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CulturaImprimirDicionário critico

Psicanálise e Cultura

José Miguel Marinas

Discurso ímpar, como Lacan o considera no seu seminário Sobre a transferência, a experiência psicanalítica manifesta-se num contexto de crise, isto é, como uma das respostas possíveis à crise de finais do século XIX. Crise que pode ser genericamente designada como crise da cisão do sujeito liberal. A imparidade, o carácter sem par que a psicanálise propõe, consiste, como é sabido, na suposição de uma outra cena: a par das dimensões conscientes, voluntárias, instrumentalmente desenhadas, sustentadoras da posição universalista como critério ético, há formas do nosso fazer que parecem reger-se por estranhos modos e uma lógica incomum e que nos conduzem, pessoal e colectivamente, ao seu contrário.

Palavras chave: cultura, repetição, religião, contemporâneo.

Discurso ímpar, como Lacan o considera no seu seminário Sobre a transferência, a experiência psicanalítica manifesta-se num contexto de crise (Schorske, Riedl), isto é, como uma das respostas possíveis à crise de finais do século XIX. Crise que pode ser genericamente designada como crise da cisão do sujeito liberal. A imparidade, o carácter sem par que a psicanálise propõe, consiste, como é sabido, na suposição de uma outra cena: a par das dimensões conscientes, voluntárias, instrumentalmente desenhadas, sustentadoras da posição universalista como critério ético, há formas do nosso fazer que parecem reger-se por estranhos modos e uma lógica incomum e que nos conduzem, pessoal e colectivamente, ao seu contrário. Tais são as cenas do inconsciente que, longe de consistirem uma quimera delirante, constituem aquelas mesmas experiências do sujeito na cultura que, pelo seu desajuste com a sua capacidade, se tornam desmesuradas (traumáticas) e são enviadas a outro lugar (o que é designado como repressão), isto é, o inconsciente. A partir desse lugar sem localização concreta, a partir dessa memória não controlada, continuam a ser-nos enviados sinais destorcidos, sob a forma de repetições: sintomas, lapsos, sonhos, formações sociais do inconsciente na cultura, as narrativas, os elementos significativos da arte.

A experiência da análise consiste em libertar uma palavra na qual possam aparecer os representantes daqueles conteúdos reprimidos (representações de representações: Vorstellungsrepräsentanz), podendo fazer com que a nossa palavra meio cheia se possa aproximar de ser uma palavra cheia, que diga cada vez melhor o que (nos) ocorre.

A psicanálise surge indiscernivelmente entretecida (isto é, num contexto) com outros discursos e representações, embora com eles se não confunda. Estes promanam do conflito travado entre as identidades do antigo regime e aquelas que as vieram contrariar, surgidas nos inícios do capitalismo industrial e que anunciam uma tensão com as novas formas próprias da cultura de consumo. A escritura de Freud não desiste da intenção de relatar aquilo que não está dito naquilo que está em jogo na experiência da análise, sendo atravessada pelas três culturas aludidas (linhagem, trabalho, consumo), inaugurando uma dimensão do teorizar e do olhar que estará sobretudo presente nas suas obras maduras, especialmente em O Mal-Estar na Civilização, obra datada do fatídico ano de 1929, na qual Freud apresenta uma leitura interpretativa do incómodo relativo à seguinte característica da cultura: é produzida por nós, mas é vivida como um corpo estranho. Freud estabelece um diagnóstico, como um verdadeiro pensador da crise. Esse papel é decisivo, mas Freud não se reduz a ele. Freud fala como analista, mais do que como crítico da cultura. Quer dizer, propõe um exame, um saber do desejo, do sujeito que se supõe constituir o inconsciente. E mostra com isso, a sua posição de continuidade.

Em Psicologia de massas e análise do eu (1922), a psicanálise freudiana empreende o diagnóstico das transformações da cultura contemporânea enquanto debruça a sua atenção sobre as formações do inconsciente. Os processos inconscientes não se limitam ao âmbito individual, verificando-se a integração sucessiva do indivíduo em formas crescentes, do clã às massas contemporâneas, experimentando ainda a desintegração das formas de pertença como a família, o lugar e a classe, cuja redefinição é operada nos cenários da cultura de consumo. 

Cultura é mal-estar

A chamada sociedade de consumo, estabelecendo vínculos sociais fortemente mediados pelos significantes de mercado, impõe-se de forma tensa e contraditória, inaugurando assim um novo modo de viver o tempo e, por conseguinte, um modo de viver o sentido da vida. A par da crença ainda arreigada num tempo linear, cumulativo – o tempo da história regido pela lei do progresso (tecnológico e, em princípio, moral) – surge um outro tempo, marcado pelo afã, por uma rítmica interna (Simmel), uma nervosidade que promana da renovação incessante e fugaz que o mercado promete, e que começa por ser uma experiência quotidiana de elites, alargando-se depois aos habitantes da cidade, em geral. As exposições universais, os grandes armazéns e a transformação urbana das paisagens comerciais foram-se impondo como marcos desta inovação, na qual se processou a gestação do nosso tempo como consumidores.

Simultaneamente, surgia a experiência de um novo modo de viver o tempo, regido, não pelo cálculo e a necessidade, mas pelo contraditório motor do desejo (desejo de fruir, desejo também daquilo que nos perturba). A isto podemos designar como o tempo do inconsciente, postulado pela descoberta psicanalítica.

Vivendo entre três tempos contraditórios, não houve outro remédio senão fazer eco de um tempo novo, que é o da biografia: cada sujeito de fim de século situa-se perante o fracasso dos modelos herdados do Antigo Regime; perante a desarmonia entre aquilo que se lhe exige como um produtor moderno, dotado de uma visão de futuro, e aquilo que o anuncia como um consumidor do instantâneo, do novo, vislumbrando a estranheza desse outro tempo, desse outro cenário do inconsciente, experimenta, como diz Simone de Beauvoir, a necessidade de relatar-se, de tornar coerente uma vida guiada por modelos plurais e abertos.

