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CulturaImprimirDicionário critico

Arcaico

José Bragança de Miranda

É difícil distinguir entre «primitivo» e «arcaico», por serem termos aparentemente intercambiáveis, a que se poderia acrescentar ainda os de «elementar» ou «elementos», «originário», etc. Na sua variedade, estes termos remetem para a permanente requisição do passado para as tarefas do presente. Tal requisição constitui um fenómeno especificamente moderno, embora todas as culturas tendessem sempre para mitificar as suas origens, através de lendas da fundação ou de mitos similares. Sendo a modernidade, como afirma Hans Blumenberg (1920-1996) «a época das épocas», ou seja, aquela que inventa a noção de época e a suspende numa eternidade aparente (Cf. Legitimitätet der Neuzeit, 1966), compreende-se bem a tendência para «actualizar» o passado (e, vistas bem as coisas, o «futuro» através de utopias e distopias várias), criando-se assim um campo de batalha em torno das imagens que procuram determinar o presente. A busca das origens ou as imagens do futuro são parcialmente ficcionais ou inventadas, tanto mais que não é possível retraçar empiricamente as origens, que são inseparáveis de uma certa idealização de processos plurais e que se desdobram no tempo e no espaço. Esse tipo de imagens ideais visa mais afectar o presente do que descrever o passado, sucedendo o mesmo com as «utopias». Neste aspecto, tratam-se de conceitos polémicos, politicamente densos.

Palavras chave: TOTEM/TABU; CLAUDE LÉVI-STRAUSS; PRIMITIVISMO; KARL POLANYI; TÉCNICA; GLOBALIZAÇÃO

Este tipo de noções ou imagens remete para diversos traços característicos da modernidade, nomeadamente para a reflexividade que leva à permanente inquirição do existente, que se desdobra especulativamente. Remete ainda para as tendências patrimoniais e arquiviais, que tudo pretendem classificar e ordenar numa espécie de mega-arquivo, de que as actuais bases de dados são um sinal avassalador.
Acima de tudo, este tipo de conceitos é um efeito da historicidade modernidade e das suas diversas lógicas narrativas, as quais se podem, um pouco esquematicamente, ser divididas em dois modelos:
1) o modelo linear e expansivo associado ao iluminismo, que tende a privilegiar as diversas etapas que conduziram à civilização, e aqui a noção de primitivo tende a ser um operador essencial;
2) o modelo circular ou especulativo da história, com alguma afinidade com as antigas teodiceias, desenvolvido por Hegel e Marx, que tende a acentuar o «fim da história», momento em que se realiza o projecto com que ela se inicia, e que se pode sintetizar no dito de Karl Kraus de que «o princípio está no fim». Neste segundo modelo, tende a predominar a noção de «arcaico». 

