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CulturaImprimirDicionário critico

Etnocentrismo

Cláudia Álvares

O etnocentrsimo é próprio de todas as culturas na medida em que estas, tal como os indivíduos, necessitam de uma imagem de si mesma que as identifique perante si e perante os outros. O problema surge quando se constatam as múltiplas diversidades que atravessam cada uma delas.

Palavras chave: cultura, psicanálise e cultura, contemporâneo, primitivo.

Todas as culturas são etnocêntricas. O mais célebre vestígio disso é a frequência com as línguas de um povo têm uma palavra para se designarem a si próprios significando algo como “os homens” ou “humanos.” Isto é, linguisticamente essas culturas pensam-se como a humanidade mesma, em exclusão de todos os outros considerados como bárbaros ou mesmo inumanos.

Fazendo uma analogia com os dados da psicanálise, é como se as culturas e os povos que as vivem fossem profundamente narcisistas, ou seja animados de um convicto amor-próprio.

É claro que qualquer psicólogo afirmará a necessidade de um mínimo de amor-próprio, isto é de narcisismo, para se poder sobreviver em sociedade. O problema surge quando esse narcisismo se torna algo de patológico. A patologia do etnocentrismo chamar-se-á nacionalismo e racismo.

Durante milénios as sociedades tendem a ser relativamente homogéneas na sua constituição étnica. O caso português é bem disso um exemplo. Expulsos que foram árabes e judeus pouco ou nada ficou como minoria diferente. O etnocentrismo tende então a fixar-se nas mentalidades.

Os pequenos grupos isolados pendem para o etnocentrismo na medida do desconhecimento em que o outro se lhes apresenta. A diversidade é externa e como tal tendencialmente tida por ameaçadora. O narcisismo manda que nos amemos a nós próprios e, consequentemente, desconfiemos do outro como potencial ameaça à nossa própria integridade.

É certo que, no indivíduo, o narcisismo é uma condição de base para sobreviver. Sem um mínimo de amor-próprio ninguém se aguenta. O mesmo acontece com as sociedades. Mas também, no indivíduo, o narcisismo pode ser uma ameaça a essa mesma integridade na medida em que ele, levado ao extremo, isola o indivíduo do real circundante e o remete para um mundo fechado e tendencialmente delirante.

O mesmo se passa com as sociedades e os grupos. As formas sociais de narcisismo que são o nacionalismo ou o racismo assentam exactamente o mesmo isolamento mental que está na origem e no fim do desconhecimento do outro.

Não foi apenas a cultura europeia que, a partir do seu etnocentrismo, ignorou e dominou todas as outras, quando não as aniquilou colonialmente. Todas as culturas, já se disse, são etnocêntricas. A Europa, no auge da sua dominação global, deu também origem a uma disciplina como a antropologia cuja vocação foi sempre a de estudar a alteridade cultural. É claro que, tendo origem em países de império colonial, as suas funções se estendiam à administração dessas diversidades que o sistema colonial controlava.

No entanto, desde cedo, o erro máximo a corrigir em antropologia foi precisamente o do etnocentrismo. Isto é, o que se procurava era entender uma cultura diversa a partir da mentalidade que a constituía e não explicá-la com a ajuda de categorias mentais, valores e capacidades cognitivas próprias muito exclusivamente da cultura dominante que era a do próprio observador externo.

Nessa situação, o etnocentrismo funcionava como um filtro e um obstáculo que impedia o entendimento daquilo que no outro cultural se passava diferentemente. Todo o esforço do antropólogo consistia em procurar superar esse obstáculo.

O problema consiste no seguinte: cada indivíduo está inserido num contexto cognitivo que é o que lhe permite compreender a realidade circundante. A tábua rasa de que falava Descartes nunca existiu. Ninguém está desprovido de uma visão do mundo, valores e capacidades cognitivas que delineiam enquadramentos conceptuais na exclusão de muitos outros possíveis. Tudo isso o torna conceptualmente desmunido para entender a alteridade de que a realidade do outro cultural e social é feita. Há sempre uma distância a abreviar quando a intenção é a de compreender outros mundos possíveis. A essa distância chama-se etnocentrismo. Ele constitui um dado nunca inteiramente ultrapassável. O que não impede o esforço mútuo para isso alcançar.

Nas sociedades contemporâneas, nomeadamente as europeias e particularmente aquelas que, como é o nosso caso, tinham uma longa história de homogeneidade étnica e cultural, os movimentos migratórios que mais recentemente as afectaram colocam novos desafios nem sempre fáceis de resolver.

Sociedades em que as minorias eram quase inexistentes, vêem-se subitamente, à escala histórica, submergidas por novos membros transportando consigo outros mundos conceptuais seja em termos religiosos, axiológicos ou culturais. Essa nova experiência de proximidade quotidiana com a alteridade infringe necessariamente sérios abalos à habitual visão etnocêntrica do mundo. O mesmo já se torna mais raro num mundo social feito de diversidade.

Há no entanto uma questão que valerá a pena ter em conta na apreciação dos novos desafios a que o tradicional etnocentrismo está hoje sujeito. Trata-se da questão da identidade que lhe está no âmago. Dela nos fala um autor como Amartya Sen[1].

O etnocentrismo pressupõe a existência de uma identidade partilhada por um certo número de indivíduos. Acontece que ninguém possui uma única identidade mas antes múltiplas identidades que o são de classe, de género, de religião, etc. Como escreve Amartya Sen, “Nenhuma delas pode ser considerada como identidade única ou categoria de pertença singular dessa pessoa.”[2]

Cada um faz necessariamente múltiplas escolhas de pertença às suas diferentes identidades consoante as circunstâncias o tornem mais pertinente em determinado momento.

Partindo do indivíduo, Sen constata que são tantas as diferenças quanto as identidades que os agrupam. A ilusão de uma identidade única não é mais do que isso, precisamente, uma ilusão e a sua reiterada afirmação resulta sobretudo da “desvalorização – e negação – do papel do raciocínio e da escolha, que decorre do reconhecimento das nossas identidades plurais.”[3]

Nas sociedades contemporâneas – e provavelmente desde sempre – as identidades étnicas tendem a ser plurais, dificultando assim a sua restrição que está na base do etnocentrismo. Em todo o caso o indivíduo tem hoje a capacidade de escolher, entre as múltiplas possibilidades de diferenciação identitária que se lhe oferecem, aquela que melhor o serve ou mesmo as várias onde em cada momento ele se integra.

Escreve ainda Amartya Sen, “de uma forma ou outra, pertencemos realmente a muitos grupos diferentes e cada uma destas colectividades pode dar-nos uma identidade potencialmente importante.”[4]

O que se esconde, em muitas circunstâncias, por detrás do etnocentrismo é uma hierarquização das identidades que as subordina e distancia entre si mas sobretudo que as anula mutuamente nas suas respectivas exclusividades. O “bárbaro”, o “selvagem” ou o “primitivo” são conceptualmente expulsos para fora do domínio do humano numa atitude que esquece, como acima se disse, a multiplicidade identitária a que, no fim de contas, todos sem excepção estão sujeitos.


Bibliografia

Lévi-Strauss, Claude - Race et Histoire. Paris: Éditions Gonthier, 1961.

Sem, Amartya - Identidade e Violência. A ilusão do destino. Lisboa: Tinta da China, 2007

 


 

[1] Sem, Amartya - Identidade e Violência. A ilusão do destino. Lisboa: Tinta da China, 2007.
[2] Idem, p. 33.
[3] Idem, p. 46.
[4] Idem, p. 43.

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