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CulturaImprimirDicionário critico

Actual e Contemporâneo

Moisés de Lemos Martins

O actual e o contemporâneo explicam-se pela ideia de acontecimento. Na tradição religiosa do Ocidente, ou seja, na tradição judaico-cristã, o acontecimento é esclarecido pela ideia de história da salvação, um particular entendimento histórico, que é comandado pelo princípio escatológico e declinado numa narrativa entre um Génesis e um Apocalipse.

Palavras chave: cultura, natureza, Freud, técnica.


O actual e o contemporâneo explicam-se pela ideia de acontecimento. Na tradição religiosa do Ocidente, ou seja, na tradição judaico-cristã, o acontecimento é esclarecido pela ideia de história da salvação, um particular entendimento do tempo histórico, que é comandado pelo princípio escatológico e declinado numa narrativa entre um Génesis e um Apocalipse. Nessa narrativa, o acontecimento é facto singular e sentido novo, uma fonte autónoma de sentido e de inteligibilidade, sendo portador de um poder hermenêutico, um poder de revelação, que permite uma experiência plena. Nestas condições, o acontecimento abre a uma continuidade no tempo e no espaço, impondo-se aos sujeitos, às suas razões de agir, motivos e interesses. Na tradição laica do Ocidente, por sua vez, foram o conceito de identidade, em torno do qual gira a lógica de Aristóteles, e também o conceito de teleologia, além do conceito de contradição, que tem a lógica hegeliana como pedra angular, que deram sentido ao acontecimento.

