ao seu próprio futuro, quase como se andar através desses «espaços vazios» da periferia contemporânea, fosse uma forma de sentir os fantasmas do  perigo vertiginoso de estar vivo, etc. É verdade que também não podemos esquecer as intermináveis viagens de Tony Smith pelas auto-estradas em construção da periferia nova-iorquina (publicadas na revista Artforum), nem os 2.000 quilómetros (o comprimento total da grande muralha da China), percorridos em 90 dias por Marina Abramovic e Ulay (1988), em sinal da sua separação definitiva como casal de artistas. Aliás, com a performance denominada "The Lovers" (Os Amantes), Abramovic e Ulay terão caminhado em direcção um ao outro, partindo cada um deles do extremo oposto da muralha da China, para entretanto se separarem de novo, agora, para sempre, transformado assim a sua experiência pessoal (de separação definitiva), na encenação de uma inquietante geometria do amor, quase como se a dolorosa divisão das suas biografias individuais parecesse o resultado inevitável das inquietantes leis da vida, etc.


Enfim, entre estas viagens, e muitas outras viagens levadas a cabo por Stalker, a partir de 1995, e da importância do seu conceito de «amnésia urbana», e as viagens de Guillermo Gomes-Pena e Roberto Sifuentes (esses «sísifos» de um mundo sem fronteiras), a verdade é que as práticas do andar, do «andar como prática estética», parecem ter alimentado muitas das inúmeras viagens/caminhadas que vieram a caracterizar esses projectos trajectivos ou nomádicos (que temos vindo a referir), isto antes de sermos como que transformados em meros flâneurs de uma viagem virtual, ao longo da «Cidade Legível» de Jeffrey Shaw/Dirk Groeneveld, quase como se cada movimento do
corpo, em cima dessa bicicleta interactiva, nos quisesse oferecer uma variedade infinita de recombinações possíveis, nesse espaço «eufórico», e «disfórico», pouco denso, extenso, tenso, liso, mole e radicalmente virtual das viagens trajectivas do on-line.

Aí, nesse «ponto onde a cópia deixa de ser cópia para se transformar no real e no seu próprio artifício», esse artifício interactivo que nos permite «vasculhar o império romano, as cidades mexicanas, os deuses gregos e os continentes descobertos e a descobrir, para extrair esse excesso de realidade, e constituir o tesouro das torturas paranóicas e das glórias celibatárias, quase como se fossemos todos os massacres e também todos os triunfos da história (...); tal é, segundo a fórmula de Klossowski (...) o verdadeiro programa de um teatro da crueldade ou a encenação de uma máquina produtora de real»8, que parece transportar o espaço dos nossos sonhos, e das nossas mais altas ambições, para um qualquer outro espaço (ciberespaço), onde o mundo parece estar apenas à distância de um simples click. Quase como se já não precisássemos mais de percorrer, de pisar, de circular, de viver, e de praticar o espaço irregular das estradas secundárias onde um dia aprendemos a sentir o prazer de percorrer as distâncias do espaço (físico) em direcção à liberdade do fio do horizonte (onde podíamos, afinal, deixar a marca dos nossos passos, o traço dos nossos gestos e a força dos nossos actos). É verdade que deixámos de percorrer essas distâncias, quase como se já não precisássemos mais de subir ao cume de uma montanha (mesmo que mágica). Estaremos nós fartos de suportar a escala reduzida das grandezas naturais? Estaremos nós fartos de respirar o ar puro das mais baixas camadas da atmosfera onde fomos habituados a viver? Estaremos nós preparados para questionar aquilo que vai acontecendo à nossa volta - («mundo negro, mar crescente: uma máquina solitária ronca na praia, uma fábrica atómica instalada no deserto», um chip digital integrado no crânio, uma perna de borracha a saltar de prazer, uma lente misturada com a nossa carne, etc. etc.).

