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CulturaImprimirDicionário critico

Mnemotécnica

Bernard Stiegler

A Paleontologia tem estado na vanguarda dos estudos teóricos mais avançados em França. A questão paleontológica foi levantada novamente com a espectacular ascensão das mnemotecnologias induzidas pelo desenvolvimento das redes digitais e daquilo que viria a ser conhrcido como a internet dos objectos.

Palavras chave: técnica, escrita, hominização.

Paleogénese da tecno-lógica

 Algumas propostas filosóficas

motivadas pelas descobertas da paleoantropologia

A Paleontologia tem estado na vanguarda dos estudos teóricos mais avançados em França, particularmente desde que Jean Piel, à época director da revista Critique, encarregou Jacques Derrida da recensão crítica à obra-prima de André Leroi-Gourahn, Le Geste et la Parole [O Gesto e a Palavra]. Este artigo deu, em grande parte, origem à grande obra de Derrida: De la Grammatologie [Da Gramatologia].

A recensão de Derrida levou-o à descoberta da forma verdadeiramente revolucionária como Leroi-Gourahn, tal como todos os paleoantropólogos, encarava o factor técnica e a especificidade da memória nos seres humanos como um todo.

Destes novos conhecimentos científicos, e do seu cruzamento com as questões levantadas por Freud e Saussure, assim como por Husserl e Heidegger, Derrida desenvolveu a sua filosofia de traço, gramática e escrita – que necessitava o que ele designou por uma lógica do suplemento e uma história do suplemento. A questão paleontológica foi levantada novamente com a espectacular ascensão das mnemotecnologias induzidas pelo desenvolvimento das redes digitais e daquilo que viria a ser conhecido como a internet dos objectos.

Leroi-Gourhan começou a sua carreira na antropologia como perito em etnografia, especialista do Pacífico e Extremo Oriente. Na sequência de uma pesquisa feita durante os anos de 1930, propôs uma teoria da evolução técnica baseada no conceito de tendências técnicas, que explicitou em L’Homme et la Matiére [O Homem e a Matéria]. A sua teoria, desenvolvida em 1943, é de que os grupos humanos se desenvolvem no seio de uma relação que é fundamental para as técnicas através das quais se individualizam psíquica e colectivamente, e que interagem com o meio vital formando eles próprios um meio técnico. Este meio técnico evolui de acordo com tendências técnicas universais que surgem da combinação entre as leis biofisiológicas que são impostas aos seres humanos por todo o planeta e as leis da física que são impostas a todas as matérias no Universo[1].

A descoberta de estruturas técnicas semelhantes entre povos que nunca tiveram qualquer contacto – os Lapões e os habitantes da Ilha de Sunda, por exemplo – apenas pode ser explicada pelo facto de que, confrontados com os mesmos problemas e em condições ambientais semelhantes, os homens (que partilham as mesmas características fisiológicas) inventam as mesmas técnicas, num processo descrito por Leroi-Gourhan como uma convergência daquilo que ele chama «factos técnicos». Leroi-Gourhan estudou a concretização das tendências técnicas na morfogénese do arpão de baleia usado para captura dos mamíferos marítimos no extremo norte do Pacífico e a milhares de quilómetros de distância a sul, por exemplo.

A descoberta de um esqueleto fossilizado, juntamente com as suas ferramentas, no Desfiladeiro de Olduvai em 1959 forneceu um conjunto de provas inteiramente novo para apoiar as teses teóricas da relação entre o homem e a técnica que Leroi-Gourhan postulara já em 1943. Isto levou ao desenvolvimento do conceito de processo de exteriorização, do qual a tecnogénese (o resultado do processo que consiste essencialmente na exteriorização da memória) é o dado mais relevante da antropogénese e com ele coincide.

O esqueleto fossilizado de Zinjanthorpe, descoberto na África do Sul por Mary e Louis Leakey, é o vestígio de um Australopiteco datado de há 1,75 milhões de anos – cujo antepassado bípede mais antigo data de há 3,6 milhões de anos. Pesa aproximadamente trinta quilos. É um bípede autêntico: possui um buraco occipital precisamente no ângulo perpendicular da base do crânio. Daqui por diante, libertou os membros superiores da motricidade e dedicou-os fundamentalmente à fabricação e à expressão, ou seja, à exteriorização.