Note-se de passagem que se no século XIX se insiste no primitivo, já no século XX é a questão do arcaico que ganha maior preponderância. O que talvez se explique pelo desmentido da visão linear da história e do mito do progresso ininterrupto em que se fundava. Com efeito, as duas guerras mundiais, o concentracionário, a enorme pobreza global abalaram a influência do historicismo optimista das luzes, forçando inevitavelmente a reavaliação da própria noção de primitivo. A morte em massa nas duas guerras abalou a própria ideia de civilização, além do que o melhor conhecimento das culturas chamadas primitivas permitiu conhecer o enorme refinamento filosófico e cultural da Índia, da China ou do Japão (Cf. Jean Starobinski, «Le mot civlisation» in Le remède dans le mal, 1989). O apelo suscitado pelo arcaico corresponde à convicção de que fenómenos anteriores retornam e se repetem no presente, sendo necessário contar com esse retorno, o qual que é sentido como «inquietante», como Unheimlich para se usar uma formulação de Sigmund Freud (1856-1939). A visão especulativa da história – o fecho do círculo entre princípio e fim - serve de base a este processo, na medida em que o «actual» ou «presente» é o palco onde se joga a articulação das origens e dos fins, historicamente decididos ou indecididos, mas que afectam a decisão crucial sobre as tarefas do presente. O intenso debate sobre o primitivismo, o arcaico e o elementar, que caracteriza o pensamento, as artes e a ciência contemporâneas, tem o seu fundo de verdade no facto de se estar a entrar num momento crucial para a comunidade dos humanos, crescentemente marcada pela potência da técnica e pela necessidade de reformular as formas como a Terra foi partilhada ao longo a história, bem como as formas assumidas pelo corpo individual, mas também os «corpos» («comunidades») sociais ou nacionais.
O primitivismo foi um primeiro sintoma deste processo, servindo para fundar as teorias da civilização, em boa medida etnocêntricas ou eurocêntricas. O primitivo, encarado como barbárie e selvajaria, constituiria assim fases anteriores do desenvolvimento civilizacional, correspondendo a formas de actuação míticas, intuitivas e, basicamente, não racionais. A influência das análises da magia feitas por James Frazer (1783-1856) em The Golden Bough e, mais ainda, de Lucien Lévy-Brühl (1857–1939), a quem se deve o influente livro La mentalité primitive (1922), que o próprio reformulou posteriormente, deve-se à aparente evidência desta divisão entre razão e pensamento primitivo. A antropologia contemporânea criticará vigorosamente esta visão. Assim, Claude Lévi-Strauss (1908-2009) em La pensée sauvage (1962) sublinhará que não existem diferenças significativas nos modos de pensar modernos e primitivos, estando em causa modalidades distintas de utilização dos materiais disponíveis, uns mais concretos e ligados à imagem e outros mais abstractos.
Uma outra forma de primitivismo foi desenvolvida pelo românticos do século XIX, que combatiam a racionalidade moderna a partir de uma relação mais espontânea com a «natureza», levando-os a privilegiar a sensibilidade e as paixões, mas também as lendas e os mitos populares com que se teria originado a nação. Uma outra versão desta tendência romântica ou simbolista é a forte inclinação para o exotismo, valorizando culturas distantes, como as do oriente, casos da Índia, do Japão ou da China. Edward Said (1935-2003) mostra bem os efeitos ideológicos deste exotismo e a sua ligação à política imperial do Ocidente (Cf. Orientalism, 1978). Uma outra tendência do primitivismo ocorre nas artes, ligadas ao primeiro vanguardismo. A chegada aos países europeus e aos Estados Unidos de objectos de culto de origem africana ou ultramarina, com a concomitante criação dos museus etnográficos e antropológicos, a descoberta das obras paleolíticas e pré-históricas, perturbaram profundamente o cânone artístico europeu. De facto, a manifesta artisticidade dos objectos arcaicos começou a erodir a hierarquia que separava objectos utilitários e artísticos.
Muitos artistas e não dos menores, como Picasso, Duchamp, Klee, Braque, Breton, etc., criam novas obras híbridas, misturando formas «primitivas» ou concepções arcaicas do espaço-tempo, para impulsionarem o vanguardismo. O ataque à perspectiva e à mimesis naturalista abriu o caminho ao vanguardismo e experimentalismo, estando na base da expansão das artes que ocorreu durante todo o século XX. Encontra-se uma primeira teorização deste movimento de ruptura no livro Negerplastik (1915) de Carl Einstein (1885-1940), que tendo o cubismo por pano de fundo, procura refundar a arte contemporânea através da crítica dos objectos e da multi-estratificação do espaço da arte.
É certo que a ideologia do primitivismo – e o esquema civilizacional em que se fundava - estava de algum modo subjacente a estas tentativas. Carl Einstein é um dos primeiros críticos do «falso conceito de primitivismo» (sic), que se apoia em discriminações estéticas insustentáveis e num «vago evolucionismo».

