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CulturaImprimirDicionário critico

Sexualidade

António Fernando Cascais

Os povos alheios à cultura ocidental moderna não se reconheceriam na palavra sexualidade, nem lhe associariam o tipo de experiência que conhecemos. Nem por isso inventámos muito mais do que eles já faziam, entendendo-o de diversa maneira, nem eles eram mais “naturais”, ou menos “civilizados” no uso dos seus corpos do que nós pretendemos acreditar-nos. É indispensável evitar o etnocentrismo relativamente aos tabus e regras da preocupação social com o corpo e o prazer. Outras eram as proibições e as obrigações e sempre ligadas aos sistemas de crenças, ao mito e à magia. A sexualidade era indissociável das actividades económicas, das relações sociais, dos sistemas simbólicos e das representações míticas. A Vénus de Willendorf e as representações ictifálicas ilustram as diferenças que nos separam e repelem e que nos unem e atraem, e por meio das quais os surpreendemos, a eles, modernos em nós, e a nós, primitivos neles.

Palavras chave: corpo, natureza, mito, magia, xamanismo.

Os povos alheios à cultura ocidental moderna não se reconheceriam na palavra sexualidade, com o sentido que hoje lhe atribuímos, nem lhe associariam o tipo de experiência, com as respectivas práticas, costumes e instituições, a que estamos habituados. No entanto, se nos fosse possível fazer uma viagem no tempo, a exemplo do que de certo modo puderam fazer os antropólogos que desde o século XIX têm estudado as últimas sociedades primitivas ainda existentes, verificaríamos que pouco inventámos que os nossos antepassados já não tivessem conhecido e experimentado. A aturada interpretação dos vestígios que deles chegaram até nós, sobretudo nas artes, bem como as prováveis analogias com as sociedades primitivas actuais, que constituem os dois métodos de que dispomos para recuperar uma realidade histórica para sempre perdida, autorizam-nos a tirar algumas conclusões genéricas e prudentemente distantes do nosso inevitável etnocentrismo. Tal como hoje, o corpo e o prazer eram objecto de preocupação social que sobre eles fazia incidir tabus e regras, os quais, pelo facto de não coincidirem com os nossos, induziram em erro alguns dos primeiros investigadores, que julgaram equivocamente estar em presença de comunidades humanas comparativamente muito mais permissivas que as nossas. Com efeito, as proibições e as obrigações existiam mas eram outras e sempre ligadas aos sistemas de crenças, ao mito e à magia. Eram estes que amalgamavam a relação do indivíduo consigo mesmo, com os seus semelhantes e com a natureza. Deste modo, a experiência que eles terão feito daquilo que hoje identificamos e isolamos como sexualidade (com tudo o que nela hoje incluímos com as nossas percepções, classificações e categorias de hetero e homossexualidade, auto e trans-sexualidade, parafilia, perversão e normalidade, e um longo etc.), mostra-nos que eles não se percebiam como nós nos percebemos hoje e que, por isso, não podemos reduzi-los sem lhes fazer violência aos nossos valores e modelos, por sua vez também sempre em mudança. Aquilo que entendemos e experienciamos como sexualidade encontrava-se, neles, inextricavelmente ligada às actividades económicas, a recolecção, ou a agricultura, a caça e a pesca, que possibilitavam a sobrevivência individual e colectiva, integrada nas relações sociais estruturadas pelo parentesco em clãs familiares alargados, estruturada pelos sistemas simbólicos de diferenciação da masculinidade e da feminilidade, ou pelas representações míticas dos ciclos naturais e das relações de género – que não são homólogas às nossas. Ao contrário de uma ideia muito corrente, os nossos antepassados não eram mais “naturais”, ou menos “civilizados” no uso que eles faziam dos seus corpos do que nós por vezes pretendemos acreditar-nos. São emblemáticas deste “capital simbólico” obras de arte como a Vénus de Willendorff, cujos seios e ventre proeminentes indiciam de maneira indissolúvel a fertilidade reprodutiva integrada no ciclo de renovação sazonal e cósmica, a diferença específica da feminilidade por oposição ao masculino, a prosperidade do clã e da comunidade, o valor social da maternidade e o da mulher enquanto indivíduo e a concomitante posição na hierarquia social, um modelo de beleza e a desejabilidade a ele inerente, marca de favor dos deuses e penhor de êxito humano. Seriam estes os atributos de uma deusa-mãe, o que não significa que não tenham chegado até nós representações da mulher como guerreira. Por sua vez, e do lado da masculinidade, era corrente, e também nas sociedades peri-mediterrânicas onde os povos de Foz Côa se incluem, a representação ictifálica (em erecção) dos machos das espécies animais (nomeadamente o touro), bem como da espécie humana. Ela associava a virilidade natural à virilidade cívica e a fecundidade biológica à prosperidade material, o êxito na caça ao poder social, os dotes físicos à habilidade de sedução e de conquista e, na mesma medida, à capacidade de prover às necessidades da sua família e da comunidade tanto como à emulação e à competição perante os seus pares masculinos. Tanto não impede que não tenham chegado até nós representações da inversão, reconhecida e valorizada, dos papéis sexuais e sociais, provavelmente associadas ao xamanismo, que evocam os berdaches da América do Norte. Nas diferenças que nos separam e repelem e que paradoxalmente nos unem e atraem, surpreendemos o quanto há de moderno neles e, em nós, de primitivo. 

Bibliografia

A. Joyce, Rosemary - Ancient Bodies, Ancient Lives. Sex, Gender, and Archaeology. London: Thames & Hudson, 2008.

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