A partir destes factos Leroi-Gourhan demonstrou em que consiste a humanidade do Homem, o que faz do Homem uma ruptura na história da vida, um tipo novo de ser humano – um surgimento progressivo a que Leroi-Gourhan chamou processo de hominização – um processo de exteriorização técnica do humano. O elemento dinâmico até agora ligado ao humano – as condições de predação e defesa, ou seja a luta pela sobrevivência tornam-se externas ao humano (Leroi-Gourhan não se alargou muito sobre isto. Eu insisti muito mais do que ele[2]). O Homem luta pela vida usando órgãos não biológicos: usa órgãos artificiais que são as técnicas.

Leroi-Gourhan – e isto é um ponto decisivo – exibe a técnica como um vector memorial. Entre o Australopiteco (1,75 milhões de anos atrás) e o Neandertal (300.000 anos atrás), fomos das pedras lascadas, produzidas batendo duas pedras uma na outra para obter uma faúlha (sendo o resultado, momentos depois, uma aresta cortante), às centenas de objectos no tempo do Neandertal, cujas folhas de louro testemunham uma verdadeira joalharia em sílex, que requeriam centenas de gestos em vastas linhas de montagem e constituem a tecnicidade de uma manufactura bastante sofisticada.

Existia uma diferenciação biológica a nível do córtex cerebral do Australopiteco e do Neandertal, conhecida como a abertura da concha cortical. Contudo, segundo Leroi-Gourhan, o sistema cortical evoluiu pouco desde o Neandertal. Isto significa que o sistema neurológico do Neandertal era muito semelhante ao nosso. Contudo, a evolução técnica continuou a ser mais complexa e acelerada desde os dias do Neandertal, chegando ao ponto em que parece ter criado, no presente, aquilo a que algumas pessoas chamam uma «ruptura antropológica».

Isto significa que a evolução técnica não depende da evolução biológica (que hoje em dia pode levar à oposição entre o bio-lógico e o tecno-lógico). O conceito técnico não está portanto inscrito antecipadamente numa organização biológica do cérebro. Neste sentido podemos dizer que a hominização é um processo de exteriorização: o espaço de diferenciação é produzido fora do espaço estritamente biológico, indiferente a ele, fora do «meio interno» no qual, segundo Claude Bernard, se encontram os elementos que constituem o organismo.

O processo de exteriorização é simultaneamente o processo de constituição daquilo que deve ser entendido como uma terceira camada da memória em relação ao que é aceite em seres humanos sexuados, desde o neo-Darwinismo da biologia molecular, seguido pelo trabalho de Weismann no final do século XIX, que são feitos de duas memórias:

- a memória das espécies, actualmente chamada genoma, e à qual Weismann deu o nome de gérmen,

- e a memória do indivíduo, ou seja, a chamada memória somática, guardada no sistema nervoso central do individuo, que é a memória da experiência.

Isto tornou-se verdade desde o lymnaea do Lago Genéve, estudado por Piaget, até ao chimpanzé, passando pelos insectos e todos os vertebrados. É por esta razão que se pode domesticar um gato, um falcão ou uma vaca: existe uma margem de indeterminação na memória individual, uma plasticidade neuronal que nos permite aprender.

Acontece que o homem está dotado de uma terceira memória que os animais não têm, e que é constituída e apoiada pela técnica. Um pedaço de sílex cortado é a inscrição de uma forma numa matéria inorgânica organizada pelo corte, sendo este último aquilo que o filósofo Gilbert Simondon chamou «tomada de forma»: o gesto técnico pressupõe uma organização transmitida via inorgânico, contudo abrindo, pela primeira vez na história da humanidade, a possibilidade de transmissão de conhecimento individual de modo não-biológico.

É por isso que a técnica não se pode dissociar da memória humana: é aquilo que humaniza a memória, ou seja, a sua espiritualidade, a sua capacidade de se transmitir de geração em geração – e regressar como o espírito da humanidade, ou ainda como os fantasmas que tanto atormentam Hamlet. Este tipo de transmissão das experiências individuais de geração em geração é impossível no mundo animal. É por isto que não existe cultura animal ou espírito animal (ou, em termos mais clássicos, não existe hereditariedade nos traços adquiridos). Embora seja verdade que alguns dos grandes símios possuam este tipo de culturas, isso só quer dizer que estes têm de ser inscritos no mundo onde começou a humanidade – e, como embrião desta terceira memória, têm de ser inscritos neste processo que é a pré-história humana como um processo de hominização visto como um processo de exteriorização, e é por isso também que nós sentimos estar tão próximos dos grandes símios, mesmo que essa proximidade nos assuste.

A memória humana não pode ser separada da técnica, uma vez que é epifilogenética: deve ser avaliada como tal, como a terceira memória é ao mesmo tempo produto da experiência individual, chamada epigenética e do meio filogenético, ou seja, constitui um verdadeiro phylum [filão] cultural intergeracional, de acumulação de saberes daquilo a que não podemos chamar simplesmente espécie humana, mas sim humanidade.

Existe uma história da epifilogénese, e é impossível dar conta das possibilidades do saber sem especificar os estados epifilogenéticos no seio dos quais se produz o conhecimento. Esta mistura epifilogenética contém linguagem e técnica, símbolo e utensílio: a linguagem e a técnica são o ponto alto do mesmo processo de exteriorização. São, com diz Leroi-Gourhan, dois aspectos da mesma realidade absolutamente nova na história da vida.

O facto essencial é esta exteriorização não precedida por qualquer interioridade – mas que, inversamente, provoca uma interiorização, ou seja, que é sempre simultaneamente interiorização e exteriorização. Neste aspecto, a linguagem está essencialmente ligada à realidade técnica vista como um produto social que não é feito de determinação genética, mas cuja estrutura tem a sua própria dinâmica e forma um sistema, que eu herdo, que eu posso interiorizar e modificar (como as regras de um jogo no caso da linguagem e como uma organização funcional no caso da técnica). Esta dupla face da exteriorização constitui uma tecno-lógica. Quanto ao momento da interiorização, aquele que é sempre esquecido, permite-nos também esquecer a exterioridade primordial, como a água que o peixe nunca consegue ver, uma vez que ele só consegue ver dentro de água.

Se a técnica em geral é para o Homem um meio de memória epifilogenética, nem toda a técnica está feita para a preservação de memória: um pedaço de sílex cortado, por exemplo, não foi feito para conservar a memória – foi feito para cortar carne, para trabalhar materiais. Acontece que é também espontaneamente um vector de memória. É por isso que os arqueólogos conseguem reconstruir uma civilização a partir de um pedaço de sílex cortado, de pedaços de cerâmica ou de qualquer objecto manufacturado: os gestos estão conservados nos objectos, que podem ser interpretados a um outro nível, tornando-se assim registos da motricidade humana e, subsequentemente, do comportamento humano, ou seja registos do espírito humano.

É sobre este cenário epifilogenético geral que apareceram, certamente depois de trinta ou quarenta mil anos, ou talvez mesmo desde o Neandertal e das primeiras práticas funerárias, os usos propriamente ditos de mnemo-técnicas – nomeadamente as pinturas rupestres. Os grupos humanos começaram então a desenvolver técnicas e comportamentos feitos para transmitir memória, entre os quais o churinga e toda a espécie de mitogramas e engramas, tais como as cordas entrelaçadas dos índios Americanos e as tatuagens no corpo dos bruxos que são simultaneamente instrumentos de cálculo.

Contudo, foi depois do período Neolítico, isto é, há pouco mais de 10.000 anos, quando ocorreu a sedentarização, que se desenvolveram verdadeiros sistemas de numeração. Isso tornou-se aquilo que é hoje reconhecido como os sistemas de escrita. A sedentarização, que conduziu à civilização urbana, deu-se perto do território do actual Iraque, com o Império Mesopotâmico. Isso significou a passagem do caçador recolector ao agricultor-pastor que já produzia uma certa acumulação de capital, ou seja mais do que as suas necessidades imediatas. Isto permitiu ao homem «investir», em realizações técnicas, artísticas, religiosas, tão sumptuosas como utilitárias, por exemplo sistemas de irrigação e pirâmides que correspondem àquilo que costumamos designar por marcas de civilização.

A agricultura tornou possível a acumulação de stocks, que tinham de ser contados – foi assim que apareceram os primeiros sistemas de contagem, registados em diferentes suportes, e os cálculos feitos a partir desses registos. Estes sistemas de numeração em breve permitiriam a criação de um sistema de calendário (surgiu na Mesopotâmia no final do 4º Milénio, e também no Egipto; do 3º Milénio em diante foi divido em 365 dias), que possibilitaram à comunidade a antecipação das variações climáticas associadas às estações, e em particular das cheias – do Tigre, do Eufrates e do Nilo.

Deste modo começou a era dos Grandes Impérios, resultante da combinação de dois factores que se potencializaram: a riqueza do aluvião de grandes rios e as anotações técnicas que permitiram a previsão de cheias e a subsequente optimização da exploração da fertilidade dos aluviões. Em pouco tempo os sistemas de anotações evoluiriam: no espaço de mil e quinhentos anos as mnemotécnicas passaram de hieróglifos ao alfabeto.

A escrita alfabética que usamos – incluindo a dos teclados dos nossos computadores e telemóveis – surgiu com os Gregos. A alfabetização foi a base a cidade grega: foi a sua condição de possibilidade. A cidade grega era uma comunidade que possuía um conhecimento crítico das suas regras de convivência. A estas regras de vida, tal como são conhecidas, descritas e criticáveis, chama-se o direito.

A cidade conseguiu esse conhecimento crítico das suas regras de vida apenas porque as exteriorizou e objectivou em texto escrito, distinguíveis no fluxo de palavras que se distingue a si mesmo pela escrita. O acesso crítico a este texto está aberto a toda a comunidade, dado que a escrita em questão é o alfabeto, ou seja, um sistema muito económico de sinais diacríticos, constituído apenas por menos de trinta letras que qualquer leitor ou escritor pode aprender. É por isto que as primeiras escolas surgiram nas cidades gregas.

Por outro lado, o alfabeto grego trouxe literalmente, ou seja, quase exactamente, a possibilidade de voltar a aceder ao pensamento – à passagem e ao passado em que consiste o pensamento. Se, por exemplo, lermos Ménone no grego da época de Platão, acedemos directamente aos pensamentos de Platão – independentemente da opinião de Platão sobre hipomnése. Podemos, com certeza, interpretar este texto de diversos modos – mas nem mais nem menos do que poderíamos fazer das palavras de Platão na sua presença. Podemos argumentar, como Platão fez em Fedra, que o próprio Platão defenderia a sua interpretação das suas próprias palavras. No entanto, não sabemos se Platão seria o melhor intérprete das suas palavras. Além disso, ele próprio poderia ter mudado a interpretação das suas palavras com o passar do tempo. De facto, foi isso mesmo que aconteceu: Platão não interpretou o mito de Perséfone na época de Ménone, como o fez na época de Fedra ou de A República, por exemplo.

Todos nós interpretamos as nossas vidas de modo diferente ao longo do tempo: felizmente mudamos o nosso ponto de vista sobre o mundo e sobre nós próprios. Isto significa que nós não compreendemos as nossas próprias palavras do mesmo modo ao longo do tempo – o que também quer dizer que as nossas palavras são basicamente receptivas a uma diversidade infinita de possíveis interpretações, que são simultaneamente testemunhas da abertura do futuro e hipóteses que o tempo nos traz. No entanto, isto não significa que todas as interpretações sejam válidas. Todos sabemos que, se Richter e Gould nos dão interpretações muito diferentes – e admiráveis – de Bach, nem todas as interpretações de Bach são válidas.

À medida que vamos lendo as palavras de Platão em Ménone, não temos a sensação de ficar com uma imagem adequada do pensamento de Platão: estamos numa relação imediata com o pensamento de Platão e sabemo-lo no mais íntimo. Estamos dentro do elemento natural do pensamento de Platão. Não é o caso da escrita cuneiforme. A leitura da escrita cuneiforme dos Mesopotâmios é ainda irredutivelmente incerta no que respeita ao seu significado. Não existem dúvidas quanto ao significado dos textos de Platão: é o seu sentido que é objecto de debate – e o seu sentido não é o seu significado (significado, como disse Wittgenstein, é utilização). Aquilo que não preserva o seu registo ortográfico literal é o tom, a prosódia, que só pôde ser preservada depois da invenção do fonógrafo.

O alfabeto significou o advento da primeira mnemotécnica de carácter verdadeiramente ortotético. Este neologismo formou-se a partir das palavras gregas orthotès e thésis. Orthotès significa exactidão, e thésis significa posição. Tal como a escrita alfabética, a escrita «ortotética» testemunha precisamente o passado. Nesse sentido, permitem uma intensificação do acumular da técnica em geral, e em especial das mnemotécnicas, que são por si próprias um cúmulo infindável de características (compiladas na Biblioteca de Alexandria, antes do incêndio). Contudo aqui a cumulatividade parece dar uma espécie de salto em frente dado que não só Platão começou a escrever de um modo fundamental para a sua forma de filosofar (apesar dos defeitos da hipomnesis), mas também o que ele escreveu era literalmente legível, como tal tornou-se possível continuar o diálogo com ele na sua ausência – que foi exactamente o que Aristóteles fez, o que fizeram os Neoplatonistas, o que toda a Filosofia fez, e é aquilo que procuramos aqui, neste texto que dia-loga com Platão, referindo-se a algumas das suas obras que podem ser comentadas palavra a palavra.

A possibilidade de comentário é também a de anamnese, ou seja, deste processo de reconhecimento no qual Platão identifica a própria acção de aceder à verdade na troca que constitui um diálogo. Longe de ser o oposto de anamnese, como Platão reclama, a hipomnese é a sua condição. Contudo, trata-se de uma condição ambígua: pode ainda impedir a anamnese, como temia Platão. A propósito, neste momento vivemos numa era perigosamente hipomnésica. Inversamente, a afirmação de Platão segundo a qual a anamnese é o oposto da hipomnese é inaceitável. Pelo contrário, devemos afirmar que a anamnese é a melhor forma de praticar a hipomnese. Contudo, isto também significa que temos de ultrapassar a dialéctica, uma vez que esta atrai o princípio da contradição, a textualidade hipomnesica está estruturalmente disponível para uma multiplicidade de interpretações - que é a base do diacronismo do pensamento, ou seja, significa que o pensamento é o tempo do pensamento enquanto ele pensa o tempo da técnica que não pára de evoluir.

O que torna possível o diálogo com Platão hoje em dia (e que tornou possível o diálogo de Platão consigo mesmo – ao longo do tempo do seu pensamento) é o facto de ele ter escrito os seus pensamentos e, tendo escrito os seus pensamentos, nós podemos re-actualizá-los – ou, como afirmou Husserl, reactivá-los como uma nova intuição. É também a sua capacidade de reactivação, escondida na literalidade dos textos gregos, que possuem sempre um alcance analítico e crítico e têm sempre um significado polémico, que é o ponto originário de um tipo de raio de luz – e que nos dá uma imagem cristalina da Grécia que nos é imposta até aos nossos dias. Ficamos com a ideia de que a Grécia era só luz: trata-se daquilo que é conhecido como o «Milagre Grego». Claro que existe ainda o Partenon – contudo o erigir do Partenon estava por si mesmo ligado ao advento da escrita. Esta «luz» é o efeito de uma era de epifilógenese. Longe de ser iluminação pura e simples, a sua base era bastante material.

Por oposição à queda da situação epifilogenética do Homem surgiram as mnemotécnicas há milhares de anos. São as escritas do Neólitico em diante. O alfabeto teve um papel fundador cerca do século sétimo a.C.: o oeste, nada menos, surgiu aqui – enquanto que à volta da Grécia, numa forma consonântica de alfabeto, as primeiras Bíblias foram escritas a partir do século XI a.C.

As mnemotécnicas possibilitam a retenção material do tempo, preservando o passado numa forma re-activável segundo as características próprias da mnemotécnica. O estudo das condições de trabalho da consciência colectiva e individual está fundamentalmente condicionado pelo estudo das técnicas que permitem à consciência aceder ao seu próprio passado. Este é, obviamente, um tema importante, dado que as mnemotécnicas, que se tornaram mnemotécnologias, são neste momento o núcleo do desenvolvimento industrial.

A escrita alfabética é uma síntese literal da memória. Do século XIX em diante, com a revolução industrial, novas técnicas de preservação de memória, novas mnemotécnicas, ortotética, tais como a síntese literal, surgiram contudo de um modo novo. A percepção visual e técnicas áudio de síntese analógica, fotografia e fonografia, tal como o alfabeto, permitiram a preservação exacta e a transmissão, fixando num meio material, elementos do passado. Já não se trata do significado de uma enunciação vocal, à qual os símbolos ortográficos devolveram o carácter diacrítico dos fonemas da linguagem, e através deles, significado, mas antes, por exemplo, frequências de luz e som produzidas por um objecto de percepção – a voz de um actor ou cantor, o som de uma orquestra, frequências fracas emitidas por uma paisagem ou um rosto.

Do século XIX em diante, novas ortóteses foram capazes de reconstruir muito maiores fatias do passado do que as da fundação da civilização dos livros: a escultura, a pintura e os meios artísticos de representação do passado, etc. já existiam, contudo não eram verdadeiros registos ortóticos. Se redesenharmos o percurso que nos liga ao Australopiteco, podemos dizer que o homem é um ser epifilogenético e que na história da epifilogénese, que começou há pouco menos de dois milhões de anos como processo de exteriorização, as mnemotécnicas surgiram possivelmente há dezenas de milhares de anos; então, depois do Neolítico, surgiram os sistemas de notações escritas, que deram origem à primeira síntese ortótica da memória, a síntese literal do alfabeto, a que se juntou no século XIX, através da síntese analógica ortótica, primeiro com a fotografia, depois com a fonografia, e mais tarde no século XX, a cinematografia, a rádio e a televisão.

A importância da imprensa como técnica de duplicação deve ser ressaltada aqui. Contudo esta técnica de reprodução mecânica apenas ampliou o efeito da síntese literal e não constitui uma nova forma de síntese em si mesma. Os efeitos do desenvolvimento desta ortótese alfabética foram, obviamente, muito mais longe; no entanto, não são uma nova síntese ortótica. Inversamente, esta foi claramente uma nova era na epifilogénese – que condicionou o aparecimento da colonização, seguida do capitalismo.

A segunda parte do século XX assistiu ao aparecimento da síntese ortótica digital, primeiro através da informática e presentemente através de todos os tipos de aparelhos electrónicos. Mais uma vez, esta nova revolução na gravação está prestes a transformar profundamente aquilo que alguns filósofos chamam o êxtase do tempo – ou seja a relação entre o passado, o futuro e o presente.

As principais consequências da evolução do fundo epifilogenético que constitui a humanidade são uma modificação da relação entre estes três períodos do êxtase de tempo. Por outras palavras, depois da revolução industrial, uma boa parte da qual consistiu no desenvolvimento de novas mnemotecnologias, particularmente nos séculos XX e XXI, vivemos transformações nas condições de temporalização, ou seja na individuação, isto é no processo pelo qual, individualmente ou em grupo, nos tornamos aquilo que somos.

Somos essencialmente seres temporais. As bases epifilogenéticas da nossa temporalidade são o factor condicionante principal da nossa relação com o tempo, ou seja, connosco próprios enquanto continuarmos a existir, enquanto tivermos um futuro, enquanto estivermos fundamentalmente em modo futuro, enquanto devotarmos toda a nossa energia e força a tentar apressar (normalmente sem proveito, embora com alguns efeitos) aquilo em que nos (tornámos) tornamos – e até mesmo aquilo que o mundo será depois de nós.

Tradução por Ana Carinhas


[1] Ver LG, e o meu comentário em TT1.

[2] No segundo capítulo de La faute d’ Epiméthée.

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