Uma e outra tradição, estribadas quer na ideia de tempo histórico, quer nos conceitos de identidade e de contradição, estruturam a experiência individual e colectiva, fazendo prevalecer sobre a ideia de descontinuidade uma ideia de conciliação no entendimento de actual e de contemporâneo. Este ponto de vista hermenêutico é reconfortado, por um lado, pela tradição kantiana, e também pela exaltação de uma estética da vida que remete para Bergson e Simmel, e, por outro lado, pelo hegelianismo, seguindo tanto o cognitivismo de Gadamer, como o pragmatismo de Dewey. Nesta ideia de acontecimento está implícito um ideal de harmonia, de regularidade e de unidade, orgânica e cósmica, que vamos encontrar em autores tão distintos como Teillard de Chardin, Gilbert Durand e Paul Ricoeur. Embora se trate de um facto disruptor e gerador de conflito, luta e dor, o acontecimento supõe uma paz vindoura, um momento irénico, em que o conflito, se não é definitivamente suprimido, é pelo menos temporariamente suspenso. A renovação do debate sobre o acontecimento, entretanto empreendida por Habermas (1987), permite-nos ver a uma nova luz o actual e o contemporâneo. A «teoria do agir comunicativo» veio salientar a dualidade do acontecimento, entre facto e sentido, deslocou o quadro da relação entre a descrição e a explicação e aplicou à análise social o paradigma da intersubjectividade, fundado em George Herbert Mead e Alfred Schutz. Fomos colocados, deste modo, no caminho de uma antropologia que permite perspectivar o actual e o contemporâneo como emergências correlativas a uma actividade social constituinte. A sociologia clássica havia comprometido o actual e o contemporâneo, ao converter em entidades toda a vida social e individual, desde indivíduos, sociedades, grupos, actores individuais e colectivos, classes e nações, até factos, acontecimentos, acções, condutas e tudo o que permite explicá-los e justificá-los, sem esquecer estruturas sociais, estruturas da personalidade, normas, regras, significações, valores e cultura. A passagem para o paradigma intersubjectivo teve como intuito dessubstancializar estas entidades. Nesse sentido, acentuou o facto de a vida humana e as suas produções serem constituídas pela linguagem e associou a construção da objectividade e da subjectividade à existência de uma comunidade de linguagem e práticas.Deste modo, tematizadas na base das crenças antropológicas da epistemologia, ou seja, na base das premissas individualistas da consciência, a objectividade dos factos sociais, a estabilidade da ordem social e as regularidades observáveis das condutas sociais tinham uma natureza. E o actual e o contemporâneo não tinham natureza diferente. Mas tornam-se coisa distinta, se os tematizamos sem capitular diante do “mito do dado”. No contexto do paradigma intersubjectivo, a individualidade e a socialidade, a objectividade e a subjectividade, a inteligibilidade e a comunicabilidade são tomadas no contexto de uma actividade social constituinte. Além disso, o mundo naquilo que tem de comum e de público, é tomado como o resultado de uma instituição. Finalmente, a oposição indivíduo-sociedade é superada pela consideração dos processos de individuação e de socialidade. Nas antípodas deste pensamento sobre o acontecimento, e portanto sobre o actual e o contemporâneo, estão Nietzsche, Freud e Heidegger, que exprimem um enredo teórico novo, um pensamento da diferença, e não da identidade, nem da conciliação. Na noção de diferença está presente, com efeito, um pensamento pós-aristotélico e pós-hegeliano, ou seja, um conflito maior do que aquele que é autorizado, tanto pelos conceitos lógicos de diversidade e oposição, como pelos conceitos dialécticos de distinção e contradição.Há, com efeito, no pensamento da diferença um horizonte que aponta para o impuro do sentir, ou seja, para as experiências insólitas, perturbadoras, ambivalentes, excessivas, irredutíveis sem dúvida ao princípio da identidade, e que constituem a experiência da nossa contemporaneidade. A nossa experiência já não é comandada pelas exigências de perfeição e conciliação que caracterizaram o pensamento moderno. Pelo contrário, a sua fonte de inspiração está neste género de sensibilidade aparentado com os estados psicopatológicos e os êxtases místicos, um género de sensibilidade que se manifesta nas “alucinações” próprias da interacção electrónica, e também nas toxicomanias e nas perversões, em situação de handicap e de deficiência, nas culturas ditas ‘primitivas’ e nas culturas ‘outras’ (culturas underground, culturas de subúrbio ou suburbanas.Esta tradição é a de Bataille, Klossowski, Blanchot, Foucault, Lyotard, Deleuze e Derrida, marcada pelo pensamento da diferença, e que, nuns casos, valoriza, como Nietzsche, a experiência trágica; noutros, atenta, como Freud, nas experiências negativas e perturbadoras da alma humana; noutros ainda, denuncia, como Heidegger, a ideia da invariância de uma presença plena (de um fundamento).No seio deste pensamento da diferença tem prosseguido, por outro lado, o debate sobre a técnica e o papel que as novas tecnologias, que incluem os media, têm na redefinição da cultura, ou seja, na delimitação do humano. Com a fusão progressiva da technê e da bios e a imersão da técnica na história e nos corpos, a experiência contemporânea fantasma cada vez mais a clonagem, os replicantes e os cyborgs, a hibridez, o pós-orgânico e o trans-humano. O actual e o contemporâneo não são dissociáveis desta experiência.Aos autores já referidos, é justo acrescentar, neste contexto, os nomes de Giorgio Agamben, Mário Perniola, Jean Baudrillard e Guy Debord. Em todos estes autores é acentuada a ideia de “crise da experiência”, referida por Benjamin no seu famoso texto sobre “O narrador”, mas que hoje parece em fase imparável pela sua aceleração tecnológica. Agamben fala da impossibilidade em que nos encontramos, hoje, de nos apropriarmos da nossa condição propriamente histórica, o que torna “insuportável o nosso quotidiano” (Agamben, 2000: 20). Perniola, por sua vez, ao caracterizar a experiência contemporânea, introduz o conceito do “já sentido” e interroga-se sobre o sex appeal do inorgânico, que tem tanto de fascinante como de inquietante (Perniola, 1993 e 2004). Quanto a Baudrillard, conhecemos o seu conceito de realização do real como simulacro (Baudrillard, 1981). Finalmente, Guy Debord insiste no crescente processo de anestesiamento da vida, ou seja, no crescente processo de congelação dissimulada do mundo (Debord, 1991: 16).A associação dos media à ideia de um trágico social surge, nos nossos dias, do reconhecimento da fragmentação da experiência, com o acontecimento dessorado e esvaído em novidade, em notícia, num processo de permanente hemorragia do sentido. Esta ideia alude à crise da época, ao seu mal-estar, alguns dirão, à crise da modernidade (Lyotard, 1984, 1993; Miranda, 1997). Os media exprimem a crise da época, mas aprofundam também esta crise e este mal-estar.Refere Lyotard que a nossa comunidade se consome, hoje, em melancolia, não exprimindo nenhuma finalidade. Exprime apenas o seu sofrimento, “um sofrimento de finalidade” (Lyotard, 1993: 93). É de assinalar, no entanto, que o trauma provocado pelo desaparecimento da confiança na comunidade histórica, assim como a melancolia que acompanha a banalização da vida, essa vertiginosa sensação de um trágico sem tragédia, além da própria impossibilidade de anulá-los, reclamam que nos recoloquemos no horizonte de uma “comunidade a vir” (Agamben, 1993). O actual e o contemporâneo jogam-se neste horizonte, pois é aí que se joga a salvaguarda das possibilidades da (a)ventura humana. 

Referências bibliográficas

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