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CulturaImprimirDicionário critico

Turismo e Processos de Patrimonialização

José Figueiredo Santos

Sem prejuízo da admissão de ritmos e modos diferenciados insertos nos processos contemporâneos de patrimonialização ganham aqui relevo aqueles que, ao se nortearem pelo “grande casting do espectáculo turístico”[1], acabam, muitas das vezes, inconsequentes com um progresso socialmente valorizado em discurso.

Investindo na reactivação, reinvenção e idealização de bens, práticas e signos como recursos submetidos ao rolo compressor de um utilitarismo cultural trivializador, os seus agentes acabam por conferir ao património uma sustentabilidade duvidosa, conquanto, tais práticas, ao não serem resgatadas das vivências quotidianas para lhes serem devolvidas, ficam atadas a encenações empobrecedoras de consciências identitárias imprescindíveis ao fomento da pluralidade dos seus usos.

Palavras chave: Modernidade, cultura.

Introdução

Património e turismo constituem campos associados a uma panóplia de actores apostados na revitalização[2] da modernidade como uma questão decisiva. Neles cruzam-se agentes económicos, sociais, culturais e políticos, responsáveis pela produção de activismos atreitos a uma pretensa preservação de referentes culturais locais, bem como as populações dos lugares a visitar como espaços turísticos.

Se bem que tal associação não seja nova, ela submete-se a uma mudança de escala alterativa da sua natureza, a partir da segunda metade do século XX. Num contexto de modernidade tardia, ao mesmo tempo que se edifica a “mundialização da cultura”[3] , subsistem modos de identificação particulares, investidos da afirmação de códigos de valores articuladores dos seus referentes culturais locais ao campo transaccional de culturas[4]. Desses interstícios globalizadores, envoltos por uma manta híbrida[5] de retalhos que compõem a cultura , desvelam-se tentativas de redenção de um passado, (re)construído mediante a patrimonialização de elementos culturais locais, que vão ao encontro das convicções de uma panóplia de autores, sediadas no argumento de que a cisão operada nas sociedades contemporâneas relativamente às suas raízes modernas encerra um tempo de desconjunção do agir humano, inscrito numa “amnésia colectiva”[6], entretecida no alheamento da captura do tempo.

Se, como reacção ao embaraço patente na anamnese do projecto modernista, Berman ensaia um confronto crítico com a sua feição ético-política, já Lowenthal alude à dimensão estética da exogenia cultural como uma revitalização vazada num passado refeito através de revivalismo encenado, que apelida de “país estrangeiro”[7].

De modo similar, referindo-se a um contexto preciso, também MacCannell identifica no conservacionismo contemporâneo uma desqualificação simbiótica, inscrita numa “preservação artificial”[8] da cultura, convertida em mercadoria turística, consumida e vivida como uma imagem idílica, romantizada e simuladora da história[9].

O património como tradição da modernidade

Numa acepção clássica, o património é investido como uma herança transmitida às gerações futuras[10]. Garante de princípios relativamente estáveis e da continuidade dos referentes culturais que organizam as condutas dos indivíduos nas curvaturas dos espaços/tempos culturais inscreve-se, ainda, como ponte simbólica promotora de sentimentos de filiação e de pertença a um colectivo social.

Trata-se de uma abordagem em falha, que não capta a complexidade do problema em toda a sua extensão e profundidade. O património incorpora, desde logo, um processo dinâmico de representação simbólica da cultura e, consequentemente, dos processos de selecção de determinados referentes, de negociação e delimitação dos significados, que remete para uma preservação investida do significado que encerra para os códigos expressivos do colectivo. Assim, e para além de baluarte temporal, o património funciona como elemento catalisador de afirmação e de legitimação social e cultural[11].

Da construção dos seus regimes de significação ressalta uma selecção e activação de determinados referentes incorporadores da representação de uma determinada identidade[12]. Esta representação, ao processar-se através do resgate de alguns referentes culturais, em detrimento de outros, visa o agenciamento de uma identificação pessoal e colectiva, enunciadas como um conjunto de valores culturais próprios e de cada sociedade, por ela seleccionados e construídos, de forma dinâmica. Longe de se esgotar na sua enunciação, o património configura-se como uma síntese simbólica de valores identitários, conquanto não há património que não narre, que não tenha sede na mente dos indivíduos.

Com o advento da modernidade e o colapso dos modos de filiação precedentes, a compatibilização dos seus usos e percepções não tem sido tarefa fácil, como se depreende dos movimentos de composição e recomposição dos Estados-Nação. Com efeito, dessa espiral de produção/destruição de objectos que tem integrado o fazer e o desfazer dos Estados, não se dissociam estratégias de conversão do património num operador de cristalização de uma imagética nacional, investido da aglutinação de uma comunidade de sentidos dos indivíduos a um mesmo espaço simbólico.

Ao mesmo tempo que é atribuída uma transcendência a determinados símbolos culturais que exprimem o carácter singular de um espaço cultural, conferindo uma ilusão de permanência e continuidade em relação a um passado[13], edifica-se um ideal colectivo assente no princípio da semelhança histórico-cultural[14], como fio intersticial de uma cadeia de união e identificação entre os indivíduos.

Os Estados modernos acabam por organizar a consciência de uma tradição da modernidade investida de um fito primordial: o de fazer da recordação um acto político abonatório de uma reconstrução do sentido. No seu labor de ordenamento, inventariação e jurisdicionalização, trabalham a patrimonialização dos referentes culturais com recurso à busca incessante de uma re(escrita) de raízes estético-históricas comuns, de lugares de memória ajustados a virtuais ameaças de ruptura e desordem que pairam como fantasmas nos pedaços desconjuntados de que se apropriam na sua formação. Daí o imperativo de uma produção discursiva sobre um tempo atestador da solidez dos referentes culturais, promotora de um espectro nostálgico em relação ao passado[15], ao mesmo tempo que este se apresenta como um inestimável guia para a acção.

Dir-se-ia que a modernidade encerra na patrimonialização dos referentes culturais esse paradoxo que radica no trazer de volta, sob formas rejuvenescidas, muito daquilo que ela mesma tornou obsoleto, numa espécie de eterno retorno vaticinado por Nietzsche.

O património como recurso metonímico do turismo

É sabido como a Modernidade e a intensificação da globalização confluem num mundo desterritorializado[16], perturbador da estabilidade relacional entre passado e presente, no seio da qual se gesta um discurso de crise, inserto numa espécie de pathos patrimonializador.

Este boom contemporâneo do património, deduzido das transformações da vida intelectual e artística operadas na Modernidade, faz com que toda uma extensa terminologia associada, designe-se de “paixão patrimonial”[17], “reinvenção do património”[18], “alegoria do património”[19], “loucura patrimonial”[20] ou “doença patrimonial”[21], se confunda, não raro, com os processos de reterritorialização cultural.

Nesse pathos patrimonializador campeia um passado refeito, interpretado, (re)inventado e pretensamente estabilizado através dos mitos, das ideologias, dos nacionalismos, dos romanticismos, a que comparece, mais recentemente, o marketing[22].

Desta avidez contemporânea de valorização social do património cultural descolam, um pouco por toda a parte, impulsos de resgate e activação, protagonizados quer por agentes públicos, quer privados, passando os elementos de significação conferidos ao património a sediarem uma trama de interesses associados a processos sociais complexos.

As grandes tensões sociais que acompanham a organização de mostras relativas às culturas dos povos demonstram, à saciedade, o modo como a consciência social do papel desenvolvido pelo património faz parte, cada vez mais frequente, das agendas de movimentos, associações e partidos políticos.

Encontrando na cultura orientada por interesses turísticos uma alternativa de desenvolvimento, as políticas culturais autárquicas não escapam a uma oportunidade de rentabilidade simbólica e de legitimação das suas opções políticas. Visando ajustar formas convencionais de patrimonialização, que condenam a saída da esfera do vivido para a esfera da exibição, quedam-se pela reutilização canónica de um património, revestida de valor totémico de acesso ao universo turístico.

Na sua esteira, os agentes económicos aplaudem a indexação ao consumo, provinda da utilização do património como instância de promoção e agenciamento turísticos.

Tais políticas, inscritas numa lógica reducionista da cultura ao consumo, espraiam-se em terminologias de duvidosa sustentabilidade, como sejam: mercados, gestão empresarial, públicos alvo, etc., que carregam consigo a instrumentalização das colecções, dos autores, das peças, em suma, do património, para ampliarem, de forma paradoxal, a imagem do seu “produto” na produção restritiva do lucro.

Os efeitos nefastos de tais desígnios, animados de um lógica de valorização inscrita em formas sem conteúdo, seriam relativamente minimizados se um conjunto significativo dos seus agentes não subvalorizasse os elementos culturais fortemente percepcionados pelas respectivas populações como símbolos das suas vivências singulares, precipitando, ao seu arrepio, uma cultura abismada por imagens sem densidade.

Neste quadro, o património pensado como recurso metonímico do turismo, descartado da condição de indicador fundamental na construção da identidade, acaba cativo de uma lógica prioritária de sentido redutoramente materialista, monumentalista e esteticista, operando a sua pretensa revitalização entre extremos que vão do uso restritivo excessivo à sua completa massificação, quando não sofre a imposição da sua transformação num ritual performativo meramente lúdico, passivo e superficial.

Se, no contexto de uma sociedade plural, se torna imperativa uma activação patrimonial que resulte de um processo de negociação entre variados actores sociais, designadamente especialistas, agentes económicos, políticos e as populações locais, nem sempre estas são incorporadas nesses projectos, não obstante a sua identificação emocional com os lugares. Por serem ignoradas ou por verem negada a sua inclusão, ficam irremediavelmente apartadas da desejável elaboração e veiculação de ricos repertórios discursivos, sediados no imaginário popular, da oportunidade de contribuírem para a tonificação do imaginário turístico e de tirarem legítimos dividendos da apropriação turística do espaço.

Acontece que a abertura do espaço à compreensão da interpenetração entre a dialéctica da contemporaneidade e as possibilidades abertas por esse movimento, no domínio das novas concepções simbólicas e cenários contextualizadores das metamorfoses operadas no património, tem sugerido novas geografias impositivas, divorciadas dos activismos da vida quotidiana das populações locais. Se esse divórcio não constitui uma tragédia não deixa de se posicionar como drama na recomposição dos lugares alvo de novas constelações de sentido inauguradas pelo turismo.

Esta tensão entre uma perspectiva mais imanentista do património e outra mais utilitarista agudiza-se quando, projectos de índole pretensamente desenvolvimentista, ignoram as diversas contradições colocadas no processo, interditando discursos, ignorando que, na base dos elementos constitutivos do património, estão identificações antropológicas com o território, as fronteiras, as materialidades e imaterialidades dos espaços, como produtos de relações sociais e modos de vida peculiares.

É nesse enviesamento que se instala uma associação quase mecânica, e não raro infundada, entre património e desenvolvimento, que conduz a reflexões em torno de um progresso local mais imaginado do que efectivo, baseado em duvidosos princípios de sustentabilidade que deixam por concretizar o tão proclamado desenvolvimento.

Boa parte desses projectos padece de lacunas, frequentemente sobrevoadas pela adopção de pressupostos infundados relativos a benefícios esperados, resultantes da conversão do património numa metáfora intermediária de uma disputa meramente estético-mercantil.