Sendo certo que em boa parte dos artistas existe um diálogo com os objectos extra-europeus, sendo clara a intenção de criticar a unilateralidade das formas de arte ocidentais, a «apropriação» desses objectos foi sempre ambígua, apresentando-os como «documentos» do passado ou explorando-os para alimentar uma arte exangue e o mercado correspondente. Durante muitos anos remetidos para os museus de antropologia ou «apropriados» pelos grandes artistas do século XX, a sua entrada no museu de arte é contemporânea da demolição crítica do primitivismo em arte. Sintoma dessa viragem são as exposições Primitivism in XX Century Art: Affinity of the Tribal and  the Modern, da responsabilidade de Wiliam Rubin e Kirk Varnedoe, organizada no MOMA de Nova Iorque em 1984; e a correspondente na Europa, Magiciens de la terre, comissariada por Jean-Hubert Martin, que teve lugar no Musée National d'Art Moderne no Centro Georges Pompidou em Paris (1989). A acerba crítica que estas exposições mereceram, apesar das boas intenções dos comissários, revela que os «conceitos» de primitivo e primitivismo são politicamente problemáticos e explosivos, equivalendo a uma exoticização e menorização desses objectos e da intenção artística que os alimenta. 
Em suma, o primitivismo, apesar da sua produtividade nas artes do século XX, corresponde a uma estratégia que se torna presa fácil de esquemas evolucionistas politicamente contestáveis. Há alguma vantagem em contrapor-lhe a noção de «arcaico», que tendo surgido no século XIX, tal como o primitivismo, aponta para uma outra ordem de fenómenos. Não é que elementos arcaicos estejam ausentes do primitivismo, nomeadamente no caso das artes. Em geral, «arcaico» significa algo antigo, pré-histórico ou anterior à escrita. Esta ideia de algo perdido no tempo, muito antigo, corresponde a uma das acepções do termo grego arkhaikòs, mas a sua importância assinala-se na sua relação com arkhé, que significa «começo» ou «origem». Em vez de ser uma etapa do passado cujos traços sobreviveriam nas chamadas «comunidades primitivas», no arcaico está em questão uma origem radical, que insiste no presente, retornando algo fantasmagoricamente. Não se trata de formas arcaicas, dado o imenso refinamento de que dão provas, quer nas pinturas rupestres, na tragédia grega ou na arquitectura oriental, mas de repetir decisões originárias que determinaram a história, que se cristalizaram em determinadas instituições e processos.
Como veremos, o arcaico torna-se sempre contemporâneo.
Os exemplos desta estratégia são abundantes e esclarecedores. Assim, para Sigmund Freud, o arcaico sobrevive através de traços soterrados no inconsciente, afectando a vida colectiva, como procura demonstrar em Totem e Tabu (1913). Também Karl Marx, através da noção de «exploração», voltará a sua atenção para os usos dos corpos, procurando detectar, para além do juridismo moderno, a sobrevivência de formas arcaicas ligadas à escravatura e à servidão medieval no interior do próprio juridismo moderno, bem como a partiha da terra que subjaz à constituição das nações e da «propriedade privada». Essa via será seguida por muitos outros autores e dos mais significativos, como é o caso de Aby Warburg (1866-1929), que fará da ideia de sobrevivência um elemento metodológico essencial para a análise das imagens contemporâneas e do seu poder afeccional, ou ainda de Walter Benjamin (1892-1940), cuja noção de «restituição integral» de tudo o que sucedeu equivale a uma forma de reelaboração do arcaico. Diga-se de passagem, que a similitude com a teoria platónica da reminiscência é grande, constituindo o arcaico a anamnese do esquecido, reprimido ou superado. O arcaico corresponderia ao efeito de decisões tomadas historicamente, que retornam em certas circunstâncias de crise, permitindo decidir conscientemente o que fora decidido inconscientemente na/pela história.

É sintomático que «arcaico» comunique de maneira subterrânea com «arquitectura», «arquivo», «arquétipo», «anarquia», etc. Isso remete para o poder originante que se cristaliza em princípios firmes indiscutíveis, os arkhai, que Aristóteles tornou num termo técnico, servindo para sugerir a «origem», mas também «causa», «princípio de conhecimento». Desse ponto, está em causa uma lógica da principialidade, das fundações e do controle. A origem da razão, das estratégias de controlo, tem origem muito cedo. Desde os tempos mais recuados encontramos inúmeros traços de uma antiga mnemotécnica, que procura garantir a transmissão segura do adquirido e estabelecido; aliás, o próprio mito dá-nos testemunho da necessidade de dar visibilidade ao perigo e ao risco, de modo a escapar-lhes ou antecipar-se-lhes. Daí a presença milenar de um impulso tectónico, uma arquitectura geral, que estabiliza decisões primitivas, ao mesmo tempo que as transmite e instala no mundo.
De origem grega, o termo tectónico provém de tekton, significando carpinteiro ou construtor. É em Homero que se encontra a primeira referência a este termo, aplicado à arte da construção em geral. Todo o fazer é tectónico, na medida em que se expressa materialmente, entrando em existência e mobilando o mundo. Numa acepção mais extrema, o próprio mundo é uma construção. Esta ambiguidade atravessa toda a história ocidental, estando subjacente à própria noção de arquitectura. De facto, a arquitectura associa na mesma palavra a arkhé, o princípio essencial ou os começos, e a tectónica ou construção. A vontade tectónica domina inteiramente a modernidade, estando subjacente à ideia de que o real é programável e planificável. A tectónica geral ou a razão tectónica implica um construtivismo total que corresponde apenas a uma possibilidade, mas que visa sempre tornar-se absoluta. Daí a resistência proveniente das artes à pulsão construtivista, de que é exemplo O Construtor (1891) de Ibsen ou O Poço (1930), um romance de Andrei Platonov contra a utopia construtivista estalinista. A intensa discussão sobre o tectónico e a arquitectura equivale a uma forma de reabertura da decisão arcaica em que se funda o construtivismo e que hoje pesa sobre o destino da terra.

