Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

CulturaImprimirDicionário critico

Exotismo

Cláudia Álvares

Enquanto na actualidade se pretende desmistificar o alegado exotismo das culturas não-europeias, no período do imperialismo europeu a alteridade era produzida para consumo ocidental e tudo o que vinha do exterior era investido de uma carga enigmática. O exotismo pode ser interpretado como este processo de domesticação da diferença cultural, muito embora a representação de indivíduos, objectos e lugares não familiares continuasse a evocar uma inquietante ‘estranheza’. Designando a representação da diferença a partir de uma noção colectiva que define a identidade europeia em relação a tudo aquilo que não é europeu, o exotismo assenta numa estratégia discursiva do Ocidente sobre o resto do mundo, sendo este último simbolizado pela metáfora ‘Oriente’. O Oriente surge como repositório do alter-ego da identidade europeia, remetendo para todas as características antagónicas do Ocidente projectadas no seu outro.

Palavras chave: museu, cultura, religião, primitivismo.

Designando a representação da diferença cultural a partir de uma noção colectiva que define a identidade europeia em relação a tudo aquilo que não é europeu, o exotismo assenta numa estratégia discursiva do Ocidente sobre o resto do mundo, sendo este último simbolizado pela metáfora ‘Oriente’. O Oriente surge como repositório do alter-ego da identidade europeia, remetendo para todas as características antagónicas do Ocidente projectadas no seu outro.

No estudo seminal, Orientalism (1978), Edward Said procura traçar a trajectória da discursividade europeia sobre o Oriente, demonstrando que o projecto imperialista europeu se encontrou ligado a toda uma construção simbólica do Oriente ao nível literário, histórico, científico e artístico a partir do século XVIII. A vontade europeia de conhecer, dominar e compreender a alteridade traduziu-se numa tentativa constante de catalogar e classificar o outro dentro de parâmetros delimitativos cujo objectivo seria o de conter a radicalidade da diferença, tornando-a assimilável à identidade europeia.

O Oriente surgiu assim como objecto de diversos discursos do saber ocidental: na academia, goza de estatuto de objecto de conhecimento; nos museus, aparece como objecto de exposição; na administração colonial, torna-se objecto de reconstrução; nos domínios da antropologia, biologia, linguística e história, é eleito objecto de ilustração teórica sobre o ser humano e o universo; as teorias económicas e sociológicas inspiram-se no Oriente para sustentar teorias sobre o desenvolvimento, revolução, cultura e religião (Said, 1978: 7-8).

O poder intelectual inerente ao discurso sobre o Oriente complementa assim o poderio comercial ocidental sobre territórios situados principalmente na Ásia e em África. O Orientalismo, enquanto poder intelectual, é definido por Said como uma biblioteca ou arquivo de informação partilhado por potências colonizadoras e sedimentado por um conjunto de ideias comuns. Tais ideias explicavam o comportamento dos orientais, atribuindo-lhes uma mentalidade, genealogia, ambiente; acima de tudo, permitiam aos europeus lidar com os orientais como um fenómeno possuindo características regulares (Said, 1978: 41-2). Em suma, o Orientalismo pode ser compreendido como um conjunto de limitações imposto ao pensamento de modo a controlar a imprevisibilidade decorrente do contacto com a diferença.

Enquanto na actualidade se pretende desmistificar o alegado exotismo das culturas não-europeias, no século XVIII a alteridade era produzida para consumo europeu e tudo o que vinha do exterior era investido de uma carga enigmática. O exotismo pode ser interpretado como este processo de domesticação da diferença cultural, muito embora a representação de indivíduos, objectos e lugares estrangeiros continuasse a evocar uma inquietante ‘estranheza’. Na verdade, a absoluta domesticação do exótico nunca se realiza, pois neutralizaria a capacidade de criação de surpresa inerente ao imprevisível (Huggan, 2001: 20).

Ao proporcionar informação de utilidade prática que seria posta ao serviço dos desígnios comerciais das potências colonizadoras europeias, o poder intelectual do discurso sobre o Oriente revela uma dimensão política. A visão politizada da realidade inerente ao Orientalismo promove uma distinção entre o familiar – i.e. a identidade europeia – e o exótico – o Oriente. Essa visão intelectual e artística vai fomentar a consolidação de uma dicotomia entre dois mundos conceptualizados como radicalmente diversos. Existe, assim, uma dialéctica entre visão intelectual e concretização material da realidade que alimenta o binómio Ocidente/Oriente: a criação de um Oriente em textos artísticos e literários é empregue no exercício de autoridade sobre o Oriente. Se por um lado a pintura e literatura simbolistas revelam um fascínio romântico pelo misticismo oriental, associado a uma passividade dócil, também se distinguem por uma visão erotizada do primitivismo do diferente, conotada com a necessidade de redenção. 

O discurso europeu sobre o Oriente é geralmente considerado como se tendo consolidado no período entre 1815 e 1914, altura em que cerca de 85 por cento dos territórios mundiais passaram a estar sob a alçada do colonialismo europeu. A orientação política patente no Orientalismo tornou-se particularmente visível com a invasão napoleónica do Egipto em 1798. As tácticas de Napoleão, nomeadamente a sua persuasão da população egípcia de que estaria a lutar a favor do Islão – recorrendo a académicos franceses para o informar sobre o Corão bem como sobre a sociedade islâmica – comprova o poder estratégico e táctico do conhecimento (Ashcroft, et al., 1999: 61). Segundo afirma Said, depois de Napoleão a própria linguagem do Orientalismo muda radicalmente: ‘O seu realismo descritivo tornou-se mais preciso, não se reduzindo a um estilo de representação mas consistindo antes numa linguagem, um meio de criação’ (Said, 1978: 87), simbolizado pela construção do Canal de Suez em 1869.

A preocupação europeia em demonstrar a sua própria sofisticação civilizacional já se tornara patente na primeira das Grandes Exposições Mundiais, a de 1851, no Crystal Palace em Londres, em que a Inglaterra vitoriana exibiu toda uma gama de artefactos, desde os arquitectónicos até aos motores a vapor. Seres humanos vindos das colónias foram também exibidos como curiosidades científicas nesse evento. Exemplo célebre foi o da exibição da sul-africana Sara Baartman, apelidada de ‘Hottentot Venus’, como objecto de diferença cujo corpo contrastava com o da mulher ocidental.

Bibliografia

Ashcroft, Bill et al. - Edward Said. Londres: Routledge, sd.

Graham, Huggan - The Post-Colonial Exotic: Marketing the Margins. Londres: Routledge, 2001.


Said, Edward - Orientalism: Western Conceptions of the Orient. Harmondsworth: Penguin, sd.

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved