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CulturaImprimirDicionário critico

Corpo

José Manuel Bártolo

Abeirarmo-nos da história da cultura ocidental pressupõe a aproximação ou encontro com um arquivo, intencional e laboriosamente construído que nos permite através da conservação das fontes, e do seu tratamento, olhar de novo para o passado, mas também com uma imensa vala comum onde repousam “os ausentes da história” em relação aos quais os indícios da sua existência corporal são ténues e dispersos.

Palavras chave: Cultura, técnica.

Abeirarmo-nos da história da cultura ocidental pressupõe a aproximação ou encontro com um arquivo, intencional e laboriosamente construído que nos permite através da conservação das fontes, e do seu tratamento, olhar de novo para o passado, mas também com uma imensa vala comum onde repousam “os ausentes da história” em relação aos quais os indícios da sua existência corporal são ténues e dispersos.

Do corpo, a história deixa-nos sobretudo palavras e mortos daí que a tarefa de o abordar, a partir da perspectiva da história da cultura ocidental, seja, a um tempo, difícil, comovedora e fundamental, pois corresponde a um processo de reconstituição de um núcleo de sentido sobre o qual se formou uma civilização material, com os seus modos de fazer e de sentir, de crer e representar, com as suas aquisições e tensões elementares que resultam do facto dos gestos mais naturais – andar, jogar, copular, comer, dormir, defecar, parir, curar, matar – serem gestos culturais agenciados por uma ordem moral, económica,
técnica que ultrapassa, quer o corpo natural, quer o corpo individual, e os integra, no domínio mais complexo e abstracto, do imenso corpo social.


Quer se pense o corpo na perspectiva disciplinar da filosofia (para a qual, desde os Estóicos, sempre foi objecto), da história, da antropologia ou da semiótica (em relação às quais só no século XX o corpo se tornou objecto de estudo sistemático) ou na perspectiva “natural” como medium de relações, identitárias e alteritárias, de fazer, de saber ou de poder, o que sempre encontramos é uma pluralidade de corpos, provando que a história do corpo é a história das suas várias visões, de-monstrações, desfigurações, refigurações. O que temos são então “modelos do corpo[1], disciplinarmente constituídos, paradigmas provisórios que constroem e expressam uma ideia de corpo por eles agenciada.

Esta “agencialidade” do corpo é traduzida na própria linguagem que o enuncia. A palavra “corpo” deriva etimologicamente de “Krp” que significa “forma”. Pela sua “polimorfia” o corpo é susceptível de ser “formatado” pelos mais diversos processos agenciadores. A etimologia latina do termo “corpo” deixa transparecer este mesmo carácter equívoco, corpus designa, da mesma maneira, o organismo vivo e o cadáver, o presente e o ausente, o corpo vivo e o corpo morto. A língua alemã e a língua inglesa, por seu lado, dispõem de dois conceitos que marcam a diferença entre corpo vivo (em alemão Leib, em inglês body) e cadáver (em alemão Körper, em inglês corpse), mas esta demarcação semântica não resolve, em absoluto, ambivalência que o termo “corpo” envolve.

Para os pensadores antigos “o universo é composto de corpos e de vida” como afirmava Epicuro. Toda a existência é uma hexis, uma maneira de ser corporal, seja por justaposição de elementos (parathèsis), por recomposição (sunkhusis) ou por união total (krasis), que será vivificada como se fosse insuflada de vida (pneuma). Sejam quais forem os pares de conceitos - hexis/pneuma, corpore/mente, corpore/anima, soma/sêma - o corpo foi, desde sempre, pensado como lugar de uma cisão, de um conflito, prisão que encarcera a alma, tal como nos surge na visão pré-cristã de Platão e Plotino e que, sob diversas perspectivas, permanece, tanto no pensamento medieval dos Padres da Igreja, como no pensamento moderno de Descartes.

A extensa entrada “corpo” do Dictionnaire Universel[2], de Antoine Furetière, dá-nos uma reveladora imagem da compreensão moderna, insuflada de espírito enciclopédico mas habitada ainda por fantasmas renascentistas, do corpo. Começando por convocar Aristóteles, Epicuro e os “filósofos modernos” para avançar uma primeira definição do corpo enquanto “substância sólida e palpável” passível de ser integrado dentro de diferentes estruturas de ordenação, só no terceiro parágrafo se faz referência ao corpo associando-o à noção de animalidade e à dualidade, considerada constitutivamente humana, entre a alma e o corpo. A descrição anatómica é escassa, resumindo-se a um descrição do tronco e dos vestidos que o cobrem, ambos denominados “corpos”. A profusão de definições semânticas destaca-se: o corpo é tudo o que tem consistência material ou intelectual; coisas reunidas; construção.

Efectivamente, na história da cultura ocidental não encontramos “corpo” sem construção. Desde os mais remotos tempos históricos, o corpo vai construindo a sua história lenta, transformando-se, na sua realidade física, nas suas funções, no seu imaginário. O corpo muda, mas passa por poucas revoluções, como por exemplo a que lhe trará a medicina do século XIX ou a Biotecnologia no final do século XX. É certo que a elaboração de uma dietética monástica e o aparecimento fulminante da peste negra, no século XIV, constituem acontecimentos de uma história rápida do corpo. Em contrapartida, os acontecimentos fundamentais, como foram a lenta revolução agrícola iniciada no século X, o desaparecimento do desporto e do teatro, a proscrição do nu ou o desenvolvimento da moda na Idade Média só muito lentamente produziram consequências.

Enquanto construção cultural, a dimensão sémica tende a prevalecer sobre a dimensão somática e, mesmo que os mecanismos desse processo de construção sejam tematizados, este trazer a evidência os processos de construção do corpo que, sob expressões diferentes, encontramos operantes nas civilizações primitivas como nas civilizações contemporâneas, não anularam a actividade desses processos que com maior ou menor radicalismo continuam a retirar o corpo de uma esfera natural e a coloca-lo num domínio artificial, o único, afinal, onde o corpo pode ser experienciado, pensado e manipulado culturalmente.


 

[1]Jean Baudrillard - A troca simbólica e a morte, I. Lisboa: Edições 70, 1996, pp. 193-194.

[2] Furetière, Antoine - Dictionnaire Universel. Haia: Arnout, 1690.

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