Em geral, o apelo ao arcaico é inseparável de uma crítica das instituições dominantes da modernidade, fazendo-se sentir em todos os domínios. Isso sucede de forma paradoxal, pois o fascínio com a pré-história e as formas arcaicas, nem sempre impede o anacronismo de projectar no passado ideias e tendências que são basicamente modernas. Seja como for, é na vertente da economia que a mistura entre o arcaico e o hiper-moderno se revelou bastante produtiva, visando a crítica da economia de mercado ou do capitalismo. As formas pré-históricas e arcaicas, boa parte delas muito hipotéticas, cedo foram usadas contra o capitalismo e a instituição do mercado e, em geral, os principais pressupostos da economia clássica. As «economias do primitivo» compartilham todas elas a crítica do universalismo da economia formal e a recusa da «autonomia» da economia. Boa parte destes elementos encontram-se presentes já na obra de Karl Polanyi (1886- 1964), nomeadamente no influente livro The Great Transformation (1944), mas também na visão mais culturalista de Marshall Sahlins, nomeadamente em Stone Age Economics  (1974), embora a atenção ao primitivo se tivesse iniciado já no século XIX, senão mesmo antes, se pensarmos nas filosofias políticas de Hobbes e de Rousseau. Este tipo de crítica da economia a partir de uma economia primitiva ou arcaica serviu a alguns para legitimar as formas assistenciais do Estado moderno e está na origem da procura de uma «economia geral».  
Um outro importante aspecto, que tem origem na revolução freudiana dos saberes, tem a ver com a problemática das afecções e a sua inscrição em diversos dispositivos sociais. Tudo se passa, portanto, como se na história estivesse em acto uma estilização de «afectos» primordiais, entrançados entre si, e a partir dos quais se opera um trabalho permanente de criação de emoções e de dispositivos que as utilizam. A emergência da história e da comunidade que lhe está subjacente, para além dos elementos construtivos e das leis económicas, foi sempre acompanhada por um trabalho sobre as afecções, de modo a torná-los úteis e utilizáveis (ou a impedir a sua periculosidade). Deste ponto de vista, são particularmente significativas as análises de Martin Heidegger sobre as «disposições» e as de Gilles Deleuze sobre o «afecto». Assim, Deleuze distingue o «afecto» de afecções por, ao contrário destas últimas, não ser da ordem da subjectividade, definindo-o como «um devir não-humano do homem», o qual se cristaliza em certas obras ou «dispositivos» que têm um poder de aceleração, intensificação ou de petrificação da vida (Cf. Qu’est-ce que la philosophie?, 1991) A ideia deleuziana de que a afecção visa a invenção de «novos» afectos não impede o reconhecimento de existem uma série de afectos já estabilizados historicamente, que se produzem como afecções ready-made e que são facilmente utilizáveis pela televisão, o cinema ou o discurso. A técnica actual revela que desde sempre esteve em causa uma techné das emoções, a qual recorre a estruturas ancestrais para afectar o presente.

Em suma, para além da metafísica do controle, da tectónica, da economia ou das lógicas afectivas, o arcaico emerge de maneira pouco clara, mas atestável. Se aceitarmos com Walter Benjamin que a história é «o cortejo triunfal dos vencedores» («Thesen über den Begriff der Geschichte», 1940), então o arcaico é a pressão do vencido ou subordinado no meio da arquitectónica dos vencedores, a qual tende a ocupar todo o terreno e a toda a viabilidade.  É justamente a pressão do arcaico (e os sonhos de futuro que alimenta) que impede a cristalização do presente em torno de estruturas desequilibradas e injustas. Como afirma Giorgio Agamben: «A contemporaneidade inscreve-se no presente, assinalando-o como arcaico. Só aquele que se apercebe nas coisas mais modernas e mais recentes dos indícios ou da assinatura do arcaico pode ser contemporâneo. Arcaico significa próximo da arkhé, da origem. Mas a origem não está apenas situada num passado cronológico: ela é contemporânea do devir histórico e não cessa de agir através dele.» (Cf. Qu'est-ce que le contemporain?, 2008). Que na contemporaneidade esta pressão seja maior do nunca tem a ver com a maneira como nos nossos dias as partilhas e as divisões mais arcaicas - as que têm a ver com a carne e as que têm a ver com a terra - entraram em crise profunda, impulsionadas pela técnica e a globalização. Trata-se de encontrar outras formas de (re) começar.

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