Enfim, parece que transpusemos todas as barreiras, parece que integrámos todas as descobertas, que experimentámos todos os perigos, que conquistámos todas as formas de liberdade. O que é que nos resta? O que é que nos resta? Paul Virilio diria, resta-nos «encontrar o tacto, o toque da marcha, o toque do alpinismo, o prazer da viagem e da navegação (tal como Gérard d'Aboville, para quem o andarilho e o remador eram uma espécie de profetas em vias de extinção), ou seja, sinais de uma outra divergência, de um regresso à física, à matéria, sinais de uma rematerialização do corpo, do espaço e do mundo». Mas não será tudo isto demasiado insuportável? Não será tudo isto demasiado perigoso? Não seremos, doravante, apenas meros flâneurs interactivos dessa grande bolha tecnológica em que o mundo se veio ou virá a transformar? Não seremos, afinal, meros corredores ofegantes, meros nómadas inquietos, duma verdadeira viagem interactiva à volta do mundo, não em 80 dias, como a de Júlio Verne, mas em não sei quantos nanomilésimos de segundo, quase como se tivéssemos a estranha sensação de ter rompido com todos os «os muros do asilo» (Roger Gentis), em nome de mais um pouco de ar livre, de mais uma nova relação com o exterior, ou apenas em nome dessa «liberdade livre», de que falava Rimbaud?!

Ou então, como refere Saint-Exupéry (o aviador, mas também o escritor) quando escreve a propósito da viagem que  o Principezinho fez ao estranho planeta Terra, ao dizer que «Depois de ter caminhado durante muito tempo e de só ter encontrado areia, rochas e neve, o principezinho acabará finalmente por descobrir um caminho ou uma estrada». Por isso, feliz quem fizer uma boa viagem, porque a viagem, essa, não acaba nunca.

____________________________________________________________________________________ 

Bibliografia

1 Steiner, George - O silêncio dos livros (seguido de Esse vício ainda impune), de Michel Crépu, Lisboa, Gradiva (2007), p.62.

2
Careri, Francesco, Land&ScapeSeries: Walkscapes - El andar como práctca estética/Walking as an Aesthetic Practice, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, sa (2002), pp.38 e 42.

3 Hoje em dia, somos cada vez mais uma espécie de «turistas sentados» à frente do computador. Esta urgência de andarmos sem sequer nos deslocarmos (fisicamente), será uma das abordagens a fazer, posteriormente, quando desenvolvermos mais detalhadamente algumas das questões relacionadas com a hiperficção, a interactividade, e as múltiplas «retóricas» do link...etc.

4 Para uma análise mais detalhada desta noção de «viagem», para além do Anti-Édipo de Deleuze, ver também Jacques Besse, «Le Danseur», in La Grand Paquê, ed.Belfond, 1969 (toda a primeira parte deste livro descreve o passeio do esquizo na cidade; a segunda parte, «Legendes folles», descreve o processo algo alucinatório da viagem a partir de determinados episódios históricos). Deleuze, Gilles; Guattari - O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia. Lisboa, Assírio&Alvim, pp.88-91.

5 Careri, Francesco - Land&ScapeSeries: Walkscapes: El andar como práctica estética/Walking as an aesthetic practice, Barcelona, Editorial Gustavon Gili, SA (2002), p.160. Para uma análise mais detalhada deste conceito convém consultar também o livro de Marc Augé, denominado precisamente de «Não-Lugares. Para uma Antropologia da Sobremodernidade» (Bertrand Editora).

6 R.Smithson (cujos projectos favoritos eram a recuperação artificial de zonas mineiras abandonadas, espaços pós-industriais sujeitos às forças infernais da natureza), parecia perseguir ao longo dos seus percursos, não só as marcas contraditórias de um projecto de intervenção social e artística (a partir de um dos seus principais conceitos -«esculturas de um sítio»), mas também as marcas ou os «passos de uma terra esquecida pelo tempo» (partes de um certo local em transformação), aí  onde pareciam habitar, suspensos, o «presente, o passado e um qualquer futuro, ainda por vir...». Careri, Francesco - Land &ScapeSeries: Walkscapes...: Walking as an aesthetic practice, Barcelona, Editorial Gustavo Gili, SA (2002).

7 Os seus passeios épicos nos Himalaias, Andes, Austrália, Japão, Islândia, são uma das marcas inconfundíveis da história da Land Art Internacional.

8 Deleuze, Gilles; Guattari, Félix - Idem, pp. 91-92.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved