Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Warning: mysql_real_escape_string(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/DataSource.php on line 92 Warning: mysql_query(): 54 is not a valid MySQL-Link resource in /var/www.arte-coa.pt/Classes/Ligacao.php on line 103 Côa

CulturaImprimirDicionário critico

Construção/Tectónico

José Bragança de Miranda

De origem grega, o termo tectónico provém de tekton, significando carpinteiro ou construtor.

Palavras chave: Técnica; Natureza; Mito; Imagem Virtual

Esta acepção ligada à carpintaria vem mais originariamente do sânscrito taksan, também referindo a carpintaria e a colunas. É em Homero que se encontra a primeira referência a este termo, aplicado à arte da construção em geral. Mas tekton tem também uma conotação poética, sendo usado por Safo como metáfora do poeta, o verdadeiro construtor do mundo e que ainda ecoa nos versos famosos de Hölderlin segundo os quais «tudo o que permanece, o poeta o funda». A mudança grega essencial tem a ver com a passagem de uma prática específica ligada à técnica da construção, para se confundir com a poesis, o fazer em geral. Todo o fazer é tectónico, na medida em que se expressa materialmente, entrando em existência e mobilando o mundo. Numa acepção mais extrema, o próprio mundo é uma construção. Esta ambiguidade atravessa toda a história ocidental, estando subjacente à própria noção de arquitectura. De facto, a arquitectura associa a arkhé, o princípio essencial ou os começos, à tectónica ou construção. Pode ser, simultaneamente, uma prática particular ou uma construção geral, o que levava os antigos a definirem Deus como o grande arquitecto.

Assim, a tectónica é inconsciente ou consciente, geral ou particular. Talvez a diferença essencial se pudesse resumir assim: antes da modernidade a tectónica era inconsciente na sua relação com o mundo e particular na relação com a construção; depois da modernidade torna-se pensável ou consciente em relação ao mundo – a modernidade é a época dos programas e dos projectos – e geral relativamente à construção. O gesto singular do arquitecto torna-se problemático, quando é retirado do povo e se especializa.

O princípio construtivista domina inteiramente a modernidade, estando subjacente à ideia de que o real é programável e planificável, mas a sua origem remonta aos primórdios da cultura, explicitando-se na época da metafísica grega, nomeadamente com Platão, estando subjacente na alegoria da caverna. Para Platão o mundo era uma construção falsa, baseada na projecção de «imagens» e de «sons» sobre uma superfície, que servia de ecrã e ocultava o próprio processo de construção, puramente inconsciente para os habitantes. Esta tendência foi crescendo até à modernidade, levando o escritor japonês Kojin Karatani a sustentar que «o pensamento ocidental caracteriza-se pela vontade de arquitectura que ressurge e se renova em tempos de crise» (Cf. Architecture as Metaphor: Language, Number, Money, MIT, 1995). Assim, a arquitectónica domina o pensamento moderno. Tanto Hobbes (1588-1679) como Vico (1668-1744) defendem que só podemos conhecer verdadeiramente aquilo que nós próprios fizemos. Com Kant o construtivismo tem um momento decisivo, nomeadmanete pela sua distinção entre o real, as coisas em si mesmas que escapam ao conhecimento, e os fenómenos que são determinados pelas categorias e conceitos do pensamento, que são construídos segundo o modelo da razão. É em torno desta diferença que tudo se joga – nela ecoa a divisão primitiva do humano relativamente à Physis - como se torna aparente na maneira como Fichte centra o saber sobre a projecção do sujeito humano sobre o «real». Na verdade, existem duas formas de construtivismo, uma mitigada e outra forte. Da primeira o modelo é Kant, na medida em que mantém a diferença originária e a trabalha permanentemente, enquanto a versão forte se manifesta com nitidez nos projectos de Fichte, Hegel e Marx. Neste último a ideia de uma construção total do mundo tende a predominar. A linhagem que vem de Platão a Hegel permite compreender que o construtivismo depende inteiramente da projecção de conceitos sobre o real e da sua matematização integral. A omnipresença da matemática digital e dos computadores no mundo de hoje é a culminação da tendência construtivista que tem um momento essencial no construtivismo lógico de Bertrand Russell e Rudolf Carnap, atingindo no Tractatus de Wittgenstein a sua formulação mais radical: «Os factos no espaço lógico constituem o mundo». A capacidade revelada pelos computadores para processarem matematicamente o real tornou profética a crítica de Georges Bataille à «arquitectura» enquanto tendência a incluir o mundo num «capote matemático (sic) e a dar uma «ordem matemática à pedra» (sic). Para Bataille, «sempre que a composição arquitectural se encontra, para além dos monumentos, na fisionomia, nos costumes, na música ou na pintura pode-se inferir um gosto predominante pela autoridade humana ou divina». (Cf. Georges Bataille, Dictionnaire Critique, 1929-1930). A matemática é o automatismo do programa construtivo.