Tal é o argumento da sua obra O Mal-Estar na Civilização (1929), onde se apresenta de maneira sólida e directa esta relação.

1. O sentimento oceânico sobrevive por ser um sentimento egóico primário, um narcisismo ilimitado.

2. A religião sobrevive, a par de outros recursos culturais: a sublimação é difícil e a narcotização perigosa, porque é impossível satisfazer completamente o desejo.

3. O ser humano não é feliz porque se apresenta como um deus dotado de próteses (que são as instituições culturais) que o fazem julgar-se omnipotente. Estas, porém, voltam-se contra o desejo e contrariam-no por se sentirem ameaçadas por ele.

4. A cultura gera (com Eros) a comunidade, mas por sua vez, restringe a vida sexual.

5. A psicanálise manifesta-nos uma cisão: encontramos satisfação no simulacro (o sintoma) e trocamos felicidade por segurança.

6. A psicanálise mostra-nos através de experiências de compulsão e de repetição que há um instinto de agressão – Thanatos – que se opõe ao Eros aglutinante. É este o preço a pagar, contra mim e contra o objecto, o outro.

7. A psicanálise mostra-nos que nos defendemos dessa agressividade interiorizando-a, construindo o superego a partir da experiência da culpa.

8. A psicanálise permite-nos, sobretudo, demonstrar que essa culpa, mais do que um mero remorso, é inconsciente, constituindo o mal-estar. A ética surge como uma terapia: temos de conhecer e aceitar essa ordem necessária. O reconhecimento de Eros, do desejo, pode-nos assim ajudar.

A cultura domina a perigosa inclinação agressiva do indivíduo, debilitando-o, desarmando-o e fazendo-o vigiar por uma instância alojada no seu interior como uma guarnição militar numa cidade sitiada. (65)

Psicanálise e cultura no período pós-lacaniano 

A cultura actual está afectada por uma crise generalizada. A crise do vínculo social caracteriza-se pelo esvaziamento do político. Tal é a grande linha que Lacan inaugura com o seu Envers de la Psychanalyse, a inversão do político que constitui a trama dos seus quatro discursos, para os quais Lacan propõe a inscrição de fórmulas, os matemas. O simulacro que cria sentido.

Dá-se assim a prossecução do sentido das novas figuras do vínculo (Groddek, Ferenzci, Deleuze). O interesse que surge a partir do olhar que supõe o inconsciente (que supõe o sujeito do desejo) e que surge a partir da reflexão política para dar conta dos sintomas como a anomia, a violência, a desvinculação, a imunidade. Reclamar uma clínica do real ou anunciar que nos encontramos “no deserto do real” pode implicar o risco de – levando a sério o que haja de inovador nessas explorações – reificar aquilo que não é senão um ponto de oposição, impossível, mas sempre relativo ao imaginário e ao simbólico.

A nossa reflexão acerca do psíquico da polis, interessa sobretudo (a) ao real como acontecimento, (b) ao real como indizível, (c) ao real como impossível, (d) ao real como o que surpreende no sistema, em qualquer sistema, (e) o real como o que é relativo à fruição (jouissance), (f) o real como o que constitui o interior do caos, o intratável, fecundo, vertiginoso e pairante… e (g) como Lacan afirma na sessão de 19 de Fevereiro de 1974, no seminário XXI Les non-dupes errent: o Real como algo que se descobre com o nó de Borromeu.

Todos sabemos porque é que todos nós inventamos algo para suprir a falha do Real… Por isso digo que o Real se descobre, e não só onde há uma falha, mas não é impensável que não seja por essa falha, como que avancemos em tudo o que descobrimos de Real, que não é nada porque está claro que há um lugar em que o que activa o Real é fazermo-lo entrar como três, como essa coisa bastarda, porque é certo que é difícil de manipular logicamente esta conotação do Real como três.

Em suma, são importantes aquelas dimensões do discurso que teorizam a experiência peculiar e ímpar da análise e assim lançam alguma luz sobre o não-dito das tramas das identidades na cidade.


Tradução por Rui Lopo

Bibliografia 

Esposito, Roberto – Communitas. s.l., Ed. Amorrortu, 2002.

Esposito, Roberto - Inmunitas. s.l., Ed. Amorrortu, 2004.

Gárate, I. e Marinas, J.M. - Lacan en español - Breviario de lectura. s.l.: Biblioteca Nueva, 2003.

Marinas, J.M. - La fábula del bazar, Orígenes de la cultura del consumo. s.l.: Ed. A. Machado, 2001.

Marinas, J.M. - La ciudad y la esfinge - Contexto ético del psicoanálisis. s.l.: Ed. Síntesis, 2005.

Marinas, J.M. - El síntoma comunitario, entre polis y mercado. s.l.: Ed. Antonio Machado, 2006.

Marinas, J.M. (ed.), Lo político y el psicoanálisis – El reverso del vínculo. s.l.: Biblioteca Nueva, 2008. 

Mauss, Marcel – “Ensayo sobre los dones”, in Sociología y Antropología. s.l.: Ed.Tecnos, 1980.


 

J. M. Marinas, La fábula del bazar, Orígenes de la cultura del consumo, Antonio Machado, Madris, 2001; La ciudad y la esfinge – Contexto ético del psicoanálisis, Síntesis, Madrid, 2004 e, mais recentemente: El sintoma comunitario, entre polis y mercado, Antonio Machado, 2006.

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