Daí o imperativo de que os poderes instituídos e a sociedade inaugurem processos participativos de permanente negociação, dos quais não será de excluir a avaliação do domínio empresarializador do papel do Estado e das autarquias no âmbito da cultura, a fim de alcançarem o maior grau de consenso possível em torno de processos que estabeleçam correspondência entre o património e a realidade social envolvente.

No fundo, o hiato entre democratização da cultura e democracia cultural reside nessa perspectiva de fazer de cada um não apenas um “beneficiário” da cultura adquirida, mas, sobretudo, um senhor da definição dessa cultura, evitando-se, ao mesmo tempo, que o património desemboque num casting do espectáculo turístico.


[1] Bourdin, A. - Turismo Patrimonial, Cidade e Civilização dos Indivíduos, in Fórum Sociológico, nos 13/14 (2ª série), 2005, pp.13-29.
[2] Desse fenómeno desvitalizador, plasmado na metáfora do desmoronamento do que é “sólido”, dá conta Marshall Berman em “Tudo o que é sólido dissolve-se no ar”, publicado pelas Edições 70, em 1989.
[3] Warnier, J. P. - A Mundialização da Cultura. Lisboa: Editorial Notícias, 2000.
[4] Hall, S. – “Culture, Community, Nation”, in D. Boswell e J. Evans (eds.), Representing the Nation: A Reader – Histoires, Heritage and Museums. London: Routledge, 2002, pp. 33-44.
[5] Em alusão à obra de Canclini, Néstor García - Hybrid Cultures, Strategies for Entering and Leaving Modernity (translated by Christopher L. Chiappari and Silvia L. López). London: University of Minnesota Press, 1997.
[6] Vide Assmann, J. - Collective Memory and Cultural Identity, in New German Critique, 65 (Spring-Summer): 125-135, 1995.
Hervieu-Leger, D. - Religion as a Chain of Memory. Oxford: Polity Press, 2000.
Huyssen, A. - Twilight Memories: Marking Time in a Culture of Amnesia. New York: Routlegde, 1995.
[7] Lowenthal, D. - The Past is a Foreign Country, apud Josep Ballart - El Patrimonio histórico y arqueológico: valor de uso. Editorial Ariel: Barcelona, 1977, p. 37.
[8] Este paradoxo incorpora, segundo MacCannell, um traço característico da própria modernidade; ”a melhor indicação da vitória final da modernidade sobre todos os outros ordenamentos socioculturais não é o desaparecimento do mundo não moderno, mas a sua preservação artificial e a sua reconstrução na sociedade moderna”.
MacCannell Dean, - “The Locke case”, in MacCannell Dean, Empty meeting grounds. London: Routledge, 1992, p. 8.
[9] O passado trazido a um presente filtrado por uma imensidão de técnicas modernas, engolido pela atracção do espectáculo visual, é destituído de autenticidade, com o propósito de melhor se coadunar com uma história trivial.
[10] García, J. – “De la cultura como patrimonio al patrimonio cultural”, in Política y Sociedad. El Patrimonio Cultural, nº 27, Enero-Abril, pp. 9-20. 1998
[11] Prats, L. - Antropología y Patrimonio. Barcelona: Editorial Ariel, 1997.
[12] Acerca da relação entre património e identidade vide, de Peralta, Elsa e Anico, Marta (org.) – Patrimónios e Identidades, Ficções Contemporâneas. Oeiras: Celta, 2006
[13] Não obstante, e ainda que cunhado como processo de representação cultural baseado no passado e nas especificidades culturais locais, o património não se confunde com a história ou com os testemunhos materiais e tangíveis do processo histórico, mas antes como uma recriação ficcionada da história, que transmite mitos de origem e de continuidade, que para além de dotar um grupo de um sentimento de pertença comum (Lowenthal, 1998), contribui para a legitimação das instituições sociais responsáveis pela sua activação.
[14] Gellner, E. – Nacionalismo. Barcelona: Ediciones Destino, 1998.
[15] Vide Robertson, R. - Globalization. Social Theory and Global Culture. Londres: Sage, 1992.

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