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CulturaImprimirDicionário critico

Cultura Visual

Gonzalo Abril

Costuma identificar-se cultura visual com “cultura da imagem”, mas o que é certo é que nem as imagens são necessariamente fenómenos da experiência visual, nem a cultura visual se restringe ao domínio da imagem e das operações da imaginação. Uma cultura visual transcende o elemento puramente perceptivo da visão: como escreveu Merleau-Ponty, o visível tem sempre uma armação invisível.

Palavras chave: cultura, técnica, corpo.

Costuma identificar-se cultura visual com “cultura da imagem”, mas o que é certo é que nem as imagens são necessariamente fenómenos da experiência visual, nem a cultura visual se restringe ao domínio da imagem e das operações da imaginação. Uma cultura visual transcende o elemento puramente perceptivo da visão: como escreveu Merleau-Ponty, o visível tem sempre uma armação invisível.

A cultura visual constitui uma forma de organização sócio-histórica da percepção visual, da regulação das funções da visão e dos seus usos epistémicos, estéticos, políticos e morais. É também, pelo menos desde o Paleolítico Superior, um modo socialmente organizado de criar, distribuir e inscrever textos visuais, processo que implica sempre determinadas tecnologias do tornar-visível, técnicas de produção, de reprodução e de arquivo.

A cultura visual refere-se, por fim, à gestão da visualidade, nome pelo qual se pode entender a visão precisamente enquanto socializada, e da visibilidade, que se refere melhor ao âmbito do “público”, ou do “comum”. O espaço público moderno constitui um campo de gravitação e de conflito entre visibilidades e invisibilidades, mas já nas sociedades pré-modernas, a economia simbólica do religioso dizia respeito à administração da visibilidade e invisibilidade, aos poderes da visão e da vidência.

As sociedades humanas conhecem modos de visualidade muito diversificados: existem modos espácio-temporais como a visão externa, objectivadora, e existe uma visão imersiva. Distinga-se assim vidência, visão e visionado. Poderão ainda distinguir-se diversos regimes de visão que regulam os modos de ver. Há um regime de invisibilidade: por exemplo, enquanto a arte do politeísmo torna visíveis os deuses, a do monoteísmo inviabiliza a visibilidade do Deus único. Há ainda regimes do entrever, por exemplo, em certas expressões de arte erótica nas quais não se chega a exibir o corpo nu, convidando-se antes a adivinhar formas e posturas corporais veladas pelas vestes. Há ainda um regime de visão total, predominante na cultura visual pós-moderna: da pornografia à imagem ampliada própria dos documentários sobre o mundo natural e à endoscopia médica, exercita-se uma visualidade que parece disputar os limites técnicos e simbólicos do visível.

O exercício, a experiência e os poderes da visão interferem ainda com outras duas dimensões fenomenológicas: a da imagem e a do olhar: as representações visuais remetem sempre para um imaginário social, para a reprodução ou modificação das imagens partilhadas. O olhar, que é visão modalizada pelo desejo ou pela vontade de saber/poder, recebe em cada contexto sócio-cultural determinações particulares: o olhar vigilante, cauteloso, ou cortesmente desatento, o jogo de interacção entre essas e outras formas de olhar nos contextos quotidianos, constituem uma parte fundamental da cultura moderna, e através delas se modulam as estruturas da reciprocidade, do reconhecimento mútuo, da hierarquia e da luta pelo espaço e pelo domínio. Experiências que, na actualidade, se combinam com a experiência de ser visto pelos sistemas panópticos especializados da videovigilância estatal e privada.

 

Tradução por Rui Lopo

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