Existe, portanto, um inegável elemento tectónico na cultura que vai além da construção e da arquitectura, e que remete para a necessidade de segurança, mas acima de tudo de controlo da «natureza» e, em geral, de tudo aquilo que parece exceder as forças humanas. Uma das condições essenciais para a emergência do humano passa pela suspensão ou diferimento do pânico ligado às forças ctónicas da terra e aos perigos que dela provêm, como catástrofes naturais, etc. Como afirma Carl Einstein «face à terra destinada a uma morte inevitável e às criaturas efémeras que os homens são, fabrica-se um “além” inquebrantável. A metafísica funciona nesses horizontes regidos por regras. Toda a religião ou civilização contém uma tendência anti-naturalista, o que significa que o homem procura criar figuras que escapem às condições mortais da sua realidade habitual». (C. Einstein, Braque, 1932). Neste sentido faz parte da tectónica a armação de formas e conceitos, em que se apoia a necessidade de calcular e antecipar o perigo, ou de minimizá-lo. Daí que a vontade tectónica constitua uma verdadeira arkhé da cultura.

A tectónica geral ou a razão tectónica implica um construtivismo total que corresponde apenas a uma possibilidade, mas visa sempre tornar-se absoluta. Sabe-se, como os antigos receavam a hybris construtora, como bem o atesta o mito da torre de Babel, esse edifício absoluto que deveria chegar aos céus. Para a mitologia, toda a construção humana corresponde a uma ruína desse projecto desmesurado de controlo. Mas, na modernidade a vontade tectónica tornou-se decisiva, e a luta em torno dela é um combate em torno do destino do mundo. Algo da antiga mitologia contra Babel resiste ainda em O Construtor (1891) de Ibsen ou no esplêndido romance de Andrei Platonov contra a utopia construtivista estalinista. Em O Poço (1930), Platonov mostra como a vontade de criar fundações absolutas para a casa total dos humanos leva a que tudo fique enterrado no imenso buraco aberto para as fundações. O edifício absoluto que deveria elevar-se anti-gravitacionalmente, fica encafuado nas profundezas da terra.

Seria preciso distinguir entre a tectónica geral ou razão tectónica, que visa a construção total do real e a «arquitectura». Uma das tentativas mais consistentes surge dos lados da arquitectura virtual, por exemplo com William J. Mitchell que elogia a «desmaterialização» desse tipo de arquitectura, sublinhando que «o uso de realidade virtual imersiva para criar experiências virtuais totalmente separadas da construção física, da matéria e da tactilidade». Terminaria, assim, a estabilidade desde sempre visada pelo tectónico, pois agora «as formas e as relações dos espaços podem ser programados para mudar e reformatar-se em qualquer maneira que o designer pretenda». Sendo verdade que o virtual acrescenta interessantes possibilidades à técnica e poética construtivistas, esta posição deixa escapar o facto de que a matemática e a geometria são a base da razão tectónica, a qual não tem necessariamente de se basear na estabilidade, sendo tanto mais invasiva quanto melhor conseguir incluir a plasticidade e movimento da vida. Seria preciso explicitar e interromper a razão tectónica e de pouco servem aqui programas gerais como os da «desconstrução» (Cf. Mark Wigley, The Architecture of Deconstruction: Derrida's Haunt, MIT, 1993) ou as tentativas de voltar à solidez da construção, como pretende Kenneth Framton (Cf. Studies in Tectonic Culture: The Poetics of Construction in Nineteenth and Twentieth Century Architecture, MIT, 2001). Tudo indica que é no gesto singular do «arquitecto» e numa poética de obras únicas que se pode interromper e moderar a imparável vontade de dominar o mundo e a natureza, de modo que seja verdade o que afirmava Hölderlin: «O homem habita poeticamente a Terra». 

© CÔA Todos os direitos reservados© All rights reserved